Doces Ăguas E Claras Do Mondego
Doces ĂĄguas e claras do Mondego,
doce repouso de minha lembrança,
onde a comprida e pérfida esperança
longo tempo após si me trouxe cego;de vós me aparto; mas, porém, não nego
que inda a memória longa, que me alcança,
me não deixa de vós fazer mudança,
mas quanto mais me alongo, mais me achego.Bem pudera Fortuna este instrumento
d’alma levar por terra nova e estranha,
oferecido ao mar remoto e vento;mas alma, que de cĂĄ vos acompanha,
nas asas do ligeiro pensamento,
para vĂłs, ĂĄguas, voa, e em vĂłs se banha.
Sonetos sobre Fortuna
45 resultadosA Morte, Que Da Vida O NĂł Desata
A Morte, que da vida o nĂł desata,
os nĂłs, que dĂĄ o Amor, cortar quisera
na AusĂȘncia, que Ă© contr’ ele espada fera,
e co Tempo, que tudo desbarata.Duas contrĂĄrias, que ĂŒa a outra mata,
a Morte contra o Amor ajunta e altera:
ĂŒa Ă© RazĂŁo contra a Fortuna austera,
outra, contra a RazĂŁo, Fortuna ingrata.Mas mostre a sua imperial potĂȘncia
a Morte em apartar dum corpo a alma,
duas num corpo o Amor ajunte e una;porque assi leve triunfante a palma,
Amor da Morte, apesar da AusĂȘncia,
do Tempo, da RazĂŁo e da Fortuna.
Ilustre O Dino Ramo Dos Meneses
Ilustre o dino ramo dos Meneses,
aos quais o prudente e largo CĂ©u
(que errar nĂŁo sabe), em dote concedeu
rompesse os maométicos arneses;desprezando a Fortuna e seus reveses,
ide para onde o Fado vos moveu;
erguei flamas no Mar alto Eritreu,
e sereis nova luz aos Portugueses.Oprimi com tĂŁo firme e forte peito
o Pirata insolente, que se espante
e trema Taprobana e Gedrosia.Dai nova causa Ă cor do Arabo estreito:
assi que o roxo mar, daqui em diante,
o seja sĂł co sangue de Turquia!
VĂłs Outros, Que Buscais Repouso Certo
VĂłs outros, que buscais repouso certo
na vida, com diversos exercĂcios;
a quem, vendo do mundo os benefĂcios,
o regimento seu estĂĄ encoberto;dedicai, se quereis, ao desconcerto
novas hontas e cegos sacrifĂcios;
que, por castigo igual de antigos vĂcios,
quer Deus que andem as cousas por acerto.NĂŁo caiu neste modo de castigo
quem pĂŽs culpa Ă Fortuna, quem sĂČmente
crĂȘ que acontecimentos hĂĄ no mundo.A grande experiĂȘncia Ă© grĂŁo perigo;
mas o que a Deus Ă© justo e evidente
parece injusto aos homens e profundo.
Despois Que Quis Amor Que Eu SĂł Passasse
Despois que quis Amor que eu sĂł passasse
quanto mal jĂĄ por muitos repartiu,
entregou me Ă Fortuna, porque viu
que nĂŁo tinha mais mal que em mim mostrasse.Ela, porque do Amor se avantajasse
no tormento que o CĂ©u me permitiu,
o que para ninguém se consentiu,
para mim sĂł mandou que se inventasse.Eis me aqui vou com vĂĄrio som gritando,
copioso exemplĂĄrio para a gente
que destes dous tiranos Ă© sujeita,desvarios em versos concertando.
Triste quem seu descanso tanto estreita,
que deste tĂŁo pequeno estĂĄ contente!