Chuva De Fogo
Meus olhos vĂŁo seguindo incendiados
a chama da leveza nesta dança,
que mostra velho sonho acalentado
de ver a bailarina que me alcançaos sentidos em febre, inebriados,
cativos do delĂrio e dessa trança.
Ă sonho, eu sei. E chega enevoado
na mantilha macia da lembrança:o palco antigo, as luzes da ribalta,
renascença da graça do seu corpo,
balé de sedução, mar que me faltapara o mergulho calmo de um amante,
que se sabe maduro de esperar
essa viva paixĂŁo e seu levante.
Sonetos sobre Dança
21 resultadosNerah
(Inspirado no elegante conto de VirgĂlio VĂĄrzea)
A VĂtor LobatoNerah nĂŁo brinca mais, nĂŁo dança mais. — E agora
Que vĂŁo-se apropinquando os tempos invernosos,
Nerah traz uns receios tĂmidos, nervosos,
De quem teme mudar-se em noite, sendo aurora.Seus sonhos de cristal, translĂșcidos, antigos
Se vĂŁo embora, embora Ă vinda dos invernos,
Seguindo em debandada os Ășmidos galernos —
— lembrando um roto bando informe de mendigos.NĂŁo canta o sabiĂĄ que triste na gaiola,
Parece, com o olhar, pedir-lhe a casta esmola
De um riso — aquela flor que esvai-se, branca e fria.Em tudo a fina seta aguda de afliçÔes!
Na própria atmosfera um caos de interjeiçÔes!
Em tudo uma mortalha, em tudo uma agonia.
Esterilidade
Ao vĂȘ-la caminhar em trajos vaporosos,
Parece que desliza em voluptuosa dança,
Como aqueles rĂ©pteis da Ăndia, majestosos,
Que um faquir faz mover em torno d’uma lança.Como um vasto areal, ou como um cĂ©u ardente,
Como as vagas do mar em seu fragor insano,
â Assim ela caminha, a passo, indiferente,
InsensĂvel Ă dor, ao sofrimento humano.Seus olhos tĂȘem a luz dos cristais rebrilhantes,
E o seu todo estranho onde, a par, se lobriga
O anjo inviolado e a muda esfinge antiga,Onde tudo Ă© fulgor, ouro, metais, diamantes
VĂȘ-se resplandecer a fria majestade
Da mulher infecunda â essa inutilidade!Tradução de Delfim GuimarĂŁes
ProfissĂŁo De FĂ©
Meu verso quero enxuto mas sonoro
levando na cantiga essa alegria
colhida no compasso que decoro
com pés de vento soltos na harmonia.Na dança das palavras me enamoro
prossigo passional na melodia
amante da metĂĄfora em meus poros
jĂĄ vou vagando em vasta arritmia .No vĂŽo aliterado sigo o rumo
dos mares mais remotos navegados
e em faias de catraias me consumo.Ă meu rito subscrito e bem firmado
sem o temor do velho e seu resumo
num eterno retorno renovado.
a fava
espero que me calhe aquela fava
que Ă© costume meter no bolo-rei:
quer dizer que o comi, que o partilhei
no natal com quem mais o partilhavanuma ordem das coisas cuja lei
de afectos e memĂłria em nĂłs se grava
nalgum lugar da alma e que destrava
tanta coisa sumida que, bem sei,pela sua presença cristaliza
saudade e alegria em sons e brilhos,
sabores, cores, luzes, estribilhos…
e até por quem nos falta então se irisana mais pobre semente a intensa dança
de tempo adulto e tempo de criança.
Vibra o Passado em Tudo o que Palpita
Vibra o passado em tudo o que palpita
qual dança em coração de bailarino
ao regressar jĂĄ mudo o violino
e hĂĄ nuvens sobre o bosque em que transitaĂ paz dos seres a morte em seu contĂnuo
crescer em ramos de coral incita
a bem da noite negra e infinita
ser um raro instrumento Ă© seu destino:O ceptro dos eleitos que nĂŁo cansam
o corpo que este tempo jĂĄ nĂŁo quebra
é como a cruz que os astros quando avançamsobre o sul traçam por medida e regra
Os deuses tĂȘm-no em suas mĂŁos cativo
risĂvel Ă© quem eles mandam vivo.Tradução de Vasco Graça Moura
Bolero Das Ăguas
O passo no compasso dois por quatro
acode meu suplĂcio de afogado
afastando de mim sedento cĂĄlice
em submerso bolero de åguas tantas.A sede dança seca na garganta
curtindo signos, fala ressequida
para a lĂngua de couro, lixa tĂąntala,
alisando palavras rebuçadas.Quanto alfenim no alfanje que se enfeita
para montar as ancas de Ă©gua moura.
