Sonetos sobre Outono de Florbela Espanca

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Sonetos de outono de Florbela Espanca. Leia este e outros sonetos de Florbela Espanca em Poetris.

Soror Saudade

A Américo Durão

IrmĂŁ, Soror Saudade, me chamaste…
E na minh’alma o nome iluminou-se
Como um vitral ao sol, como se fosse
A luz do prĂłprio sonho que sonhaste.

Numa tarde de Outono o murmuraste;
Toda a mĂĄgoa do Outono ele me trouxe;
Jamais me hĂŁo-de chamar outro mais doce;
Com ele bem mais triste me tornaste…

E baixinho, na alma de minh’alma,
Como bĂȘnção de sol que afaga e acalma,
Nas horas mĂĄs de febre e de ansiedade,

Como se fossem pétalas caindo,
Digo as palavras desse nome lindo
Que tu me deste: “IrmĂŁ, Soror Saudade”…

RuĂ­nas

Se Ă© sempre Outono o rir das Primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair…
Que a vida Ă© um constante derruir
De palĂĄcios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruĂ­nas crescer heras,
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida Ă© um contĂ­nuo destruir
De palĂĄcios do Reino das Quimeras!

Deixa tombar meus rĂștilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguĂȘ-los
Mais alto do que as ĂĄguias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
SĂŁo como os beijos duma linda boca!
Sonhos!… Deixa-os tombar… Deixa-os tombar.

A Um Moribundo

NĂŁo tenhas medo, nĂŁo! Tranquilamente,
Como adormece a noite pelo Outono,
Fecha os teus olhos, simples, docemente,
Como, Ă  tarde, uma pomba que tem sono…

A cabeça reclina levemente
E os braços deixa-os ir ao abandono,
Como tombam, arfando, ao sol poente,
As asas de uma pomba que tem sono…

O que hĂĄ depois? Depois?… O azul dos cĂ©us?
Um outro mundo? O eterno nada? Deus?
Um abismo? Um castigo? Uma guarida?

Que importa? Que te importa, Ăł moribundo?
– Seja o que for, serĂĄ melhor que o mundo!
Tudo serĂĄ melhor do que esta vida!…

Fumo

Longe de ti sĂŁo ermos os caminhos,
Longe de ti nĂŁo hĂĄ luar nem rosas,
Longe de ti hĂĄ noites silenciosas,
HĂĄ dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos sĂŁo dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas…
Abertos, sonham mĂŁos cariciosas,
Tuas mĂŁos doces, plenas de carinhos!

Os dias sĂŁo Outonos: choram… choram…
HĂĄ crisĂąntemos roxos que descoram…
HĂĄ murmĂșrios dolentes de segredos…

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!…

As Minhas IlusÔes

Hora sagrada dum entardecer
De Outono, Ă  beira-mar, cor de safira,
Soa no ar uma invisĂ­vel lira …
O sol Ă© um doente a enlanguescer …

A vaga estende os braços a suster,
Numa dor de revolta cheia de ira,
A doirada cabeça que delira
Num Ășltimo suspiro, a estremecer!

O sol morreu … e veste luto o mar …
E eu vejo a urna de oiro, a balouçar,
À flor das ondas, num lençol de espuma.

As minhas IlusÔes, doce tesoiro,
Também as vi levar em urna de oiro,
No mar da Vida, assim … uma por uma …

Sobre A Neve

Sobre mim, teu desdém pesado jaz
Como um manto de neve…Quem dissera
Porque tombou em plena Primavera
Toda essa neve que o Inverno traz!

Coroavas-me inda pouco de lilĂĄs
E de rosas silvestres…quando eu era
Aquela que o destino prometera
Aos teus rĂștilos sonhos de rapaz!

Dos beijos que me deste nĂŁo te importas,
Asas paradas de andorinhas mortas…
Folhas de Outono e correria louca…

Mas inda um dia, em mim, Ă©brio de cor,
HĂĄ-de nascer um roseiral em flor
Ao sol de Primavera doutra boca!

Outonal

Caem as folhas mortas sobre o lago!
Na penumbra outonal, nĂŁo sei quem tece
As rendas do silĂȘncio…Olha, anoitece!
— Brumas longĂ­nquas do PaĂ­s Vago…

Veludos a ondear…MistĂ©rio mago…
Encantamento…A hora que nĂŁo esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bĂȘnção dum afago…

Outono dos crepĂșsculos doirados,
De pĂșrpuras, damascos e brocados!
— Vestes a Terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas,
Das magnĂ­ficas noites voluptuosas
Em que soluço a delirar de amor…