PanteĂsmo
Ao Botto de Carvalho
Tarde de brasa a arder, sol de verĂŁo
Cingindo, voluptuoso, o horizonte…
Sinto-me luz e cor, ritmo e clarĂŁo
Dum verso triunfal de Anacreonte!Vejo-me asa no ar, erva no chĂŁo,
Oiço-me gota de água a rir, na fonte,
E a curva altiva e dura do MarĂŁo
É o meu corpo transformado em monte!E de bruços na terra penso e cismo
Que, neste meu ardente panteĂsmo
Nos meus sentidos postos e absortosNas coisas luminosas deste mundo,
A minha alma Ă© o tĂşmulo profundo
Onde dormem, sorrindo, os deuses mortos!
Sonetos sobre Luz de Florbela Espanca
33 resultadosĂšltimo Sonho De “soror Saudade
Ă€quele que se perdera no caminho…
Soror Saudade abriu a sua cela…
E, num encanto que ninguém traduz,
Despiu o manto negro que era dela,
Seu vestido de noiva de Jesus.E a noite escura, extasiada, ao vĂŞ-la,
As brancas mĂŁos no peito quase em cruz,
Teve um brilhar feérico de estrela
Que se esfolhasse em pĂ©talas de luz!Soror Saudade olhou…Que olhar profundo
Que sonha e espera?…Ah! como Ă© feio o mundo,
E os homens vĂŁos! — EntĂŁo, devagarinho,Soror Saudade entrou no seu convento…
E, até morrer, rezou, sem um lamento,
Por Um que se perdera no caminho!…
Doce Certeza
Por essa vida fora hás-de adorar
Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d´ouro fulgindo em muita boca!Hás de guardar em cofre perfumado
Cabelos d´ouro e risos de mulher,
Muito beijo d´amor apaixonado;
E nĂŁo te lembrarás de mim sequer…Hás de tecer uns sonhos delicados…
HĂŁo de por muitos olhos magoados,
Os teus olhos de luz andar imersos!…Mas nunca encontrarás p´la vida fora,
Amor assim como este amor que chora
Neste beijo d´amor que sĂŁo meus versos!…
Saudades
Saudades! Sim.. talvez.. e por que nĂŁo?…
Se o sonho foi tĂŁo alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!Esquecer! Para quĂŞ?… Ah, como Ă© vĂŁo!
Que tudo isso, Amor, nos nĂŁo importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais saudade andasse presa a mim!
A Minha Tragédia
Tenho Ăłdio Ă luz e raiva Ă claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!Ă“ minha vĂŁ, inĂştil mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida! …
Duns beijos que me deste noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade! …Eu nĂŁo gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim! …
Amor que morre
O nosso amor morreu… Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!Bem estava a sentir que ele morria…
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre… e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia…Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
SĂŁo precisos amores, pra morrer,
E sĂŁo precisos sonhos para partir.E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossĂvel que há-de vir!
CastelĂŁ da Tristeza
Altiva e couraçada de desdém,
Vivo sozinha em meu castelo: a Dor!
Passa por ele a luz de todo o amor …
E nunca em meu castelo entrou alguĂ©m!CastelĂŁ da Tristeza, vĂŞs? … A quem? …
– E o meu olhar é interrogador –
Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pĂ´r …
Chora o silĂŞncio … nada … ninguĂ©m vem …CastelĂŁ da Tristeza, porque choras
Lendo, toda de branco, um livro de horas,
Ă€ sombra rendilhada dos vitrais? …Ă€ noite, debruçada, plas ameias,
Porque rezas baixinho? … Porque anseias? …
Que sonho afagam tuas mĂŁos reais? …
Filtro
Meu Amor, nĂŁo Ă© nada: – Sons marinhos
Numa concha vazia, choro errante…
Ah, olhos que nĂŁo choram! Pobrezinhos…
Não há luz neste mundo que os levante!Eu andarei por ti os maus caminhos
E as minhas mĂŁos, abertas a diamante,
HĂŁo de crucificar-se nos espinhos
Quando o meu peito for o teu mirante!Para que corpos vis te nĂŁo desejem,
Hei de dar-te o meu corpo, e a boca minha
Pra que bocas impuras te não beijem!Como quem roça um lago que sonhou,
Minhas cansadas asas de andorinha
HĂŁo-de prender-te todo num sĂł vĂ´o…
RenĂşncia
A minha mocidade há muito pus
No tranquilo convento da tristeza;
Lá passa dias, noites, sempre presa,
Olhos fechados, magras mĂŁos em cruz…Lá fora, a Noite, Satanás, seduz!
Desdobra-se em requintes de Beleza…
E como um beijo ardente a Natureza…
A minha cela Ă© como um rio de luz…Fecha os teus olhos bem! NĂŁo vejas nada!
Empalidece mais! E, resignada,
Prende os teus braços a uma cruz maior!Gela ainda a mortalha que te encerra!
Enche a boca de cinzas e de terra
Ă“ minha mocidade toda em flor!
Sombra
De olheiras roxas, roxas, quase pretas,
De olhos lĂmpidos, doces, languescentes,
Lagos em calma, pálidos, dormentes
Onde se debruçassem violetas…De mĂŁos esguias, finas hastes quietas,
Que o vento nĂŁo baloiça em noites quentes…
Nocturno de Chopin… risos dolentes…
Versos tristes em sonhos de Poetas…Beijo doce de aromas perturbantes…
Rosal bendito que dá rosas… Dantes
Esta era Eu e Eu era a Idolatrada!…Ah, cinzas mortas! Ah, luz que se apaga!
Vou sendo, em ti, agora, a sombra vaga
D’alguĂ©m que dobra a curva duma estrada…
Mais Alto
Mais alto, sim! Mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quemO mundo não conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser águia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdĂ©m!Mais alto, sim! Mais alto! A IntangĂvel
Turris Eburnea erguida nos espaços,
Ă€ rutilante luz dum impossĂvel!Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
O mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!
Outonal
Caem as folhas mortas sobre o lago!
Na penumbra outonal, nĂŁo sei quem tece
As rendas do silĂŞncio…Olha, anoitece!
— Brumas longĂnquas do PaĂs Vago…Veludos a ondear…MistĂ©rio mago…
Encantamento…A hora que nĂŁo esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bĂŞnção dum afago…Outono dos crepĂşsculos doirados,
De pĂşrpuras, damascos e brocados!
— Vestes a Terra inteira de esplendor!Outono das tardinhas silenciosas,
Das magnĂficas noites voluptuosas
Em que soluço a delirar de amor…
De Joelhos
“Bendita seja a Mãe que te gerou.”
Bendito o leite que te fez crescer
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama, pra te adormecer!Bendita essa canção que acalentou
Da tua vida o doce alvorecer …
Bendita seja a Lua, que inundou
De luz, a Terra, sĂł para te ver …Benditos sejam todos que te amarem,
As que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixĂŁo fervente e louca!E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa Mulher,
Bendito seja o beijo dessa boca!!