Låbia flamenca lambe leve as oiças,é rito muezim ditando a dança:
no dois pra cĂĄ me levo em dois pra lĂĄ,
nas åguas do regaço vou-me e lavo-me.
Pequenina
Eu bem sei que te chamam pequenina
E ténue como o véu solto na dança,
Que Ă©s no juĂzo apenas a criança,
Pouco mais, nos vestidos, que a menina…Que Ă©s o regato de ĂĄgua mansa e fina,
A folhinha do til que se balança,
O peito que em correndo logo cansa,
A fronte que ao sofrer logo se inclina…Mas, filha, lĂĄ nos montes onde andei,
Tanto me enchi de angĂșstia e de receio
Ouvindo do infinito os fundos ecos,Que nĂŁo quero imperar nem jĂĄ ser rei
SenĂŁo tendo meus reinos em teu seio
E sĂșbditos, criança, em teus bonecos!
A Dança Da PsiquĂȘ
A dança dos encéfalos acesos
Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços
As cabeças, as mãos, os pés e os braços
Tombara, cedendo à ação de ignotos pesos!à então que a vaga dos instintos presos
– MĂŁe de esterilidades e cansaços –
Atira os pensamentos mais devassos
Contra os ossos cranianos indefesos.Subitamente a cerebral coréa
Påra. O cosmos sintético da Idéa
Surge. EmoçÔes extraordinĂĄrias sinto…Arranco do meu crĂąnio as nebulosas.
E acho um feixe de forças prodigiosas
Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!
O Anjo De Pernas Tortas
A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rĂĄpido que o prĂłprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pĂ©s â um pĂ©-de-vento!Num sĂł transporte a multidĂŁo contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu unĂssono canto de esperança.Garrincha, o anjo, escuta e atende: â Goooool!
Ă pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um 1. à pura dança!
Retorno
Meu ser em mim palpita como fora
do chumbo da atmosfera constritora.
Meu ser palpita em mim tal qual se fora
a mesma hora de abril, tornada agora.Que face antiga jĂĄ se nĂŁo descora
lendo a efĂgie do corvo na da aurora?
Que aura mansa e feliz dança e redoura
meu existir, de morte imorredoura?Sou eu nos meus vinte aons de lavoura
de sucos agressivos, qe elabora
uma alquimia severa, a cada hora.Sou eu ardendo em mim, sou eu embora
não me conheça mais na minha flora
que, fauna, me devora quanto Ă© pura.
Ironia De LĂĄgrimas
Junto da Morte Ă© que floresce a Vida!
Andamos rindo junto Ă sepultura.
A boca aberta, escancarada, escura
Da cova Ă© como flor apodrecida.A Morte lembra a estranha Margarida
Do nosso corpo, Fausto sem ventura…
Ela anda em torno a toda a criatura
Numa dança macabra indefinida.Vem revestida em suas negras sedas
E a marteladas lĂșgubrees e tredas
Das ilusÔes o eterno esquife prega.E adeus caminhos vãos, mundos risonhos,
LĂĄ vem a loba que devora os sonhos,
Faminta, absconsa, imponderada, cega!
Curta Pavana
O dorso que se curva arco elegante
desenha na memória a leve dança
da bailarina grĂĄcil, celebrante
de rito sedutor, que me balançatoda vez que me vejo tão distante,
torcendo meus desejos na lembrança
dos momentos vividos, no constante
aprendizado vasto da mudança.Posto que a vida corre em curtas curvas,
transitĂłria paisagem, vĂĄrio atalho
que vai modificando linhas turvas.Mutante claridade me agasalha:
no casulo do gozo de sussurros
sei-me bicho saĂdo dessa malha.
