Dizeres Ăntimos
Ă tĂŁo triste morrer na minha idade!
E vou ver os meus olhos, penitentes
Vestidinhos de roxo, como crentes
Do soturno convento da Saudade!E logo vou olhar (com que ansiedade! …)
As minhas mĂŁos esguias, languescentes,
De brancos dedos, uns bebĂȘs doentes
Que hĂŁo-de morrer em plena mocidade!E ser-se novo Ă© ter-se o ParaĂso,
Ă ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
Aonde tudo Ă© luz e graça e riso!E os meus vinte e trĂȘs anos … (Sou tĂŁo nova!)
Dizem baixinho a rir: âQue linda a vida! …â
Responde a minha Dor: âQue linda a cova!â
Sonetos sobre Conventos de Florbela Espanca
5 resultadosA Minha Dor
A minha Dor Ă© um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsÔes sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.Os sinos tĂȘm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal…
E todos tĂȘm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias…A minha Dor Ă© um convento. HĂĄ lĂrios
Dum roxo macerado de martĂrios,
Tão belos como nunca os viu alguém!Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguĂ©m ouve… ninguĂ©m vĂȘ… ninguĂ©m…
Ăltimo Sonho De “soror Saudade
Ăquele que se perdera no caminho…
Soror Saudade abriu a sua cela…
E, num encanto que ninguém traduz,
Despiu o manto negro que era dela,
Seu vestido de noiva de Jesus.E a noite escura, extasiada, ao vĂȘ-la,
As brancas mĂŁos no peito quase em cruz,
Teve um brilhar feérico de estrela
Que se esfolhasse em pĂ©talas de luz!Soror Saudade olhou…Que olhar profundo
Que sonha e espera?…Ah! como Ă© feio o mundo,
E os homens vĂŁos! — EntĂŁo, devagarinho,Soror Saudade entrou no seu convento…
E, até morrer, rezou, sem um lamento,
Por Um que se perdera no caminho!…
Em VĂŁo
Passo triste na vida e triste sou,
Um pobre a quem jamais quiseram bem!
Um caminhante exausto que passou,
Que não diz onde vai nem donde vem.Ah! Sem piedade, a rir, tanto desdém
a flor da minha boca desdenhou!
Solitårio convento onde ninguém
A silenciosa cela procurou!E eu quero bem a tudo, a toda gente…
Ando a amar assim, perdidamente,
A acalentar o mundo nos meus braços!E tem passado, em vão, a mocidade
Sem que no meu caminho uma saudade
Abra em flores a sombra dos meus passos!
RenĂșncia
A minha mocidade hĂĄ muito pus
No tranquilo convento da tristeza;
LĂĄ passa dias, noites, sempre presa,
Olhos fechados, magras mĂŁos em cruz…LĂĄ fora, a Noite, SatanĂĄs, seduz!
Desdobra-se em requintes de Beleza…
E como um beijo ardente a Natureza…
A minha cela Ă© como um rio de luz…Fecha os teus olhos bem! NĂŁo vejas nada!
Empalidece mais! E, resignada,
Prende os teus braços a uma cruz maior!Gela ainda a mortalha que te encerra!
Enche a boca de cinzas e de terra
Ă minha mocidade toda em flor!