MĂŁezinha
Andam em mim fantasmas, sombras, ais…
Coisas que eu sinto em mim, que eu sinto agora;
NĂ©voas de dantes, dum longĂnquo outrora;
Castelos d’oiro em mundos irreais…Gotas d’água tombando… Roseirais
A desfolhar-se em mim como quem chora…
— E um ano vale um dia ou uma hora,
Se tu me vais fugindo mais e mais!…Ă“ meu Amor, meu seio Ă© como um berço
Ondula brandamente… Brandamente…
Num ritmo escultural d’onda ou de verso!No mundo quem te vĂŞ?! Ele Ă© enorme!…
Amor, sou tua mĂŁe! Vá… docemente
Poisa a cabeça… fecha os olhos… dorme…
Sonetos sobre Fantasmas de Florbela Espanca
6 resultadosCinzento
Poeiras de crepĂşsculos cinzentos.
Lindas rendas velhinhas, em pedaços,
Prendem-se aos meus cabelos, aos meus braços,
Como brancos fantasmas, sonolentos…Monges soturnos deslizando lentos,
Devagarinho, em misteriosos passos…
Perde-se a luz em lânguidos cansaços…
Ergue-se a minha cruz dos desalentos!Poeiras de crepĂşsculos tristonhos,
Lembram-me o fumo leve dos meus sonhos,
A nĂ©voa das saudades que deixaste!Hora em que teu olhar me deslumbrou…
Hora em que a tua boca me beijou…
Hora em que fumo e nĂ©voa te tornaste…
O Nosso Mundo
Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Pousando em ti o meu olhar eterno
Como pousam as folhas sobre os lagos…Os meus sonhos agora sĂŁo mais vagos…
O teu olhar em mim, hoje, Ă© mais terno…
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!A Vida, meu Amor, quero vivĂŞ-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas, hemos de bebĂŞ-la!Que importa o mundo e as ilusões defuntas?…
Que importa o mundo e seus orgulhos vĂŁos?…
O mundo, Amor! … As nossas bocas juntas!…
Quem?
NĂŁo sei quem Ă©s. Já nĂŁo te vejo bem…
E ouço-me dizer (ai, tanta vez!…)
Sonho que um outro sonho me desfez?
Fantasma de que amor? Sombra de quem?NĂ©voa? Quimera? Fumo? Donde vem?…
– NĂŁo sei se tu, amor, assim me vĂŞs!…
Nossos olhos nĂŁo sĂŁo nossos, talvez…
Assim, tu nĂŁo Ă©s tu! NĂŁo Ă©s ninguĂ©m!…És tudo e nĂŁo Ă©s nada… És a desgraça…
És quem nem sequer vejo; Ă©s um que passa…
És sorriso de Deus que nĂŁo mereço…És aquele que vive e que morreu…
És aquele que Ă© quase um outro eu…
És aquele que nem sequer conheço…
Évora
Ao amigo vindo da luminosa Itália, a minha cidade, como eu soturno e triste…
Évora! Ruas ermas sob os céus
Cor de violetas roxas…Ruas frades
Pedindo em triste penitĂŞncia a Deus
Que nos perdoe as mĂseras vaidades!Tenho corrido em vĂŁo tantas cidades!
E sĂł aqui recordo os beijos teus,
E sĂł aqui eu sinto que sĂŁo meus
Os sonhos que sonhei noutras idades!Évora!…O teu olhar…o teu perfil…
Tua boca sinuosa, um mĂŞs de Abril,
Que o coração no peito me alvoroça!…Em cada viela o vulto dum fantasma…
E a minh’alma soturna escuta e pasma…
E sente-se passar menina e moça…
Ambiciosa
Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O vĂ´o dum gesto para os alcançar…Se as minhas mĂŁos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar…
– Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar!Minha alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos cĂ©us!O amor dum homem? – Terra tĂŁo pisada!
Gota de chuva ao vento baloiçada…
Um homem? – Quando eu sonho o amor dum deus!…