Mistério
Gosto de ti, Ăł chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.Dos teus pĂĄlidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca nĂŁo aprende
MurmĂșrios por caminhos desolados.Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lĂșgubre arrepio
Das sensaçÔes estranhas, dolorosas…Talvez um dia entenda o teu mistĂ©rio…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome Ă s rosas!
Sonetos sobre Mistério de Florbela Espanca
3 resultadosO Meu Soneto
Em atitudes e em ritmos fleumĂĄticos,
Erguendo as mĂŁos em gestos recolhidos,
Todos brocados fĂșlgidos, hierĂĄticos,
Em ti andam bailando os meus sentidos…E os meus olhos serenos, enigmĂĄticos
Meninos que na estrada andam perdidos,
Dolorosos, tristĂssimos, extĂĄticos,
SĂŁo letras de poemas nunca lidos…As magnĂłlias abertas dos meus dedos
São mistérios, são filtros, são enredos
Que pecados dÂŽamor trazem de rastros…E a minha boca, a rĂștila manhĂŁ,
Na Via LĂĄctea, lĂrica, pagĂŁ,
A rir desfolha as pétalas dos astros!..
Outonal
Caem as folhas mortas sobre o lago!
Na penumbra outonal, nĂŁo sei quem tece
As rendas do silĂȘncio…Olha, anoitece!
— Brumas longĂnquas do PaĂs Vago…Veludos a ondear…MistĂ©rio mago…
Encantamento…A hora que nĂŁo esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bĂȘnção dum afago…Outono dos crepĂșsculos doirados,
De pĂșrpuras, damascos e brocados!
— Vestes a Terra inteira de esplendor!Outono das tardinhas silenciosas,
Das magnĂficas noites voluptuosas
Em que soluço a delirar de amor…