No TurbilhĂŁo
(A Jaime Batalha Reis)
No meu sonho desfilam as visões,
Espectros dos meus prĂłprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
Arrebatado em vastos turbilhões…N’uma espiral, de estranhas contorsões,
E d’onde saem gritos e lamentos,
Vejo-os passar, em grupos nevoentos,
Distingo-lhes, a espaços, as feições…— Fantasmas de mim mesmo e da minha alma,
Que me fitais com formidável calma,
Levados na onda turva do escarcéu,Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?
Quem sois, visões misérrimas e atrozes?
Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!…
Sonetos sobre Espaço de Antero de Quental
9 resultadosNo CĂ©o, se Existe um CĂ©o para quem Chora
No céo, se existe um céo para quem chora.
CĂ©o, para as magoas de quem soffre tanto…
Se é lá do amor o foco, puro e santo,
Chama que brilha, mas que nĂŁo devora…No cĂ©o, se uma alma n’esse espaço mora.
Que a prece escuta e encharga o nosso pranto…
Se ha Pae, que estenda sobre nĂłs o manto
Do amor piedoso… que eu nĂŁo sinto agora…No cĂ©o, Ăł virgem! findarĂŁo meus males:
Hei-de lá renascer, eu que pareço
Aqui ter sĂł nascido para dĂ´res.Ali, Ăł lyrio dos celestes vales!
Tendo seu fim, terão o seu começo.
Para nĂŁo mais findar, nossos amores.
Amor Vivo
Amar! mas d’um amor que tenha vida…
NĂŁo sejam sempre tĂmidos harpejos,
NĂŁo sejam sĂł delirios e desejos
D’uma douda cabeça escandecida…Amor que vive e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser — e não só beijos
Dados no ar — delĂrios e desejos —
Mas amor… dos amores que tĂŞm vida…Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipa-lo nos meus braços
Como nĂ©voa da vaga fantasia…Nem murchará do sol á chama erguida…
Pois que podem os astros dos espaços
Contra dĂ©beis amores… se tĂŞm vida?
A um Crucifixo
Há mil anos, bom Cristo, ergueste os magros braços
E clamaste da cruz: há Deus! e olhaste, ó crente,
O horizonte futuro e viste, em tua mente,
Um alvor ideal banhar esses espaços!Por que morreu sem eco, o eco de teus passos,
E de tua palavra (Ăł Verbo!) o som fremente?
Morreste… ah! dorme em paz! nĂŁo volvas, que descrente
Arrojaras de novo Ă campa os membros lassos…Agora, como entĂŁo, na mesma terra erma,
A mesma humanidade Ă© sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo cĂ©u, frio como um sudário…E agora, como entĂŁo, viras o mundo exangue,
E ouviras perguntar — de que serviu o sangue
Com que regaste, ó Cristo, as urzes do Calvário? —
Elogio da Morte
I
Altas horas da noite, o Inconsciente
Sacode-me com força, e acordo em susto.
Como se o esmagassem de repente,
Assim me pára o coração robusto.Não que de larvas me povôe a mente
Esse vácuo nocturno, mudo e augusto,
Ou forceje a razĂŁo por que afugente
Algum remorso, com que encara a custo…Nem fantasmas nocturnos visionários,
Nem desfilar de espectros mortuários,
Nem dentro de mim terror de Deus ou Sorte…Nada! o fundo dum poço, hĂşmido e morno,
Um muro de silĂŞncio e treva em torno,
E ao longe os passos sepulcrais da Morte.II
Na floresta dos sonhos, dia a dia,
Se interna meu dorido pensamento.
Nas regiões do vago esquecimento
Me conduz, passo a passo, a fantasia.Atravesso, no escuro, a névoa fria
D’um mundo estranho, que povĂ´a o vento,
E meu queixoso e incerto sentimento
SĂł das visões da noite se confia.Que mĂsticos desejos me enlouquecem?
Do Nirvana os abismos aparecem,
A meus olhos, na muda imensidade!N’esta viagem pelo ermo espaço,
Justitia Mater
Nas florestas solenes há o culto
Da eterna, Ăntima força primitiva:
Na serra, o grito audaz da alma cativa,
Do coração, em seu combate inulto:No espaço constelado passa o vulto
Do inominado Alguém, que os sóis aviva:
No mar ouve-se a voz grave e aflitiva
D’um deus que luta, poderoso e inculto.Mas nas negras cidades, onde solta
Se ergue, de sangue medida, a revolta,
Como incêndio que um vento bravo atiça,Há mais alta missão, mais alta glória:
O combater, Ă grande luz da histĂłria,
Os combates eternos da Justiça!
Homo
Nenhum de vĂłs ao certo me conhece,
Astros do espaço, ramos do arvoredo,
Nenhum adivinhou o meu segredo,
Nenhum interpretou a minha prece…NinguĂ©m sabe quem sou… e mais, parece
Que há dez mil anos já, neste degredo,
Me vĂŞ passar o mar, vĂŞ-me o rochedo
E me contempla a aurora que alvorece…Sou um parto da Terra monstruoso;
Do hĂşmus primitivo e tenebroso
Geração casual, sem pai nem mĂŁe…Misto infeliz de trevas e de brilho,
Sou talvez Satanás; — talvez um filho
Bastardo de Jeová; — talvez ninguém!
Sonho
Sonhei – nem sempre o sonho Ă© coisa vĂŁ –
Que um vento me levava arrebatado,
Através desse espaço constelado
Onde uma aurora eterna ri louçã…As estrelas, que guardam a manhĂŁ,
Ao verem-me passar triste e calado,
Olhavam-me e diziam com cuidado:
Onde está, pobre amigo, a nossa irmã?Mas eu baixava os olhos, receoso
Que traĂssem as grandes mágoas minhas,
E passava furtivo e silencioso,Nem ousava contar-lhes, Ă s estrelas,
Contar Ă s tuas puras irmĂŁzinhas
Quanto Ă©s falsa, meu bem, e indigna delas!
VisĂŁo
(A J. M. Eça de Queiroz)
Eu vi o Amor — mas nos seus olhos baços
Nada sorria já: só fixo e lento
Morava agora ali um pensamento
De dor sem trĂ©gua e de Ăntimos cansaços.Pairava, como espectro, nos espaços,
Todo envolto n’um nimbo pardacento…
Na atitude convulsa do tormento,
Torcia e retorcia os magros braços…E arrancava das asas destroçadas
A uma e uma as penas maculadas,
Soltando a espaços um soluço fundo,Soluço de Ăłdio e raiva impenitentes…
E do fantasma as lágrimas ardentes
CaĂam lentamente sobre o mundo!