Sonetos sobre Marés

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Sonetos de marés escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Pálida, À Luz Da Lñmpada Sombria

PĂĄlida, Ă  luz da lĂąmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! na escuma fria
Pela maré das åguas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando…
Negros olhos as pĂĄlpebras abrindo…
Formas nuas no leito resvalando…

NĂŁo te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!

A concha

A minha casa Ă© concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciĂȘncia:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros sĂł areia e ausĂȘncia.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocĂȘncia
Se Ă s vezes dĂĄ uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
FrĂĄgeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa… Mas Ă© outra a histĂłria:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memĂłria.

Choro De Vagas

NĂŁo Ă© de ĂĄguas apenas e de ventos,
No rude som, formada a voz do Oceano.
Em seu clamor – ouço um clamor humano;
Em seu lamento – todos os lamentos.

SĂŁo de nĂĄufragos mil estes acentos,
Estes gemidos, este aiar insano;
Agarrados a um mastro, ou tĂĄbua, ou pano,
Vejo-os varridos de tufÔes violentos;

Vejo-os na escuridĂŁo da noite, aflitos,
Bracejando ou jå mortos e de bruços,
Largados das marĂ©s, em ermas plagas…

Ah! que sĂŁo deles estes surdos gritos,
Este rumor de preces e soluços
E o choro de saudades destas vagas!

Soneto Da Ilha

Eu deitava na praia, a cabeça na areia
Abria as pernas aos alĂ­sios e ao luar
Tonto de maresia; e a mão da maré cheia
Vinha coçar meus pés com seus dedos de mar.

Longos ĂȘxtases tinha; amava a Deus em Ăąnsia
E a uma nudez qualquer ĂĄvida de abandono
Enquanto ao longe a clarineta da distĂąncia
Era tambĂȘm um mar que me molhava o sono.

E adormecia assim, sonhando, vendo e ouvindo
Pulos de peixes, gritos frouxos, vozes rindo
E a lua virginal arder no plexo

Estelar, e o marulho das ondas sucessivas
Da monção, até que alguma entre as mais vivas
Mansa, viesse desaguar pelo meu sexo.

Quando Voltei Encontrei Os Meus Passos

Quando voltei encontrei os meus passos
Ainda frescos sobre a Ășmida areia.
A fugitiva hora, reevoquei-a,
– TĂŁo rediviva! nos meus olhos baços…

Olhos turvos de lĂĄgrimas contidas.
– Mesquinhos passos, porque doidejastes
Assim transviados, e depois tornastes
Ao ponto das primeiras despedidas?

Onde fostes sem tino, ao vento vĂĄrio,
Em redor, como as aves num aviĂĄrio,
AtĂ© que a asita fofa lhes faleça…

Toda essa extensa pista – para quĂȘ?
Se hå de vir apagar-vos a maré,
Com as do novo rasto que começa…

O Que Tu És…

És Aquela que tudo te entristece
Irrita e amargura, tudo humilha;
Aquela a quem a MĂĄgoa chamou filha;
A que aos homens e a Deus nada merece.

Aquela que o sol claro entenebrece
A que nem sabe a estrada que ora trilha,
Que nem um lindo amor de maravilha
Sequer deslumbra, e ilumina e aquece!

Mar-Morto sem marés nem ondas largas,
A rastejar no chĂŁo como as mendigas,
Todo feito de lĂĄgrimas amargas!

És ano que nĂŁo teve Primavera…
Ah! NĂŁo seres como as outras raparigas
Ó Princesa Encantada da Quimera!…

Sonhos

Cada dia que passa faz-me pensar
E reflectir sobre quem ele traiu,
Que enquanto viveu nada fui ganhar
Com a lama vil onde a alma caiu.

Até de meus sonhos a vida me deixa
Na maré nu, na areia, em solidão,
Desolado que, inda vivo, nĂŁo esteja
Seguindo veloz no barco da acção.

