Corpo
VII
Pompas e pompas, pompas soberanas
Majestade serene da escultura
A chama da suprema formosura,
A opulĂȘncia das pĂșrpuras romanas.As formas imortais, claras e ufanas,
Da graça grega, da beleza pura,
Resplendem na arcangélica brancura
Desse teu corpo de emoçÔes profanas.Cantam as infinitas nostalgias,
Os mistérios do Amor, melancolias,
Todo o perfume de eras apagadas…E as ĂĄguias da paixĂŁo, brancas, radiantes,
Voam, revoam, de asas palpitantes,
No esplendor do teu corpo arrebatadas!
Sonetos sobre Gregos
12 resultadosO Sono
à um braço magro de mulher, uns olhos espectrais
e brilhantes, uma cabeça de esfinge, uma lùmpada
que fumega. Talvez por os nĂŁo vermos, vejamos rios
que flamejam, jardins sepultos, um antepassadodesconhecido e cinzento que se derrama no quarto,
um portão esvoaçante, uma pequena fenda por onde
se vai até às nuvens nocturnas. Tudo o que
lĂĄ possa estar Ă© tudo: a vassoura esquecida,o rosto primordial da mĂŁe, uma torre de cadĂĄveres
ou um modesto banco de madeira onde deixaram
um vaso verĂdico de gerĂąnios. Talvez um deusvĂtreo, rĂștilo ou, pintada de azul, uma virgem ocre
no cume de colina grega. Uma estranha mĂșsica soa
nas paredes, antes do exĂlio para onde nos leva o sono.
Olhos
II
A GrĂ©cia d’Arte, a estranha claridade
D’aquela GrĂ©cia de beleza e graça,
Passa, cantando, vai cantando e passa
Dos teus olhos na eterna castidade.Toda a serena e altiva heroicidade
Que foi dos gregos a imortal couraça,
Aquele encanto e resplendor de raça
Constelada de antiga majestade,Da Atenas flórea toda o viço louro,
E as rosas e os mirtais e as pompas d’ouro,
OdissĂ©ias e deuses e galeras…Na sonolĂȘncia de uma lua aziaga,
Tudo em saudade nos teus olhos vaga,
Canta melancolias de outras eras!…
O IncĂȘndio De Roma
Raiva o incĂȘndio. A ruir, soltas, desconjuntadas,
As muralhas de pedra, o espaço adormecido
De eco em eco acordando ao medonho estampido,
Como a um sopro fatal, rolam esfaceladas.E os templos, os museus, o CapitĂłlio erguido
Em mĂĄrmor frĂgio, o Foro, as erectas arcadas
Dos aquedutos, tudo as garras inflamadas
Do incĂȘndio cingem, tudo esbroa-se partido.Longe, reverberando o clarĂŁo purpurino,
Arde em chamas o Tibre e acende-se o horizonte.
ImpassĂvel, porĂ©m, no alto do Palatino,Nero, com o manto grego ondeando ao ombro, assoma
Entre os libertos, e Ă©brio, engrinaldada a fronte,
Lira em punho, celebra a destruição de Roma.
Plena Nudez
Eu amo os gregos tipos de escultura:
PagĂŁs nuas no mĂĄrmore entalhadas;
Não essas produçÔes que a estufa escura
Das modas cria, tortas e enfezadas.Quero um pleno esplendor, viço e frescura
Os corpos nus; as linhas onduladas
Livres: de carne exuberante e pura
Todas as saliĂȘncias destacadas…NĂŁo quero, a VĂȘnus opulenta e bela
De luxuriantes formas, entrevĂȘ-la
De transparente tĂșnica atravĂ©s:Quero vĂȘ-la, sem pejo, sem receios,
Os braços nus, o dorso nu, os seios
Nus… toda nua, da cabeça aos pĂ©s!
Soneto 253 A Renato Russo
Embora original, gĂȘnio, perito,
do nosso rock um raro uirapuru,
vivia ensimesmado e jururu,
talvez por nĂŁo ser grego nem bonito.Entendo a sua angĂșstia e o seu conflito,
meu Ădolo, meu mĂĄrtir, meu guru!
