Sonetos sobre MĂșsica

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Sonetos de mĂșsica escritos por poetas consagrados, filĂłsofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Soneto Do Corifeu

SĂŁo demais os perigos desta vida
Para quem tem paixĂŁo, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma mĂșsica qualquer
AĂ­ entĂŁo Ă© preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.

Deve andar perto uma mulher que Ă© feita
De mĂșsica, luar e sentimento
E que a vida nĂŁo quer, de tĂŁo perfeita.

Uma mulher que Ă© como a prĂłpria Lua:
TĂŁo linda que sĂł espalha sofrimento
TĂŁo cheia de pudor que vive nua.

V – A Vida E O Barco

Andar e mais andar Ă© a vida a bordo;
Mal estudo, e apenas eu vou lendo;
A noite com a mĂșsica entretendo;
Deito-me cedo, e mais cedo acordo.

SaudosĂ­ssimo a pĂĄtria eu recordo,
E, pra consolo versos lhe fazendo,
Desenho terras sĂł aquela vendo,
E para nĂŁo chorar os lĂĄbios mordo.

Enfim hĂĄ de chegar, eu bem o sei,
Que o Brasil eu reveja jubiloso;
E, se outrora eu servi-lo sĂł pensei,

Muito mais forte e muito mais zeloso,
Para ainda mais servi-lo, voltarei
TĂ© que nele encontre o Ășltimo repouso.

Passei Ontem A Noite Junto Dela.

Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisĂŁo se erguia
Apenas entre nĂłs – e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela…

Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! SĂł a via!
MĂșsica mais do cĂ©u, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando!
Nos lĂĄbios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!

Mas o que Ă© triste e dĂłi ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando…
Cheio de amores! E dormir solteiro!

Ninho Abandonado

À distinta família Simas, pela morte de seu chefe,
o Ilmo. Sr. JoĂŁo da Silva Simas.

O vosso lar harmĂŽnico e tranqĂŒilo
Era um ninho de luz e de esperanças
Que como abelhas iriadas, mansas,
Nos vossos coraçÔes tinham asilo.

Havia lå por dentro tanta crença
E tanto amor purĂ­ssimo, cantando,
Que parecia um largo sol faiscando
Por majestosa catedral imensa.

Agora o ninho estĂĄ desamparado!
Sumiu-se dele o pĂĄssaro adorado,
O mais ideal dos pĂĄssaros do ninho.

NĂŁo se ouve mais a mĂșsica sonora
Da sua voz — dentro do ninho, agora,
Paira a saudade como um bom carinho.

2A Sombra – BĂĄrbara

Erguendo o cĂĄlix que o Xerez perfuma.
Loura a trança alastrando-lhe os joelhos,
Dentes nĂ­veos em lĂĄbios tĂŁo vermelhos,
Como boiando em purpurina escuma;

Um dorso de ValquĂ­ria… alvo de bruma,
Pequenos pés sob infantis artelhos,
Olhos vivos, tĂŁo vivos, como espelhos,
Mas como eles também sem chama alguma;

Garganta de um palor alabastrino,
Que harmonias e mĂșsicas respira…
No lĂĄbio – um beijo… no beijar – um hino;

Harpa eĂłlia a esperar que o vento a fira,
– Um pedaço de mĂĄrmore divino…
– É o retrato de BĂĄrbara – a Hetaira.

Um Ser

Um ser na placidez da Luz habita,
Entre os mistérios inefåveis mora.
Sente florir nas lĂĄgrimas que chora
A alma serena, celestial, bendita.

Um ser pertence Ă  mĂșsica infinita
Das Esferas, pertence Ă  luz sonora
Das estrelas do Azul e hora por hora
Na Natureza virginal palpita.

Um ser desdenha das fatais poeiras,
Dos miseråveis ouropéis mundanos
E de todas as frĂ­volas cegueiras…

Ele passa, atravessa entre os humanos,
Como a vida das vidas forasteiras
Fecundada nos prĂłprios desenganos.

O cisne, quando sente ser chegada

O cisne, quando sente ser chegada
A hora que pÔe termo a sua vida,
MĂșsica com voz alta e mui subida
Levanta pela praia inabitada.

Deseja ter a vida prolongada
Chorando do viver a despedida;
Com grande saudade da partida,
Celebra o triste fim desta jornada.

Assim, Senhora minha, quando via
O triste fim que davam meus amores,
Estando posto jĂĄ no extremo fio,

Com mais suave canto e harmonia
Descantei pelos vossos desfavores
La vuestra falsa fé y el amor mio.

A Harpa

Prende, arrebata, enleva, atrai, consola
A harpa tangida por convulsos dedos,
Vivem nela mistérios e segredos,
É berceuse, Ă© balada, Ă© barcarola.

Harmonia nervosa que desola,
Vento noturno dentre os arvoredos
A erguer fantasmas e secretos medos,
Nas suas cordas um soluço rola…

Tu’alma Ă© como esta harpa peregrina
Que tem sabor de mĂșsica divina
E sĂł pelos eleitos Ă© tangida.

Harpa dos céus que pelos céus murmura
E que enche os cĂ©us da mĂșsica mais pura,
como de uma saudade indefinida.

