Regenerada
De mĂŁos postas, Ă luz de frouxos cĂrios
Rezas para as Estrelas do Infinito,
Para os Azuis dos siderais EmpĂreos
Das Orações o doloroso rito.Todos os mais recĂ´nditos martĂrios,
As angústias mortais, teu lábio aflito
Soluça, em preces de luar e lĂrios,
Num trêmulo de frases inaudito.Olhos, braços e lábios, mãos e seios,
Presos, d’estranhos, mĂsticos enleios,
Já nas Mágoas estão divinizados.Mas no teu vulto ideal e penitente
Parece haver todo o calor veemente
Da febre antiga de gentis Pecados.
Sonetos sobre MartĂrio de Cruz e Souza
6 resultadosLĂrio Lutuoso
EssĂŞncia das essĂŞncias delicadas,
Meu perfumoso e tenebroso lĂrio,
Oh! dá-me a glĂłria de celeste EmpĂreo
Da tu’alma nas sombras encantadas.Subindo lento escadas por escadas,
Nas espirais nervosas do MartĂrio,
Das Ă‚nsias, da Vertigem, do DelĂrio,
Vou em busca de mágicas estradas.Acompanha-me sempre o teu perfume,
LĂrio da Dor que o Mal e o Bem resumem,
Estrela negra, tenebroso fruto.Oh! dá-me a glória do teu ser nevoento
para que eu possa haurir o sentimento
Das lágrimas acerbas do teu luto!.
Velho
Estás morto, estás velho, estás cansado!
Como um sulco de lágrimas pungidas,
Ei-las, as rugas, as indefinidas
Noites do ser vencido e fatigado.Envolve-te o crepĂşsculo gelado
Onde vai soturno amortalhando as vidas
Ante o responso em mĂşsicas gemidas
No fundo coração dilacerado.A cabeça pendida de fadiga,
Sentes a morte taciturna e amiga
Que os teus nervos cĂrculos governa.Estás velho, estás morto! Ă“ dor, delĂrio,
Alma despedaçada de martĂrio,
Ó desespero da Desgraça eterna!
Lembranças Apagadas
Outros, mais do que o meu, finos olfatos,
Sintam aquele aroma estranho e belo
Que tu, Ăł LĂrio lânguido, singelo,
Guardaste nos teus Ăntimos recatos.Que outros se lembrem dos sutis e exatos
Traços, que hoje não lembro e não revelo
E se recordem, com profundo anelo,
Da tua voz de siderais contatos…Mas eu, para lembrar mortos encantos,
Rosas murchas de graças e quebrantos,
Linhas, perfil e tanta dor saudosa,Tanto martĂrio, tanta mágoa e pena,
Precisaria de uma luz serene,
De uma luz imortal maravilhosa!…
VisĂŁo Da Morte
Olhos voltados para mim e abertos
Os braços brancos, os nervosos braços,
Vens d’espaços estranhos, dos espaços
Infinitos, intĂ©rminos, desertos…Do teu perfil os tĂmidos, incertos
Traços indefinidos, vagos traços
Deixam, da luz nos ouros e nos aços,
Outra luz de que os céus ficam cobertos.Deixam nos céus uma outra luz mortuária,
Uma outra luz de lĂvidos martĂrios,
De agonies, de mágoa funerária…E causas febre e horror, frio, delĂrios,
Ó Noiva do Sepulcro, solitária,
Branca e sinistra no clarĂŁo dos cĂrios!
VerĂ´nica
NĂŁo a face do Cristo, a macilenta
Face do Cristo, a dolorosa face…
O martĂrio da Cruz passou fugace
E este MartĂrio, esta PaixĂŁo Ă© lenta.Um vivo sangue a face te ensangĂĽenta,
Mais vivo que se o Deus o derramasse;
Porque esta vĂŁ paixĂŁo, para que passe,
É mister dos Titãs a luta incruenta.Se tu, Visão da Luz, Visão sagrada
Queres ser a VerĂ´nica sonhada,
Consoladora dessa dor sombriaImpressa ficara no teu sudário
Não a face do Cristo do Calvário
Mas a face convulsa da Agonia!