Beleza Morta
De leve, louro e enlanguescido helianto
Tens a flĂłrea dolĂȘncia contristada…
HĂĄ no teu riso amargo um certo encanto
De antiga formosura destronada.No corpo, de um letĂĄrgico quebranto,
Corpo de essĂȘncia fina, delicada,
Sente-se ainda o harmonioso canto
Da carne virginal, clara e rosada.Sente-se o canto errante, as harmonias
Quase apagadas, vagas, fugidias
E uns restos de clarĂŁo de Estrela acesa…Como que ainda os derradeiros haustos
De opulĂȘncias, de pompas e de faustos,
As relĂquias saudosas da beleza.
Sonetos sobre EssĂȘncia
21 resultadosIV
Vagueiam suavemente os teus olhares
Pelo amplo céu franjado em linho:
Comprazem-te as visĂ”es crepusculares…
Tu Ă©s uma ave que perdeu o ninho.Em que nichos doirados, em que altares
Repoisas, anjo errante, de mansinho?
E penso, ao ver-te envolta em véus de luares,
Que vĂȘs no azul o teu caixĂŁo de pinho.Ăs a essĂȘncia de tudo quanto desce
Do solar das celestes maravilhas…
– Harpa dos crentes, cĂtola da prece…Lua eterna que nĂŁo tivesse fases,
Cintilas branca, imaculada brilhas,
E poeiras de astros nas sandĂĄlias trazes…
Cheiro De EspĂĄdua
“Quando a valsa acabou, veio Ă janela,
Sentou-se. O leque abriu. Sorria e arfava,
Eu, viração da noite, a essa hora entrava
E estaquei, vendo-a decotada e bela.Eram os ombros, era a espĂĄdua, aquela
Carne rosada um mimo! A arder na lava
De improvisa paixĂŁo, eu, que a beijava,
Hauri sequiosa toda a essĂȘncia dela!Deixei-a, porque a vi mais tarde, oh! ciĂșme!
Sair velada da mantilha. A esteira
Sigo, até que a perdi, de seu perfume.E agora, que se foi, lembrando-a ainda,
Sinto que Ă luz do luar nas folhas, cheira
Este ar da noite Ă quela espĂĄdua linda!”
A Perfeição
A Perfeição Ă© a celeste ciĂȘncia
Da cristalização de almos encantos,
De abandonar os mĂłrbidos quebrantos
E viver de uma oculta florescĂȘncia.Noss’alma fica da clarividĂȘncia
Dos astros e dos anjos e dos santos,
Fica lavada na lustral dos prantos,
Ă dos prantos divina e pura essĂȘncia.Noss’alma fica como o ser que Ă s lutas
As mĂŁos conserva limpas, impolutas,
Sem as manchas do sangue mau da guerra.A Perfeição é a alma estar sonhando
Em soluços, soluços, soluçando
As agonias que encontrou na Terra.!
A. S. Francisco Tomando O Poeta O Habito De Terceyro
Ă magno serafim, que a Deus voaste
Com asas de humildade, e paciĂȘncia,
E absorto jĂĄ nessa divina essĂȘncia
Logras o eterno bem, a que aspiraste:Pois o caminho aberto nos deixaste,
Para alcançar de Deus tambĂ©m clemĂȘncia
Na ordem singular de penitĂȘncia
Destes Filhos Terceiros, que criaste.A Filhos, como Pai, olha queridos,
E intercede por nĂłs, Francisco Santo,
Para que te sigamos, e imitemos.E assim desse teu hĂĄbito vestidos
Na terra blasonemos de bem tanto,
E depois para o CĂ©u juntos voemos.
Jardim
Negro jardim onde violas soam
e o mal da vida em ecos se dispersa:
à toa uma canção envolve os ramos
como a estĂĄtua indecisa se refleteno lago hĂĄ longos anos habitado
por peixes, nĂŁo, matĂ©ria putrescĂvel,
mas por pĂĄlidas contas de colares
que alguém vai desatando, olhos vazadose mãos oferecidas e mecùnicas,
de um vegetal segredo enfeitiçadas,
enquanto outras visÔes se delineiame logo se enovelam: mascarada,
que sei de sua essĂȘncia (ou nĂŁo a tem),
jardim apenas, pétalas, pressågio
LĂrio Lutuoso
EssĂȘncia das essĂȘncias delicadas,
Meu perfumoso e tenebroso lĂrio,
Oh! dĂĄ-me a glĂłria de celeste EmpĂreo
Da tu’alma nas sombras encantadas.Subindo lento escadas por escadas,
Nas espirais nervosas do MartĂrio,
Das Ănsias, da Vertigem, do DelĂrio,
Vou em busca de mĂĄgicas estradas.Acompanha-me sempre o teu perfume,
LĂrio da Dor que o Mal e o Bem resumem,
Estrela negra, tenebroso fruto.Oh! dĂĄ-me a glĂłria do teu ser nevoento
para que eu possa haurir o sentimento
Das lĂĄgrimas acerbas do teu luto!.
