Soneto Da Mulher InĂştil
De tanta graça e de leveza tanta
Que quando sobre mim, como a teu jeito
Eu tĂŁo de leve sinto-te no peito
Que o meu prĂłprio suspiro te levanta.To contra quem me esbato liquefeito
Rocha branca! brancura que me espanta
Brancos seios azuis, nĂvea garganta
Branco pássaro fiel com que me deito.Mulher inútil, quando nas noturnas
Celebrações, náufrago em teus delĂrios
Tenho-te toda, branca, envolta em brumasSĂŁo teus seios tĂŁo tristes como urnas
SĂŁo teus braços tĂŁo finos como lĂrios
É teu corpo tão leve como plumas.
Sonetos sobre Mulheres
99 resultadosBeijos Mortos
Amemos a mulher que nĂŁo ilude,
e que, ao saber que a temos enganado,
perdoa, por amor e por virtude,
pelo respeito ao menos ao passado.Muitas vezes, na minha juventude,
evocando o romance de um noivado,
sinto que amei, outrora, quanto pude,
porém mais deveria ter amado.Choro. O remorso os nervos me sacode.
e, ao relembrar o mal que entĂŁo fazia,
meu desespero, inconsolado, explode.E a causa desta horrĂvel agonia,
Ă© ter amado, quanto amar se pode,
sem ter amado, quanto amar devia.
TĂ©dio
Passo pálida e triste. Oiço dizer:
“Que branca que ela é! Parece morta!”
E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
Não tenho um gesto, ou um olhar sequer…Que diga o mundo e a gente o que quiser!
— O que é que isso me faz? O que me importa?…
O frio que trago dentro gela e corta
Tudo que é sonho e graça na mulher!O que é que me importa?! Essa tristeza
É menos dor intensa que frieza,
É um tédio profundo de viver!E é tudo sempre o mesmo, eternamente…
O mesmo lago plácido, dormente…
E os dias, sempre os mesmos, a correr…
Claro E Escuro
Dentro — os cristais dos tempos fulgurantes,
MĂşsicas, pompas, fartos esplendores,
Luzes, radiando em prismas multicores,
Jarras formosas, lustres coruscantes,PĂşrpuras ricas, galas flamejantes,
Cintilações e cânticos e flores;
Promiscuamente férvidos odores,
MĂłrbidos, quentes, finos, penetrantes.Por entre o incenso, em lĂmpida cascata,
Dos siderais turĂbulos de prata,
Das sedas raras das mulheres nobres;Clara explosão fantástica de aurora,
Deslumbramentos, nos altares! — Fora,
Uma falange intérmina de pobres.
Musa Infeliz
Todo o cuidado nestas rimas ponho;
Musa, peço-te, pois, que me remetas
Versos que tenham rĂştilas facetas,
E não revelem trovador bisonho.Meia noite bateu. Sai risonho…
Brilhava – oh, musa, não me comprometas! –
O mais belo de todos os planetas
N’um céu que parecia um céu de sonho.O mais belo de todos os prazeres
Gozei, Ă doce luz dos olhos pretos
Da mais bela de todas as mulheres!Pobres quartetos! mĂseros tercetos!…
Musa, musa infeliz, dar-me nĂŁo queres.
O mais belo de todos os sonetos!…
Dionysio
Ungido para o fado e a nova festa
Meu carnaval profano já celebra
As quarentenas dĂvidas da carne
Na cela de costelas das mulheres.Como devasso réu, confesso fauno,
No vinho das delĂcias me declaro
Sem culpa e sem pecado original
Pois nessa pena sou igual a tantos.Já disse certa vez em cantoria:
De nada me arrependo e reconfirmo
Agora que o meu tempo é só de gozo.A vida que me dou não dá guarida
Nem guarda desalentos de tristeza
Somente na alegria Ă© que me morro.
Velho Tema III
Belas, airosas, pálidas, altivas,
Como tu mesma, outras mulheres vejo:
SĂŁo rainhas, e segue-as num cortejo
Extensa multidão de almas cativas.Tem a alvura do mármore; lascivas
Formas; os lábios feitos para o beijo;
E indiferente e desdenhoso as vejo
Belas, airosas, pálidas, altivas…Por quê? Porque lhes falta a todas elas,
Mesmo Ă s que sĂŁo mais puras e mais belas,
Um detalhe sutil, um quase nada:Falta-lhes a paixĂŁo que em mim te exalta,
E entre os encantos de que brilham, falta
O vago encanto da mulher armada.