VolĂșpia
No divino impudor da mocidade,
Nesse ĂȘxtase pagĂŁo que vence a sorte,
Num frĂȘmito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido Ă morte!A sombra entre a mentira e a verdade…
A nuvem que arrastou o vento norte…
– Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volĂșpia e de maldade!Trago dĂĄlias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!E do meu corpo os leves arabescos
VĂŁo-te envolvendo em cĂrculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças…
NĂșpcias PagĂŁs
Braços dados, nĂłs dois, vamos sozinhos…
O teu olhar de encantamento espraias
pelas curvas e sombras dos caminhos
debruados de jasmins e samambaiasHĂĄ queixumes de amor na alma dos ninhos
e as nuvens lembram danças de cambraias…
– na minha mĂŁo ansiosa de carinhos
tonta de amor, a tua mĂŁo, desmaias…Andamos sobre painas… entre alfombras…
E Ă luz frouxa da tarde em desalento
misturam-se no chĂŁo as nossas sombras– Aqui… HĂĄ rosas soltas, desfolhadas…
Nada receies, meu amor – Ă© o vento
em marcha nupcial pelas ramadas!
Dança Do Ventre
Torva, febril, torcicolosamente,
Numa espiral de elétricos volteios,
Na cabeça, nos olhos e nos seios
FluĂam-lhe os venenos da serpente.Ah! que agonia tenebrosa e ardente!
Que convulsĂ”es, que lĂșbricos anseios,
Quanta volĂșpia e quantos bamboleios,
Que brusco e horrĂvel sensualismo quente.O ventre, em pinchos, empinava todo
Como reptil abjecto sobre o lodo,
Espolinhando e retorcido em fĂșria.Era a dança macabra e multiforme
De um verme estranho, colossal, enorme,
Do demĂŽnio sangrento da luxĂșria!
A Vida que Vivemos
A vida que vivemos encerrou-se
na concha de coral duma lembrança.
Por muros altaneiros confmou-se,
volteia dentro deles em suave dança.Liberta de sonhar, por tal fronteira,
condenada a um eterno redopio,
pusilĂąnime e triste timoneira
balançando ao sabor do teu navio,ó estranha expressão de movimento,
tĂŁo escrava de ti que nĂŁo tens fim,
Ăł reduto fechado dum tormentocujas mĂŁos me maltratam sĂł a mim,
deixa as aves lançarem no teu meio
essa sombra das asas por que anseio!
Enquanto to Permite a Mocidade
Enquanto to permite a mocidade,
Teu Pai disfarça, tua Mãe consente,
E enquanto, Nize, a moda o nĂŁo desmente
Nos brincos gasta a flor da tua idade.Joga, dança, conversa, e a variedade,
Que causa tanta prenda, assombre a gente;
Deixa-te ver, que o SĂ©culo presente
Hoje chama ao pudor rusticidade.Os coraçÔes de quem te aplaude enlaça:
desfruta o tempo: e tem por aforismo
Que o gosto Ă© fugitivo, a sorte escassaEngolfa-te de amor no doce abismo;
Busca o prazer; a vida alegre passa;
Logra-te enfim; que o mais Ă© fanatismo.
Salomé
InsĂłnia rĂŽxa. A luz a virgular-se em mĂȘdo,
Luz morta de luar, mais Alma do que a lua…
Ela dança, ela range. A carne, alcool de nua,
Alastra-se pra mim num espasmo de segrĂȘdo…Tudo Ă© capricho ao seu redĂłr, em sombras fĂĄtuas…
O arĂŽma endoideceu, upou-se em cĂŽr, quebrou…
Tenho frio… Alabastro!… A minh’Alma parou…
E o seu corpo resvala a projectar estĂĄtuas…Ela chama-me em Iris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecĂŽa-me em quebranto…
Timbres, elmos, punhais… A doida quer morrer-me:Mordoura-se a chorar–ha sexos no seu pranto…
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na bĂŽca imperial que humanisou um Santo…
MĂșsica Da Hora
Habito a pausa no hĂĄbito da pauta
mĂșsica de silĂȘncios e soluços
a refrear desmandos dos impulsos
que se querem agudos sons de flauta.A vida Ă© toda mĂșsica em seu curso
do grito original em rima incauta
ao sussurro que se ouve em cama infausta
nesse fim dissonante do percurso.O tempo se encarrega do metrĂŽnomo
unido a dois ponteiros de um cronĂŽmetro
em que o delgado veste-se de momopara alegrar as horas do pequeno
que dança a marcha gris em chão sereno
fugindo ao dois por quatro do abandono.