Flores Da Lua
Brancuras imortais da Lua Nova
Frios de nostalgia e sonolĂȘncia…
Sonhos brancos da Lua e viva essĂȘncia
Dos fantasmas noctĂvagos da Cova.Da noite a tarda e taciturna trova
Soluça, numa tremula dormĂȘncia…
Na mais branda, mais leve florescĂȘncia
Tudo em VisÔes e Imagens se renova.Mistérios virginais dormem no Espaço,
Dormem o sono das profundas seivas,
MonĂłtono, infinito, estranho e lasso…E das Origens na luxĂșria forte
Abrem nos astros, nas sidéreas leivas
Flores amargas do palor da Morte.
Revelação
I
Escafandrista de insondado oceano
Sou eu que, aliando Buda ao sibarita,
Penetro a essĂȘncia plĂĄsmica infinita,
-MĂŁe promĂscua do amor e do Ăłdio insano!Sou eu que, hirto, auscultando o absconso arcano,
Por um poder de acĂșstica esquisita,
Ouço o universo ansioso que se agita
Dentro de cada pensamento humano!No abstrato abismo equĂłreo, em que me Inundo,
Sou eu que, revolvendo o ego profundo
E a ódio dos cérebros medonhos,Restituo triunfalmente à esfera calma
Todos os cosmos que circulam na alma
Sob a forma embriolĂłgica de sonhos!
O Perfume
O que sou eu? â O Perfume,
Dizem os homens. â Serei.
Mas o que sou nem eu sei…
Sou uma sombra de lume!Rasgo a aragem como um gume
De espada: Subi. Voei.
Onde passava, deixei
A essĂȘncia que me resume.Liberdade, eu me cativo:
Numa renda, um nada, eu vivo
Vida de Sonho e Verdade!Passam os dias, e em vĂŁo!
â Eu sou a Recordação;
Sou mais, ainda: a Saudade.
Carnal E MĂstico
Pelas regiĂ”es tenuĂssimas da bruma
Vagam as Virgens e as Estrelas raras…
Como que o leve aroma das searas
Todo o horizonte em derredor perfume.N’uma evaporação de branca espuma
VĂŁo diluindo as perspectives claras…
Com brilhos crus e fĂșlgidos de tiaras
As Estrelas apagam-se uma a uma.E entĂŁo, na treva, em mĂsticas dormĂȘncias
Desfila, com sidĂ©reas lactescĂȘncias,
Das Virgens o sonĂąmbulo cortejo…Ă Formas vagas, nebulosidades!
EssĂȘncia das eternas virgindades!
Ă intensas quimeras do Desejo…
Anima Mea
Ă minh’alma, Ăł minh’alma, Ăł meu Abrigo,
Meu sol e minha sombra peregrina,
Luz imortal que os mundos ilumina
Do velho Sonho, meu fiel Amigo!Estrada ideal de SĂŁo Tiago, antigo
Templo da minha fé casta e divina,
De onde Ă© que vem toda esta mĂĄgoa fina
Que é, no entanto, consolo e que eu bendigo?De onde é que vem tanta esperança vaga,
De onde vem tanto anseio que me alaga,
Tanta diluĂda e sempiterna mĂĄgoa?Ah! de onde vem toda essa estranha essĂȘncia
De tanta misteriosa TranscendĂȘncia
Que estes olhos me dixam rasos de ĂĄgua?!
Voz Fugitiva
Ăs vezes na tu’alma que adormece
Tanto e tĂŁo fundo, alguma voz escuto
De timbre emocional, claro, impoluto
Que uma voz bem amiga me parece.E fico mudo a ouvi-la como a prece
De um meigo coração que estå de luto
E livre, jĂĄ, de todo o mal corruto,
Mesmo as afrontas mais cruéis esquece.Mas outras vezes, sempre em vão, procuro
Dessa voz singular o timbre puro,
As essĂȘncias do cĂ©u maravilhosas.Procuro ansioso, inquieto, alvoroçado,
Mas tudo na tu’alma estĂĄ calado,
No silĂȘncio fatal das nebulosas.
