Passeio ao Campo
Meu Amor! Meu Amante! Meu Amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina…
Pele doirada de alabastro antigo…
FrĂĄgeis mĂŁos de madona florentina…
– Vamos correr e rir por entre o trigo! âHĂĄ rendas de gramĂneas pelos montes…
Papoilas rubras nos trigais maduros…
Ăgua azulada a cintilar nas fontes…E Ă volta, Amor… tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro sĂł as nossas duas sombras!…
Sonetos sobre Horas de Florbela Espanca
25 resultadosAs Minhas IlusÔes
Hora sagrada dum entardecer
De Outono, Ă beira-mar, cor de safira,
Soa no ar uma invisĂvel lira …
O sol Ă© um doente a enlanguescer …A vaga estende os braços a suster,
Numa dor de revolta cheia de ira,
A doirada cabeça que delira
Num Ășltimo suspiro, a estremecer!O sol morreu … e veste luto o mar …
E eu vejo a urna de oiro, a balouçar,
à flor das ondas, num lençol de espuma.As minhas IlusÔes, doce tesoiro,
Também as vi levar em urna de oiro,
No mar da Vida, assim … uma por uma …
Horas Rubras
Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de volĂșpia, noites quentes
Onde hĂĄ risos de virgens desmaiadas…Oiço olaias em flor Ă s gargalhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
SĂŁo pedaços de prata p’las estradas…Os meus lĂĄbios sĂŁo brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…Sou chama e neve e branca e mist’riosa…
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ă meu Poeta, o beijo que procuras!
Outonal
Caem as folhas mortas sobre o lago!
Na penumbra outonal, nĂŁo sei quem tece
As rendas do silĂȘncio…Olha, anoitece!
— Brumas longĂnquas do PaĂs Vago…Veludos a ondear…MistĂ©rio mago…
Encantamento…A hora que nĂŁo esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bĂȘnção dum afago…Outono dos crepĂșsculos doirados,
De pĂșrpuras, damascos e brocados!
— Vestes a Terra inteira de esplendor!Outono das tardinhas silenciosas,
Das magnĂficas noites voluptuosas
Em que soluço a delirar de amor…
Sol Poente
Tardinha… “Ave-Maria, MĂŁe de Deus…”
E reza a voz dos sinos e das noras…
O sol que morre tem clarĂ”es d’auroras,
Ăguia que bate as asas pelo cĂ©u!Horas que tĂȘm a cor dos olhos teus…
Horas evocadoras doutras horas…
Lembranças de fantåsticos outroras,
De sonhos que nĂŁo tenho e que eram meus!Horas em que as saudades, p’las estradas,
Inclinam as cabeças mart’rizadas
E ficam pensativas… meditando…Morrem verbenas silenciosamente…
E o rubro sol da tua boca ardente
Vai-me a pĂĄlida boca desfolhando…