As RazÔes
Quando passas por mim depressa, indiferente,
e nĂŁo me dĂĄs sequer, um sorriso… um olhar…
– como um vulto qualquer, em meio a tanta gente
que costuma nos ver sem nunca nos notar…Quando passa assim, distraĂda, nesse ar
de quem sĂł sabe andar olhando para frente,
e finges não me ver, e avanças sem voltar
o rosto… e vais seguindo displicentemente…– eu penso com tristeza em tua hipocrisia…
Ninguém sabe que a tive ao meu amor vencida
e que um dia choraste… e que choraste um dia…Mas para que contar? Que sejas sempre assim,
e que ninguém descubra nunca em tua vida
as razĂ”es por que passas sem olhar pra mim!…
Sonetos sobre Hipocrisia
8 resultadosO Misantropo
A boca, Ă s vezes, o louvor escapa
E o pranto aos olhos; mas louvor e pranto
Mentem: tapa o louvor a inveja, enquanto
O pranto a vesga hipocrisia tapa.Do louvor, com que espanto, sob a capa
Vejo tanta dobrez, ludĂbrio tanto!
E o pranto em olhos vejo, com que espanto,
Que escarnecem dos mais, rindo Ă socapa!Porque, desde que esse Ăłdio atroz me veio,
Só traiçÔes vejo em cada olhar venusto?
PerfĂdias sĂł em cada humano seio?Acaso as almas poderei sem custo
Ver, perspĂcuo e melhor, sĂł quando odeio?
E Ă© preciso odiar para ser justo?!
Mascarados
Mascarados os dois. Eu, mascarado
na hipocrisia com que levo a vida,
tu, na aparĂȘncia inĂștil e fingida
que usas na rua com o maior cuidado …Passas por mim e segues ao meu lado
como outra qualquer desconhecida,
– quem hĂĄ de imaginar nosso passado
e a intimidade entre nĂłs dois perdida ?…NinguĂ©m… Certo ninguĂ©m pensa e adivinha
porque eu nĂŁo digo e porque tu nĂŁo dizes
Que eu jĂĄ fui teu… e que tu foste minha…Mas, quantas vezes, amargurado penso
em como nos sentimos infelizes
no Carnaval do nosso orgulho imenso!
Remorso
Ăs vezes uma dor me desespera…
Nestas Ăąnsias e dĂșvidas em que ando,
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosĂŁo sincera…
Ah ! Mais cem vidas ! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando !Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro neste começo de velhice,
MĂĄrtir da hipocrisia ou da virtude.Os beijos que nĂŁo tive por tolice,
Por timidez o que sofrer nĂŁo pude,
E por pudor os versos que nĂŁo disse!
O Pior Dos Males
Baixando Ă Terra, o cofre em que guardados
Vinham os Males, indiscreta abria
Pandora. E eis deles desencadeados
Ă luz, o negro bando aparecia.O Ădio, a Inveja, a Vingança, a Hipocrisia,
Todos os VĂcios, todos os Pecados
Dali voaram. E desde aquele dia
Os homens se fizeram desgraçados.Mas a Esperança, do maldito cofre
Deixara-se ficar presa no fundo,
Que Ă© Ășltima a ficar na angĂșstia humana…Por que nĂŁo voou tambĂ©m? Para quem sofre
Ela Ă© o pior dos males que hĂĄ no mundo,
Pois dentre os males Ă© o que mais engana.
Assim
Assim foi nosso amor… um sonho que viveu
de um sonho, e despertou na realidade um dia…
Um pouco de quimera ao lĂ©u da fantasia…
Um flor que brotou e num botĂŁo morreu…Embora sendo nosso, este amor foi sĂł meu,
porque o teu, nĂŁo foi mais que pura hipocrisia,
– no fundo, hĂĄ muito tempo, a minha alma sentia
este fim que o destino afinal jĂĄ lhe deu…NĂŁo podes, bem o sei – sendo mulher como Ă©s,
saber quanto sofri, vendo esta flor desfeita
e as pĂ©talas no chĂŁo, pisadas por teus pĂ©s…Que importa ? HĂĄs de sofrer mais tarde – a vida Ă© assim…
Esse mesmo sorrir que agora te deleita
Ă© o mesmo que depois hĂĄ de amargar teu fim!…
LXXVII
Não hå no mundo fé, não hå lealdade;
Tudo Ă©, Ăł FĂĄbio, torpe hipocrisia;
Fingido trato, infame aleivosia
Rodeiam sempre a cĂąndida amizade.Veste o engano o aspecto da verdade;
Porque melhor o vĂcio se avalia:
PorĂ©m do tempo a mĂsera porfia,
Duro fiscal, lhe mostra a falsidade.Se talvez descobrir-se se procura
Esta de amor fantĂĄstica aparĂȘncia,
Ă como Ă luz do Sol a sombra escura:Mas que muito, se mostra a experiĂȘncia,
Que da amizade a torre mais segura
Tem a base maior na dependĂȘncia!
RazÔes
“RazĂ”es…”
II
Quando passas por mim depressa, indiferente,
e nĂŁo me dĂĄs sequer, um sorriso… um olhar…
– como um vulto qualquer, em meio a tanta gente
que costuma nos ver sem nunca nos notar…Quando passa assim, distraĂda, nesse ar
de quem sĂł sabe andar olhando para frente,
e finges não me ver, e avanças sem voltar
o rosto… e vais seguindo displicentemente…– eu penso com tristeza em tua hipocrisia…
Ninguém sabe que a tive ao meu amor vencida
e que um dia choraste… e que choraste um dia…Mas para que contar? Que sejas sempre assim,
e que ninguém descubra nunca em tua vida
as razĂ”es por que passas sem olhar pra mim!…