PĂĄlida, Ă Luz Da LĂąmpada Sombria
PĂĄlida, Ă luz da lĂąmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!Era a virgem do mar! na escuma fria
Pela maré das åguas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!Era mais bela! o seio palpitando…
Negros olhos as pĂĄlpebras abrindo…
Formas nuas no leito resvalando…NĂŁo te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!
Sonetos sobre Lua
90 resultadosOntologia do Amor
Tua carne é a graça tenra dos pomares
e abre-se teu ventre de uma a outra lua;
de teus prĂłprios seios descem dois luares
e desse luar vestida Ă© que ficas nua.Ănsia de voo em asas de ficar
de ti mesma sou o mar e o fundo.
Praia dos seres, quem te viajar
só naufragando recupera o mundo.Ritmo de céu, por quem és pergunta
de uma azul resposta que nĂŁo trazes junta
vitral de carne em catedral infinda.Ter-te amor Ă© jĂĄ rezar-te, prece
de um imenso altar onde acontece
quem no próprio corpo é céu ainda.
Deixei De Ser Aquele Que Esperava
Deixei de ser aquele que esperava,
Isto Ă©, deixei de ser quem nunca fui…
Entre onda e onda a onda nĂŁo se cava,E tudo, em ser conjunto, dura e flui.
A seta treme, pois que, na ampla aljava,
O presente ao futuro cria e inclui.
Se os mares erguem sua fĂșria brava
Ă que a futura paz seu rastro obstrui.Tudo depende do que nĂŁo existe.
Por isso meu ser mudo se converte
Na própria semelhança, austero e triste.Nada me explica. Nada me pertence.
E sobre tudo a lua alheia verte
A luz que tudo dissipa e nada vence.
Quando Me Ergui Ela Dormia, Nua
Quando me ergui ela dormia, nua
E sorria, em seu sono desmaiada
Tinha a face longĂnqua e iluminada
E alto, sseu sexo sugava a Lua.Toquei-a, ela fremiu, gemeu, na sua
Doce fala, e bateu a mão alçada
No ar, e foi deixĂĄ-la de guardada
Sob a nĂĄdega fria, forte e cruaTĂŁo louca a minha amiga, linda e louca
Minha amiga, em seu branco devaneio
De mim, eu de amor pouco e vida poucaMas que tinha deixado sem receio
Um segredo de carne em sua boca
E uma gota de leite no seu seio
Antes de Amar-te Eu nada Tinha
Antes de amar-te, amor, eu nada tinha:
vacilei pelas ruas e pelas coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que aguardava.Conheci salÔes cinzentos,
tĂșneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que teimavam sobre a areia.Tudo estava vazio, morto e mudo,
caĂdo, abandonado e abatido,
tudo era inalienavelmente alheio,tudo era dos outros e de ninguém,
até que a tua beleza e a tua pobreza
encheram o outono de presentes.
Menino e Moço
Tombou da haste a flor da minha infancia alada,
Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
Voou aos altos céus Sta Aguia, linda fada,
Que d’antes estendia as azas sobre mim.Julguei que fosse eterna a luz d’essa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa vizĂŁo de luar que vivia encantada,
N’um castello de prata embutido a marfim!Mas, hoje, as aguias de oiro, aguias da minha infancia,
Que me enchiam de lua o coração, outrora,
Partiram e no céu evolam-se, a distancia!Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
Voltam na aza do vento os ais que a alma chora;
Ellas, porĂ©m, Senhor! ellas nĂŁo voltam mais…
A Uma Dama.
VĂȘs esse Sol de luzes coroado,
Em pérolas a Aurora convertida;
VĂȘs a Lua, de estrelas guarnecida;
VĂȘs o CĂ©u, de planetas adornado?O cĂ©u deixemos: vĂȘs, naquele prado,
A rosa com razĂŁo desvanecida,
A açucena por alva presumida,
O cravo por galĂŁ lisonjeado?Deixa o prado: vem cĂĄ, minha adorada:
VĂȘs desse mar a esfera cristalina
Em sucessivo aljĂŽfar desatada?Parece aos olhos ser de prata fina…
VĂȘs tudo isto bem? Pois tudo Ă© nada
Ă vista do teu rosto, Catarina.
Cuidado!