HĂĄ uma beleza no mundo exterior,
No monte ou planĂ­cie onde chega a vista
Que jĂĄ Ă© consolo Ă  dĂșvida e Ă  dor,
Mas, Oh! A beleza que o mundo conquista

Nem Palavra ou verso a pode imaginar
Nem a mente humana, sĂł por si, forjar!

VĂȘnus II

Singra o navio. Sob a ĂĄgua clara
VĂȘ-se o fundo do mar, de areia fina…
– ImpecĂĄvel figura peregrina,
A distĂąncia sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparĂȘncia luminosa
Repousam, fundos, sob a ĂĄgua plana.

E a vista sonda, reconstrui, compara,
Tantos naufrågios, perdiçÔes, destroços!
– Ó fĂșlgida visĂŁo, linda mentira!

RĂłseas unhinhas que a marĂ© partira…
Dentinhos que o vaivĂ©m desengastara…
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos…

Soneto Do Poeta Brasileiro

NĂŁo sou viril somente nas poesias.
Quero dormir contigo, pois teus pés
amassavam pitangas e trazias
no corpo inteiro a marca das marés.

Disseste que comigo casarias
– amor na cama, beijos, cafunĂ©s.
Entre-sombras de carne oferecias
tão navegåveis como igarapés.

Minha morena até dizer que não,
o nosso amor demais me recordava
duas lagoas onde me banhei.

Sou macho e brasileiro, coração:
em teu olhar eu nu e forte estava
e foi assim, morena, que te amei.

O Dote que se Oferece no Horror

o dote que se oferece no horror
dessa cidade Ă© mais uma manobra difĂ­cil
das marés viradas em nossos pulsos
tal o esforço da visão da névoa

sonhos e vibraçÔes técnicas estão aí
para tudo que seja atual
em frontes douradas pois ficou vazio
o que Ă© pesado como o antigo absurdo

seu desejo excepcional ainda dentro
do medo com a mudança recente de vultos
interessados na superfĂ­cie do arrependimento

mas chegou ao fim a fĂșria da indecĂȘncia
e as unhas vistas entre os ossos podem matar
elas conhecem o que pode ser morto de novo

VĂ©nus

I

À flor da vaga, o seu cabelo verde,
Que o torvelinho enreda e desenreda…
O cheiro a carne que nos embebeda!
Em que desvios a razĂŁo se perde!

PĂștrido o ventre, azul e aglutinoso,
Que a onda, crassa, num balanço alaga,
E reflui (um olfato que se embriaga)
Como em um sorvo, murmura de gozo.

O seu esboço, na marinha turva…
De pé flutua, levemente curva;
Ficam-lhe os pĂ©s atrĂĄs, como voando…

E as ondas lutam, como feras mugem,
A lia em que a desfazem disputando,
E arrastando-a na areia, co’a salsugem.

II

Singra o navio. Sob a ĂĄgua clara
VĂȘ-se o fundo do mar, de areia fina…
_ ImpecĂĄvel figura peregrina,
A distĂąncia sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparĂȘncia luminosa
Repousam, fundos, sob a ĂĄgua plana.

E a vista sonda, reconstrui, compara,
Tantos naufrågios, perdiçÔes, destroços!
_ Ó fĂșlgida visĂŁo, linda mentira!

RĂłseas unhinhas que a marĂ© partira…
Dentinhos que o vaivĂ©m desengastara…

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Bastava-nos Amar

Bastava-nos amar. E nĂŁo bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E nĂŁo bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
JĂĄ nĂŁo bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar

a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.

Caravelas

Cheguei a meio da vida jĂĄ cansada
De tanto caminhar! JĂĄ me perdi!
Dum estranho paĂ­s que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e nĂŁo sei nada.
E as torres de marfim que construĂ­
Em trĂĄgica loucura as destruĂ­
Por minhas prĂłprias mĂŁos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar-Morto,
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram.

Caravelas doiradas a bailar…
Ai, quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei Ă  vida, e nĂŁo voltaram!…