Sonetos sobre Livros

32 resultados
Sonetos de livros escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Manias

O mundo Ă© velha cena ensanguentada.
Coberta de remendos, picaresca;
A vida Ă© chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, – hoje uma ossada -,
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância, quixotesca.

Aos domingos a déia, já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mĂŁo nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!

Este Livro

Este livro é de mágoas.Desgraçados os
Que no mundo passais, chorai ao lĂŞ-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo…e compreendĂŞ-lo.

Este livro é para vós. Abençoados
Os que o sentirem, sem ser bom nem belo!
BĂ­blia de tristes…Ă“ Desventurados,
Que a vossa imensa dor se acalme ao vĂŞ-lo!

Livro de Mágoas…Dores…Ansiedades!
Livro de Sombras…NĂ©voas e Saudades!
Vai pelo mundo…(Trouxe-o no meu seio…)

Irmãos na Dor, os olhos rasos de água,
Chorai comigo a minha imensa mágoa,
Lendo o meu livro sĂł de mágoas cheio!…

A Anto!

Poeta da saudade, ó meu poeta qu´rido
Que a morte arrebatou em seu sorrir fatal,
Ao escrever o SĂł pensaste enternecido
Que era o mais triste livro deste Portugal,

Pensaste nos que liam esse teu missal,
Tua bĂ­blia de dor, teu chorar sentido
Temeste que esse altar pudesse fazer mal
Aos que comungam nele a soluçar contigo!

Ă“ Anto! Eu adoro os teus estranhos versos,
Soluços que eu uni e que senti dispersos
Por todo o livro triste! Achei teu coração…

Amo-te como não te quis nunca ninguém,
Como se eu fosse, Ăł Anto, a tua prĂłpria mĂŁe
Beijando-te já frio no fundo do caixão!

Idealização Da Humanidade Futura

Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
– Homens que a herança de Ă­mpetos impuros
Tornara Ă©tnicamente irracionais! –

NĂŁo sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No hĂşmus dos monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!

Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciĂŞncia daquela multidĂŁo…

E, em vez de achar a luz que os CĂ©us inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!

Meu CĂ©u Interior

Se esses teus olhos, no meu livro, imersos,
encontrarem diversas emoções,
– nĂŁo tentes decifrar… – mil corações
nĂłs os temos num sĂł, todos diversos…

Os meus poemas aqui, vivem dispersos,
como as estrelas… e as constelações…
– no cĂ©u das minhas Ă­ntimas visões,
no”meu cĂ©u interior…”cheio de versos.

NĂŁo procures o poeta compreender…
– Os versos que umas cousas nos desnudam,
Outras cousas, ocultam, sem querer…

Uns, sĂŁo felizes… Outros, ao contrário…
– No rosário da vida, as contas mudam,
e os versos sĂŁo contas de um rosário!…

Octavio

Toca a boca, olha as coisas abstrato
Percorre da varanda os quatro cantos
E tirando do corpo um carrapato
Imagina o romance mil e tantos…

Logo apĂłs olha o mundo e o vĂŞ morrendo
Sob a opressão tirânica do mal
E como um passarinho, vai correndo…
Escrever um tratado social

É amigo de um “braço” na poesia
E de um outro que Ă© sĂł filosofia
E de um terceiro, romancista: veja

Quanto livro a escrever ainda teria
O ditador Octavio de Faria
Sob o signo cristĂŁo da nova Igreja…

Dos Tórrido Sertões, Pejados De Oiro

Dos tórridos sertões, pejados de oiro,
Saiu um sabichĂŁo de escassa fama,
Que os livros preza, os cartapácios ama,
Que das lĂ­nguas repartem o tesoiro.

Arranha o persiano, arranha o moiro,
Sabe que Deus em turco Allah se chama;
Que no grego alfabeto o G Ă© gama,
Que taurus em latim quer dizer toiro.

Para papaguear saiu do mato:
Abocanha talentos, que nĂŁo goza;
É mono, e prega unhadas como gato.

É nada em verso, quase nada em prosa:
NĂŁo conheces, leitor, neste retrato
O guapo charlatão Tomé Barbosa?

CastelĂŁ da Tristeza

Altiva e couraçada de desdém,
Vivo sozinha em meu castelo: a Dor!
Passa por ele a luz de todo o amor …
E nunca em meu castelo entrou alguém!

CastelĂŁ da Tristeza, vĂŞs? … A quem? …
– E o meu olhar é interrogador –
Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pĂ´r …
Chora o silĂŞncio … nada … ninguĂ©m vem …

CastelĂŁ da Tristeza, porque choras
Lendo, toda de branco, um livro de horas,
Ă€ sombra rendilhada dos vitrais? …

À noite, debruçada, plas ameias,
Porque rezas baixinho? … Porque anseias? …
Que sonho afagam tuas mĂŁos reais? …

Enquanto Quis Fortuna Que Tivesse

Enquanto quis Fortuna que tivesse
esperança de algum contentamento,
o gosto de um suave pensamento
me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
minha escritura a algum juĂ­zo isento,
escureceu-me o engenho co tormento,
para que seus enganos nĂŁo dissesse.

Ă“ vĂłs que Amor obriga a ser sujeitos
a diversas vontades! Quando lerdes
num breve livro casos tĂŁo diversos,

verdades puras sĂŁo, e nĂŁo defeitos…
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento de meus versos!

Alçando O Livro Colossal Ardente

Alçando o livro colossal ardente
Traças no crânio um sulco luminoso,
E vais seguindo o remontar garboso
Do sol fagueiro lá no espaço ingente!

Ergues a fronte juvenil potente
Já como herói ou lutador famoso
E c’uma forma de pensar honroso
Fazes-te esperança da brasílea gente!

Seis vezes astro de maior grandeza
Enfim lá surges nos exames belos
Enfim triunfas na brilhante empresa!

Seis vezes quebras da ignorância os elos,
Seis vezes vives com mais sĂŁ firmeza,
Gemem seis vezes a louvar-te os prelos!…

Camões IV

Um dia, junto Ă  foz de brando e amigo
Rio de estranhas gentes habitado,
Pelos mares aspérrimos levado,
Salvaste o livro que viveu contigo.

E esse que foi Ă s ondas arrancado,
Já livre agora do mortal perigo,
Serve de arca imortal, de eterno abrigo,
Não só a ti, mas ao teu berço amado.

Assim, um homem sĂł, naquele dia,
Naquele escasso ponto do universo,
Língua, história, nação, armas, poesia,

Salva das frias mĂŁos do tempo adverso.
E tudo aquilo agora o desafia.
E tão sublime preço cabe em verso.

Quia Aeternus

(A Joaquim de AraĂşjo)

NĂŁo morreste, por mais que o brade Ă  gente
Uma orgulhosa e vĂŁ filosofia…
NĂŁo se sacode assim tĂŁo facilmente
O jugo da divina tirania!

Clamam em vĂŁo, e esse triunfo ingente
Com que a Razão — coitada! — se inebria,
É nova forma, apenas, mais pungente,
Da tua eterna, trágica ironia.

NĂŁo, nĂŁo morreste, espectro! o Pensamento
Como d’antes te encara, e Ă©s o tormento
De quantos sobre os livros desfalecem.

E os que folgam na orgia Ă­mpia e devassa
Ai! quantas vezes ao erguer a taça,
Param, e estremecendo, empalidecem!