Ă namorados que passais, sonhando,
quando bóia, no céu, a lua cheia!
Que andais traçando coraçÔes na areia
e coraçÔes nos peitos apagando!Desperta os ninhos vosso passo… E quando
pelas bocas em flor o amor chilreia,
nem sei se Ă© o vosso beijo que gorjeia,
se sĂŁo as aves que se estĂŁo beijando…Mais cuidado! NĂŁo vĂĄ vossa alegria
afligir tanta gente que seria
feliz sem nunca ouvir nem nunca ver!Poupai a ingenuidade delicada
dos que amaram sem nunca dizer nada,
dos que foram amados sem saber!
PlenilĂșnio
VĂȘs este cĂ©u tĂŁo lĂmpido e constelado
E este luar que em fĂșlgida cascata,
Cai, rola, cai, nuns borbotĂ”es de prata…
VĂȘs este cĂ©u de mĂĄrmore azulado…VĂȘs este campo intĂ©rmino, encharcado
Da luz que a lua aos pĂĄramos desata…
VĂȘs este vĂ©u que branco se dilata
Pelo verdor do campo iluminado…VĂȘs estes rios, tĂŁo fosforescentes,
Cheios duns tons, duns prismas reluzentes,
VĂȘs estes rios cheios de ardentias…VĂȘs esta mole e transparente gaze…
Pois Ă©, como isso me parecem quase
Iguais, assim, Ă s nossas alegrias!
Doente
A lua veio… foi-se… e em breve ainda,
HĂĄ de voltar, a doce lua amada,
Sem que eu a veja, a minha fada linda,
Sem que eu a veja, a minha boa fada.Ela hå de vir, Ofélia desmaiada,
Sob as nuvens do céu na alvura infinda
Do seu branco roupĂŁo, noiva gelada,
Boiando Ă flor de um rio que nĂŁo finda.Ela hĂĄ de vir, sem que eu a veja… Entanto,
Com que tristezas e saudoso encanto
Choro estas noites que passando vĂŁo…Ă lua! mostra-me o teu rosto ameno:
Olha que murcha Ă falta de sereno
O lĂrio roxo do meu coração!
Rio Abaixo
Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga…
Quase noite. Ao sabor do curso lento
Da ĂĄgua, que as margens em redor alaga,
Seguimos. Curva os bambuais o vento.Vivo, hĂĄ pouco, de pĂșrpura, sangrento,
Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento…
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.Um silĂȘncio tristĂssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fĂmbria do horizonte mudo:E o seu reflexo pĂĄlido, embebido
Como um glĂĄdio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido.
Enterro de Ophelia
Morreu, Vae a dormir, vae a sonhar… Deixal-a!
(Fallae baixinho: agora mesmo se ficou…)
Como padres orando, os choupos formam ala,
Nas margens do ribeiro onde ella se afogou…Toda de branco vae, n’esse habito de opala,
Para um convento: nĂŁo o que o Hamlet lhe indicou,
Mas para um outro, horror! que tem por nome Valla,
D’onde jamais saiu quem, lĂĄ, uma vez entrou!…O lindo Por-do-Sol, que era doido por ella,
Que a perseguia sempre, em palacio e na rua,
Vede-o, coitado! mal pode suster a vela…Como damas de honor, nymphas seguem-lhe os rastros,
E, assomando no céu, sua Madrinha, a Lua,
Por ella vae desfiando as suas contas, Astros!
Flor Do Mar
Ăs da origem do mar, vens do secreto,
Do estranho mar espumaroso e frio
Que pÔe rede de sonhos ao navio,
E o deixa balouçar, na vaga, inquieto.Possuis do mar o deslumbrante afeto,
As dormĂȘncias nervosas e o sombrio
E torvo aspecto aterrador, bravio
Das ondas no atro e proceloso aspecto.Num fundo ideal de pĂșrpuras e rosas
Surges das ĂĄguas mucilaginosas
Como a lua entre a nĂ©voa dos espaços…Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
Auroras, virgens musicas marinhas,
Acres aromas de algas e sargaços…
Soneto Da Ilha
Eu deitava na praia, a cabeça na areia
Abria as pernas aos alĂsios e ao luar
Tonto de maresia; e a mão da maré cheia
Vinha coçar meus pĂ©s com seus dedos de mar.Longos ĂȘxtases tinha; amava a Deus em Ăąnsia
E a uma nudez qualquer ĂĄvida de abandono
Enquanto ao longe a clarineta da distĂąncia
Era tambĂȘm um mar que me molhava o sono.E adormecia assim, sonhando, vendo e ouvindo
Pulos de peixes, gritos frouxos, vozes rindo
E a lua virginal arder no plexoEstelar, e o marulho das ondas sucessivas
Da monção, até que alguma entre as mais vivas
Mansa, viesse desaguar pelo meu sexo.