Supreme Convulsion
O equilĂbrio do humano pensamento
Sofre tambĂ©m a sĂșbita ruptura,
Que produz muita vez, na noite escura,
A convulsĂŁo meteĂłrica do vento.E a alma o obnĂłxio quietismo sonolento
Rasga; e, opondo-se Ă InĂ©rcia, Ă© a essĂȘncia pura,
Ă a sĂntese, Ă© o transunto, Ă© a abreviatura
Do todo o ubiqĂŒitĂĄrio Movimento!Sonho, – libertação do homem cativo –
Ruptura do equilĂbrio subjetivo,
Ah! foi teu beijo convulsionadorQue produziu este contraste fundo
Entre a abundĂąncia do que eu sou, no Mundo,
E o nada do meu homem interior!
A MĂĄscara
Eu sei que hĂĄ muito pranto na existĂȘncia,
Dores que ferem coraçÔes de pedra,
E onde a vida borbulha e o sangue medra,
AĂ existe a mĂĄgoa em sua essĂȘncia.No delĂrio, porĂ©m, da febre ardente
Da ventura fugaz e transitĂłria
O peito rompe a capa tormentĂłria
Para sorrindo palpitar contente.Assim a turba inconsciente passa,
Muitos que esgotam do prazer a taça
Sentem no peito a dor indefinida.E entre a mĂĄgoa que masc’ra eterna apouca
A humanidade ri-se e ri-se louca
No carnaval intérmino da vida.
Fogos-FĂĄtuos
HĂĄ certas almas vĂŁs, galvanizadas
De emoção, de pureza, de bondade,
Que como toda a azul imensidade
Chegam a ser de sĂșbito estreladas.E ficam como que transfiguradas
Por momentos, na vaga suavidade
De quem se eleva com serenidade
Ăs risonhas, celestes madrugadas.Mas nada Ă s vezes nelas corresponde
Ao sonho e ninguém sabe mais por onde
Anda essa falsa e fugitiva chama…Ă que no fundo, na secreta essĂȘncia,
Essas almas de triste decadĂȘncia
SĂŁo lama sempre e sempre serĂŁo lama.
Ariana
Ela Ă© o tipo perfeito da ariana,
Branca, nevada, pĂșbere, mimosa,
A carne exuberante e capitosa
Trescala a essĂȘncia que de si dimana.As nĂveas pomas do candor da rosa,
Rendilhando-lhe o colo de sultana,
Emergem da camisa cetinosa
Entre as rendas sutis de filigrana.Dorme talvez. Em flĂĄcido abandono
Lembra formosa no seu casto sono
A languidez dormente da indiana,Enquanto o amante pĂĄlido, a seu lado
Medita, a fronte triste, o olhar velado
No Mistério da Carne Soberana
Contemplação
Sonho de olhos abertos, caminhando
NĂŁo entre as formas jĂĄ e as aparĂȘncias,
Mas vendo a face imĂłvel das essĂȘncias,
Entre idĂ©ias e espĂritos pairando…Que Ă© o mundo ante mim? fumo ondeando,
VisĂ”es sem ser, fragmentos de existĂȘncias…
Uma nĂ©voa de enganos e impotĂȘncias
Sobre vĂĄcuo insondĂĄvel rastejando…E d’entre a nĂ©voa e a sombra universais
SĂł me chega um murmĂșrio, feito de ais…
Ă a queixa, o profundĂssimo gemidoDas coisas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim sĂł presentido…
Meu Ser Evaporei na Luta Insana
Meu ser evaporei na luta insana
Do tropel de paixÔes que me arrastava:
Ah! cego eu cria, ah! mĂsero eu sonhava
Em mim quasi imortal a essĂȘncia humana!De que inĂșmeros sĂłis a mente ufana
ExistĂȘncia falaz me nĂŁo dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.Prazeres, sĂłcios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si nĂŁo coube,
No abismo vos sumiu dos desenganosDeus, Ăł Deus!… quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver nĂŁo soube.
PlenilĂșnio
Desmaia o plenilĂșnio. A gaze pĂĄlida
Que lhe serve de alvĂssimo sudĂĄrio
Respira essĂȘncias raras, toda a cĂĄlida
MĂstica essĂȘncia desse alampadĂĄrio.E a lua Ă© como um pĂĄlido sacrĂĄrio,
Onde as almas das virgens em crisĂĄlida
De seios alvos e de fronte pĂĄlida,
Derramam a urna dum perfume vårio.Voga a lua na etérea imensidade!
Ela, eterna noctĂąmbula do Amor,
Eu, noctĂąmbulo da Dor e da Saudade.Ah! como a branca e merencĂłrea lua,
TambĂ©m envolta num sudĂĄrio – a Dor,
Minh’alma triste pelos cĂ©us flutua!