CrĂ­tica da Poesia

Que a frenética poesia me perdoe
se a um baço rumor levanto o laço,
pois que verso nĂŁo hĂĄ onde nĂŁo soe
a mĂșsica discreta doutro espaço.

Horizonte do verso Ă© a dureza:
jĂĄ mansidĂŁo nĂŁo cabe neste olhar
que se pousa na faca sobre a mesa
e aprende nela o fio do seu cantar.

Mas se olhar nela pousa, como corta?
E se as palavras sabemos retomar,
quem nos devolve a chave dessa porta
onde a herança estå por encerrar?

TĂŁo longe estĂĄ de nĂłs a poesia
como nuvem nos rouba a luz do dia.

DelĂ­rio Do Som

O Boabdil mais doce que um carinho,
O teu piano ebĂșrneo soluçava,
E cada nota, amor, que ele vibrava,
Era-me n’alma um sol desfeito em vinho.

Me parecia a mĂșsica do arminho,
O perfume do lĂ­rio que cantava,
A estrela-d’alva que nos cĂ©us entoava
Uma canção dulcíssima baixinho.

IncomparĂĄvel, teu piano — e eu cria
Ver-te no espaço, em fluidos de harmonia,
Bela, serena, vaporosa e nua;

Como as visÔes olímpicas do Reno,
Cantando ao ar um delicioso treno
Vago e dolente, com uns tons de lua.

Noite Cruel

A meu irmĂŁo Henrique

Morrer… morrer… morrer… Fechar na terra os olhos
A tudo o que se ama, a tudo o que se adora;
E nunca mais ouvir a mĂșsica sonora
Da ilusĂŁo a cantar da vida nos refolhos…

Sentir o coração ferir-se nos escolhos
De tormentoso mar, – pobre vaga que chora! –
E no arranco final da derradeira hora,
Soluçando morrer num oceano de abrolhos.

Nem ao menos beijar – Ăł supremo desgosto! –
A mĂŁo doce e fiel que nos enxuga o rosto
Mostrando-nos o CĂ©u suspenso de uma Cruz…

E perguntar a Deus na agonia e nas trevas:
Onde fica, Senhor, a terra a que nos levas,
Com as mĂŁos postas no seio e os dois olhos sem luz?!

IrradiaçÔes

Às crianças

Qual da amplidĂŁo fantĂĄstica e serena
À luz vermelha e rĂștila da aurora
Cai, gota a gota, o orvalho que avigora
A imaculada e cùndida açucena.

Como na cruz, da triste Madalena
Aos pés de Cristo, a lågrima sonora
Caia, rolou, qual bĂĄlsamo que irrora
A negra mĂĄgoa, a indefinida pena…

Caia por vĂłs, esplĂȘndidas crianças
Bando feliz de castas esperanças,
Sonhos da estrela no infinito imersas;

Caia por vĂłs, as mĂșsicas formosas,
Como um dilĂșvio matinal de rosas,
Todo o luar benéfico dos versos!

Como uma Voz de Fonte que Cessasse

Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vĂŁos olhares
Se admiraram), p’ra alĂ©m dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tédio nasce

Parou… Apareceu jĂĄ sem disfarce
De mĂșsica longĂ­nqua, asas nos ares,
O mistério silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce…

A paisagem longĂ­nqua sĂł existe
Para haver nela um silĂȘncio em descida
P’ra o mistĂ©rio, silĂȘncio a que a hora assiste…

E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde hĂĄ a vida…
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo…

A MĂșsica

A mĂșsica p’ra mim tem seduçÔes de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pĂĄlida estrela a demandar!

O peito saliente, os pulmÔes distendidos
Como o rijo velame d’um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;

Sinto vibrar em mim todas as comoçÔes
D’um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convulsÔes

Conseguem a minh’alma acalentar.
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrĂ­vel me exaspera!

Tradução de Delfim Guimarães

MĂșsica Da Hora

Habito a pausa no hĂĄbito da pauta
mĂșsica de silĂȘncios e soluços
a refrear desmandos dos impulsos
que se querem agudos sons de flauta.

A vida Ă© toda mĂșsica em seu curso
do grito original em rima incauta
ao sussurro que se ouve em cama infausta
nesse fim dissonante do percurso.

O tempo se encarrega do metrĂŽnomo
unido a dois ponteiros de um cronĂŽmetro
em que o delgado veste-se de momo

para alegrar as horas do pequeno
que dança a marcha gris em chão sereno
fugindo ao dois por quatro do abandono.

Nos Teus Gestos

Nos teus gestos hĂĄ animais em liberdade
e o brilho doce que sĂł tĂȘm as cerejas.
É neles que adormeço, e dos teus dedos
retiro a luz azul dos arquipélagos.

Os teus gestos sĂŁo letras, sĂ­labas, poemas.
Os teus gestos sĂŁo pĂĄginas inteiras. SĂŁo
a tua boca a namorar na minha boca,
o cio dos séculos a saudar o tempo.

SĂŁo os teus gestos que me acordam. Gestos
que vestem o silĂȘncio fundo das ravinas
e assinalam a ĂĄgua dos desertos.

Os teus gestos sĂŁo mĂșsica. SĂŁo lume.
São a respiração do teu olhar. A seara
de espigas que ondula no meu corpo.