XXXI
Longe de ti, se escuto, porventura,
Teu nome, que uma boca indiferente
Entre outros nomes de mulher murmura,
Sobe-me o pranto aos olhos, de repente…Tal aquele, que, mĂsero, a tortura
Sofre de amargo exĂlio, e tristemente
A linguagem natal, maviosa e pura,
Ouve falada por estranha gente…Porque teu nome é para mim o nome
De uma pátria distante e idolatrada,
Cuja saudade ardente me consome:E ouvi-lo Ă© ver a eterna primavera
E a eterna luz da terra abençoada,
Onde, entre flores, teu amor me espera.
Dona Flor
Ela Ă© tĂŁo meiga! Em seu olhar medroso
Vago como os crepĂşsculos do estio,
Treme a ternura, como sobre um rio
Treme a sombra de um bosque silencioso.Quando, nas alvoradas da alegria,
A sua boca Ăşmida floresce,
Naquele rosto angelical parece
Que Ă© primavera, e que amanhece o dia.Um rosto de anjo, lĂmpido, radiante…
Mas, ai! sob êsse angélico semblante
Mora e se esconde uma alma de mulherQue a rir-se esfolha os sonhos de que vivo
– Como atirando ao vento fugitivo
As folhas sem valor de um malmequer…
Lágrimas
Ela chorava muito e muito, aos cantos,
Frenética, com gestos desabridos;
Nos cabelos, em ânsias desprendidos
Brilhavam como pérolas os prantos.Ele, o amante, sereno como os santos,
Deitado no sofá, pés aquecidos,
Ao sentir-lhe os soluços consumidos,
Sorria-se cantando alegres cantos.E dizia-lhe entĂŁo, de olhos enxutos:
– “Tu pareces nascida da rajada,
“Tens despeitos raivosos, resolutos:“Chora, chora, mulher arrenegada;
“Lagrimeja por esses aquedutos…
-“Quero um banho tomar de água salgada.”
O Sono
É um braço magro de mulher, uns olhos espectrais
e brilhantes, uma cabeça de esfinge, uma lâmpada
que fumega. Talvez por os nĂŁo vermos, vejamos rios
que flamejam, jardins sepultos, um antepassadodesconhecido e cinzento que se derrama no quarto,
um portão esvoaçante, uma pequena fenda por onde
se vai até às nuvens nocturnas. Tudo o que
lá possa estar é tudo: a vassoura esquecida,o rosto primordial da mãe, uma torre de cadáveres
ou um modesto banco de madeira onde deixaram
um vaso verĂdico de gerânios. Talvez um deusvĂtreo, rĂştilo ou, pintada de azul, uma virgem ocre
no cume de colina grega. Uma estranha mĂşsica soa
nas paredes, antes do exĂlio para onde nos leva o sono.
XI
Todos esses louvores, bem o viste,
NĂŁo conseguiram demudar-me o aspecto:
SĂł me turbou esse louvor discreto
Que no volver dos olhos traduziste…Inda bem que entendeste o meu afeto
E, através destas rimas, pressentiste
Meu coração que palpitava, triste,
E o mal que havia dentro em mim secreto.Ai de mim, se de lágrimas inúteis
Estes versos banhasse, ambicionando
Das néscias turbas os aplausos fúteis!Dou-me por pago, se um olhar lhes deres:
Fi-los pensando em ti, fi-los pensando
Na mais pura de todas as mulheres.
ReminiscĂŞncia
Um dia a vi, nas lamas da miséria,
Como entre pântanos um branco lĂrio,
Velada a fronte em palidez funérea,
O frio vĂ©u das noivas do martĂrio!Pedia esmola — pequena e sĂ©ria —
Os seios, pastos de eternal delĂrio,
Cobertos eram de uma cor cinérea —
Seus olhos tinham o brilhar do cĂrio.Tempos depois n’um carro — audaz, brilhante,
Uma mulher eu vi — febril, galante…
Lancei-lhe o olhar e… maldição! tremi…Ria-se — cĂnica, servil… faceira?
O carro n’uma nuvem de poeira
Se arremessou… e eu nunca mais a vi!
