Soneto III
Rosto que a branca rosa tem vencida,
E ante quem a vermelha Ă© descorada,
Olhos, claras estrelas, que espantada
TĂȘm a alma, aceso o peito, presa a vida;Cabelos, puros raios, que abatida
Deixam da manhĂŁ clara a luz dourada,
Divina fermosura, acompanhada
De ĂŒa virtude a poucas concedida;Palavras cheias de alto entendimento
Raro riso, alto assento, casto peito,
Santos costumes, vivo e grave esprito;Divino e repousado movimento,
E muito mais, que estĂĄ em minha alma escrito,
Me tem num puro amor todo desfeito.
Sonetos sobre Olhos de Pero de Andrade Caminha
5 resultadosSoneto VI
Ora alegre, ora triste, ou rindo, ou grave,
Ou queda, ou dando passos concertados
Ou tomeis com silĂȘncio altos cuidados,
Ora ouça vossa voz branda e suave;Ora abertos os olhos (onde a chave
Tem amor do que pode) ora cerrados,
Ou estĂȘm de asperezas descuidados,
Ora sua aspereza tudo agrave;Ou do crespo ouro que toda alma prende
Vossa cabeça rodeada seja,
Ou dele solto a luz estĂȘ invejosa:Agora assi, agora assi vos veja,
Igualmente a meus olhos sois fermosa,
Igualmente em meu peito o amor se acende!
Soneto V
Eu cantarei de amor tĂŁo novamente,
Se me ouve aquela de quem sempre canto,
Que de mim dor e magoa, e dela espanto
TerĂĄ a mais fera, inculta e dura gente.E ela que assi tĂŁo crua e indinamente
Dura aos meus choros Ă©, surda ao meu canto,
AlgĂŒa parte crerĂĄ (se nĂŁo for tanto
Como eu desejo) do que esta alma sente.Mas como esperarei achar piedade
De mim nem em mim mesmo, se ela nega
(Não peço brandos jå) duros ouvidos?Se nega um volver de olhos com que cega
A luz e dĂĄ sĂł escuro claridade,
Como serĂŁo meus danos nunca cridos?
Soneto II
Quanto cuido, senhora, quanto escrevo,
Tudo em vossos fermosos olhos leio,
Neles, ante quem tudo Ă© escuro e feio,
Aprendo e vejo como amar-vos devo.Vejo que ao vosso amor todo me devo,
Mas nĂŁo vos sei amar, e assi me enleio
Que nĂŁo sei se vos amo ou se o receio,
E a julgar em mim isto nĂŁo me atrevo.Em vĂłs cuido, em vĂłs falo o dia e ora,
Mouro por ver-vos, ir-vos ver nĂŁo ouso,
Por nĂŁo ver quanto mais devo do que amo;Ă sol e Ăł. sombra o vosso nome chamo,
Fora destes cuidados nĂŁo repouso;
Se isto Ă© amor, vĂłs o julgai, senhora!
Soneto I
De Amor escrevo, de Amor falo e canto;
E se minha voz fosse igual ao que amo,
Esperara eu sentir na que em vĂŁo chamo
Piedade, e na gente dor e espanto.Mas nĂŁo hĂĄ pena, ou lĂngua, ou voz, ou canto
Que mostre o amor por que eu tudo desamo,
Nem o vivo fogo em que me sempre inflamo,
Nem de meus olhos o contino pranto.Assi me vou morrendo, sem ser crida
A causa por que em vĂŁo mouro contente,
Nem sei se isto que passo Ă© vida ou morte.Mas inda da que eu amo fosse ouvida
E crida minha voz, e da vĂŁ gente
Nunca entendida fosse minha sorte!