Tudo Está Caro
A trinta e cinco réis custa a pescada:
O triste bacalhau a quatro e meio:
A dezasseis vinténs corre o centeio:
De verde a trinta réis custa a canada.A sete, e oito tostões custa a carrada
Da torta lenha, que do monte veio:
Vende as sardinhas o galego feio
Cinco ao vintém; e seis pela calada.O cujo regatão vai com excesso,
Revendendo as pequenas iguarias,
Que da pobreza são todo o regresso.Tudo está caro: só em nossos dias,
Graças ao Céu! Temos em bom preço
Os tremoços, o arroz e as Senhorias.
Sonetos sobre Lenha
7 resultadosDialética
Quando nĂŁo se queima lenha
na casa de palha e taipa,
sinal de fome que escapa
à saga que se faz senha.Rio, termômetro da várzea,
geografia de sol e chuva;
linha d’água, arco em curva,
elementos dessa faina.Um pássaro risca na tarde
a cambraia do seu canto;
o fado da sarça, que arde,queimando encardidos lĂrios
e a tua palidez palustre
em febre acendendo cĂrios.
Mulher De Sede Sedenta
Finge a mulher que nĂŁo se quer vulcĂŁo
num eufemismo frágil de inverdade.
Onde existiu fogueira, abrasação,
basta um sopro na lenha da saudade.A sede que se faz sede serena
chega filtrada em gotas bem dosadas
regando tantos tântalos na cena
roubando-a como amante acalorada.O verde que queimaste já não conta
pela falta madura dessas montas
na pressa sem primĂcias do alunado.Hoje nĂŁo. Os chamados escolhidos
são bem poucos, didáticos bandidos
que nĂŁo querem morrer sem ser matados.
Natal
Turvou-se de penumbra o dia cedo;
Nem o sol apertou no meu beiral!
Que longas horas de Jesus! Natal…
E o cepo a arder nas cinzas do brasedo…E o lar da casa, os corações aos dobres,
É um painel a fogo em seu costume!
Que lindos versos bĂblicos, ao lume,
Plo doce PrĂncipe cristĂŁo dos pobres!Fulvas figuras pra esculpir em barro:
Ă€ luz da lenha, em rubro tom bizarro,
Sou em Presépio com meus pais e irmãosE junto às brasas, os meus olhos postos
Nesta evangélica expressão de rostos,
Ergo em graças a Deus as minhas mãos.
Soneto IIII
Ao Reitor António de Mendonça.
Neste árduo labirinto onde me guio,
Sem esperança algua de saĂda,
Mostrai, senhor, o fio Ă minha vida,
Pois está minha vida já no fio.Incertos passos, hórrido desvio,
Medonhos ares, confusĂŁo crescida
Ma trazem com temor desfalecida,
E dela já de todo desconfio.A vós só tem minha esperança morta,
Se morta pode ser ua esperança
Que vos tem vivo, e largos anos tenha.Se espera mal, e ser queimada importa
Por crer mais do que pode e cá se alcança,
O fogo ponde, que eu lhe ajunto a lenha.
Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho
Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer, meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exĂguo os altos girassĂłis
Quem foi que os arrancou e lançou no caminho?Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear, d tábua tosca de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
– Da minha vinha o vinho acidulado e fresco…Ă“ minha pobre mĂŁe!… NĂŁo te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruĂna a casa nova…
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.NĂŁo venhas mais ao lar. NĂŁo vagabundes mais,
Alma da minha mĂŁe… NĂŁo andes mais Ă neve,
De noite a mendigar Ă s portas dos casais.
Falavam-me de Amor
Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos mĂłveis e tu vinhas
solstĂcio de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.O fel que por nĂłs bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
sĂł tu ficaste a ti acostumado.