Causou vocĂȘ, primeiro, um sururu;
depois, tristeza, e entĂŁo calou seu grito.Respeito quem Ă© triste, ou aparenta.
Os outros grandes brincam: Raul, Rita,
ou cospem mera raiva barulhenta.Cazuza também brinca, mas medita.
Arnaldo Antunes testa, experimenta.
Renato faz da dor a dor: maldita!
XLIX
Os olhos tendo posto, e o pensamento
No rumo, que demanda, mais distante;
As ondas bate o Grego Navegante,
Entregue o leme ao mar, a vela ao ventoEm vão se esforça o harmonioso acento
Da sereia, que habita o golfo errante;
Que resistindo o espĂrito constante,
Vence as lisonjas do enganoso intento.Se pois, ninfas gentis, rompe a Cupido
O arco, a flecha, o dardo, a chama acesa
De um peito entre os heróis esclarecido;Que vem buscar comigo a néscia empresa,
Se inda mais, do que Ulisses atrevido,
Sei vencer os encantos da beleza!
Dos Tórrido SertÔes, Pejados De Oiro
Dos tórridos sertÔes, pejados de oiro,
Saiu um sabichĂŁo de escassa fama,
Que os livros preza, os cartapĂĄcios ama,
Que das lĂnguas repartem o tesoiro.Arranha o persiano, arranha o moiro,
Sabe que Deus em turco Allah se chama;
Que no grego alfabeto o G Ă© gama,
Que taurus em latim quer dizer toiro.Para papaguear saiu do mato:
Abocanha talentos, que nĂŁo goza;
Ă mono, e prega unhadas como gato.Ă nada em verso, quase nada em prosa:
NĂŁo conheces, leitor, neste retrato
O guapo charlatão Tomé Barbosa?
Boca
III
Boca viçosa, de perfume a lĂrio,
Da lĂmpida frescura da nevada,
Boca de pompa grega, purpureada,
Da majestade de um damasco assĂrio.Boca para deleites e delĂrio
Da volĂșpia carnal e alucinada,
Boca de Arcanjo, tentadora e arqueada,
Tentando Arcanjos na amplidĂŁo do EmpĂrio,Boca de OfĂ©lia morta sobre o lago,
Dentre a auréola de luz do sonho vago
E os faunos leves do luar inquietos…Estranha boca virginal, cheirosa,
Boca de mirra e incensos, milagrosa
Nos filtros e nos tĂłxicos secretos…
A um Poeta
Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciĂȘncia e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!Mas que na forma de disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sĂłbria, como um templo grego.NĂŁo se mostre na fĂĄbrica o suplĂcio
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifĂcio:Porque a Beleza, gĂȘmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifĂcio,
à a força e a graça na simplicidade.
N. H.
Tu nĂŁo Ă©s de Romeu a doce amante,
A triste Julieta, que suspira,
Solto o cabelo aos ventos ondeante,
Inquietas cordas de suspensa lira.Não és Ofélia, a virgem lacrimante,
Que ao luar nos jardins vaga e delira,
E Ă© levada nas ĂĄguas flutuante,
Como em sonho de amor que cedo expira.Ăs a estĂĄtua de mĂĄrmore de rosa;
Galatéia acordando voluptuosa
Do grego artista ao fogo de mil beijos…Ăs a lĂąnguida JĂșlia que desmaia,
Ăs HaidĂ©ia nos cĂŽncavos da praia;
Fosse eu o Dom JoĂŁo dos teus desejos!…
Ă Cruz
Se em golfo de sereias proceloso,
Empenho repetido do cuidado,
O sĂĄbio grego, ao duro mastro atado,
As sereias escapa cauteloso;Eu, no mar deste mundo tormentoso,
De sirtes e sereias povoado,
à vossa cruz, Senhor, sempre abraçado,
Os perigos escape venturoso.Oh! Livrai-me, meu Deus, de tanto astuto
Labirinto, de tanto cego encanto,
Para que colha desta planta o fruto;Que Ă© justo, doce Amor, em risco tanto,
Se salva a Ulisses um madeiro bruto,
Que a mim me salve este madeiro santo.