Sonetos sobre Monstros de Antero de Quental

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Sonetos de monstros de Antero de Quental. Leia este e outros sonetos de Antero de Quental em Poetris.

Evolução

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incĂłgnita floresta…
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquĂ­ssimo inimigo…

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paĂșl, glauco pascigo…

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade…

Interrogo o infinito e Ă s vezes choro…
Mas estendendo as mĂŁos no vĂĄcuo, adoro
E aspiro unicamente Ă  liberdade.

No Circo

(A JoĂŁo de Deus)

Muito longe d’aqui, nem eu sei quando,
Nem onde era esse mundo, em que eu vivia…
Mas tĂŁo longe… que atĂ© dizer podia
Que enquanto lĂĄ andei, andei sonhando…

Porque era tudo ali aéreo e brando,
E lĂșcida a existĂȘncia amanhecia…
E eu… leve como a luz… atĂ© que um dia
Um vento me tomou, e vim rolando…

CaĂ­ e achei-me, de repente, involto
Em luta bestial, na arena fera,
Onde um bruto furor bramia solto.

Senti um monstro em mim nascer n’essa hora,
E achei-me de improviso feito fera…
— É assim que rujo entre leĂ”es agora!