Amiga
Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!Beija-me as mãos, Amor, devagarinho…
como se os dois nascĂŞssemos irmĂŁos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…Beija-mas bem!…Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mĂŁos,
Os beijos que sonhei prá minha boca!…
Como Te Amo
Como te amo? Não sei de quantos modos vários
Eu te adoro, mulher de olhos azuis e castos;
Amo-te com o fervor dos meus sentidos gastos;
Amo-te com o fervor dos meus preitos diários.É puro o meu amor, como os puros sacrários;
É nobre o meu amor, como os mais nobres fastos;
É grande como os mares altisonos e vastos;
É suave como o odor de lĂrios solitários.Amor que rompe enfim os laços crus do Ser;
Um tĂŁo singelo amor, que aumenta na ventura;
Um amor tão leal que aumenta no sofrer;Amor de tal feição que se na vida escura
É tão grande e nas mais vis ânsias do viver,
Muito maior será na paz da sepultura!
Tu e Eu DevĂamos Simplesmente Amar-nos
Amor, quantos caminhos para chegar a um beijo,
que solidão errante até chegar a ti!
Os comboios continuam vazios rolando com a chuva.
Em Taltal a primavera nĂŁo amanheceu ainda.Mas tu e eu, meu amor, estamos juntos,
juntos da roupa Ă s raĂzes,
juntos pelo outono, pela água, pelas ancas,
até sermos apenas tu e eu juntos.Pensar que custou tantas pedras que o rio arrasta,
a embocadura da água do Boroa,
pensar que separados por comboios e naçõestu e eu devĂamos simplesmente amar-nos,
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa os cravos.
O Que Se Escuta Numa Velha Caixa De MĂşsica
Nunca roubei um beijo. O beijo dá-se,
ou permuta-se, mas naturalmente.
Em seu sabor seria diferente
se, em vez de ser trocado, se furtasse.Todo beijo de amor, longo ou fugace,
deve ser u prazer que a ambos contente.
Quando, encantado, o coração consente,
beija-se a boca, nĂŁo se beija a face.NĂŁo toquemos na flor maravilhosa,
seja qual for a sedução do ensejo,
vendo-a ofertar-se, fácil e formosa.Como os árabes, loucos de desejo,
amemos a roseira, olhando a rosa,
roubemos a mulher e nĂŁo o beijo.
O Maior Bem
Este querer-te bem sem me quereres,
Este sofrer por ti constantemente,
Andar atrás de ti sem tu me veres
Faria piedade a toda a gente.Mesmo a beijar-me a tua boca mente…
Quantos sangrentos beijos de mulheres
Pousa na minha a tua boca ardente,
E quanto engano nos seus vãos dizeres!…Mas que me importa a mim que me não queiras,
Se esta pena, esta dor, estas canseiras,
Este mĂsero pungir, árduo e profundo,Do teu frio desamor, dos teus desdĂ©ns,
É, na vida, o mais alto dos meus bens?
É tudo quanto eu tenho neste mundo?
Esterilidade
Ao vĂŞ-la caminhar em trajos vaporosos,
Parece que desliza em voluptuosa dança,
Como aqueles répteis da Índia, majestosos,
Que um faquir faz mover em torno d’uma lança.Como um vasto areal, ou como um céu ardente,
Como as vagas do mar em seu fragor insano,
— Assim ela caminha, a passo, indiferente,
InsensĂvel Ă dor, ao sofrimento humano.Seus olhos tĂŞem a luz dos cristais rebrilhantes,
E o seu todo estranho onde, a par, se lobriga
O anjo inviolado e a muda esfinge antiga,Onde tudo Ă© fulgor, ouro, metais, diamantes
VĂŞ-se resplandecer a fria majestade
Da mulher infecunda — essa inutilidade!Tradução de Delfim Guimarães
Felina Mulher
Eu quisera depois das lutas acabadas,
na paz dos vegetais adormecer um dia
e nunca mais volver da santa letargia,
meu corpo dando pasto Ă s plantas delicadas.Seria belo ouvir nas moitas perfumadas,
enquanto a mesma seiva em mim também corria,
as sĂŁs vegetações, em Ăntima harmonia,
aos troncos enlaçando as lĂvidas ossadas!Ă“ beleza fatal que há tanto tempo gabo:
se eu volvesse depois feito em jasmins-do-cabo
– gentil metamorfose em que nesta hora penso –tu, felina mulher, com garras de veludo,
havias de trazer meu espĂrito, contudo,
envolto muita vez nas dobras do teu lenço!