Toada Para Solo De Ocarina
Fio tĂȘnue do cĂ©u em claridade
tece esse manto gris meu agasalho
colhido pelos muros da cidade:
mucosa verde musgo que se espalhacomo tapete denso em chĂŁo de jade
Meus pés de crivo cravam esse atalho
riscando seu grafite no mar que arde
o fogo-de-santelmo em céu talhadoNesse caminho caio em minha sina
caio no mar que lava essa lavoura
num barco Ă©brio que sempre desafinaE colho o sal da noite a lua moura
crescente luz de foice me assassina
e me morro no haxixe com Rimbaud
O Apaixonado
Luas, marfins, instrumentos e rosas,
Traços de DĂșrer, lampiĂ”es austeros,
Nove algarismos e o cambiante zero,
Devo fingir que existem essas coisas.Fingir que no passado aconteceram
Persépolis e Roma e que uma areia
Subtil mediu a sorte dessa ameia
Que os séculos de ferro desfizeram.Devo fingir as armas e a pira
Da epopeia e os pesados mares
Que corroem da terra os vĂŁos pilares.Devo fingir que hĂĄ outros. Ă mentira.
SĂł tu existes. Minha desventura,
Minha ventura, inesgotåvel, pura.Tradução de Fernando Pinto do Amaral
Olhos
II
A GrĂ©cia d’Arte, a estranha claridade
D’aquela GrĂ©cia de beleza e graça,
Passa, cantando, vai cantando e passa
Dos teus olhos na eterna castidade.Toda a serena e altiva heroicidade
Que foi dos gregos a imortal couraça,
Aquele encanto e resplendor de raça
Constelada de antiga majestade,Da Atenas flórea toda o viço louro,
E as rosas e os mirtais e as pompas d’ouro,
OdissĂ©ias e deuses e galeras…Na sonolĂȘncia de uma lua aziaga,
Tudo em saudade nos teus olhos vaga,
Canta melancolias de outras eras!…
Flores Da Lua
Brancuras imortais da Lua Nova
Frios de nostalgia e sonolĂȘncia…
Sonhos brancos da Lua e viva essĂȘncia
Dos fantasmas noctĂvagos da Cova.Da noite a tarda e taciturna trova
Soluça, numa tremula dormĂȘncia…
Na mais branda, mais leve florescĂȘncia
Tudo em VisÔes e Imagens se renova.Mistérios virginais dormem no Espaço,
Dormem o sono das profundas seivas,
MonĂłtono, infinito, estranho e lasso…E das Origens na luxĂșria forte
Abrem nos astros, nas sidéreas leivas
Flores amargas do palor da Morte.
O Amor nĂŁo Tem Nenhuma Parte Terrena
Por ser maior o cerco de ouro ardente
do sol que o globo opaco que Ă© a terra,
e menor que este o que Ă lua encerra
as trĂȘs caras que mostra diferente,ora a vemos minguante, ora crescente,
ora na sombra o eclipse a enterra;
porém aos seis planetas não faz guerra,
nem uma estrela sua injĂșria sente.A fogueira do meu amor, cravada
no zénite do vasto firmamento,
nĂŁo baixa em sombras ou estĂĄ eclipsada.Manchas da terra nĂŁo as experimento:
que sua noite dista da sagrada
região onde minha fé tem seu assento.Tradução de José Bento
A Uma Senhora Que Me Pediu Versos
Pensa em ti mesma, acharĂĄs
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.Se jå dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou tĂȘm assaz
Melancolia.Uma sĂł das horas tuas
Valem um mĂȘs
Das alma jĂĄ ressequidas.Os sĂłis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.