IV
Como a floresta secular, sombria,
Virgem do passo humano e do machado,
Onde apenas, horrendo, ecoa o brado
Do tigre, e cuja agreste ramariaNĂŁo atravessa nunca a luz do dia,
Assim também, da luz do amor privado,
Tinhas o coração ermo e fechado,
Como a floresta secular, sombria…Hoje, entre os ramos, a canção sonora
Soltam festivamente os passarinhos.
Tinge o cimo das árvores a aurora…Palpitam flores, estremecem ninhos, . .
E o sol do amor, que nĂŁo entrava outrora,
Entra dourando a areia dos caminhos.
Sonetos sobre Passos de Olavo Bilac
4 resultadosXXXIII
Quando adivinha que vou vĂŞ-Ia, e Ă escada
Ouve-me a voz e o meu andar conhece,
Fica pálida, assusta-se, estremece,
E não sei por que foge envergonhada.Volta depois. À porta, alvoroçada,
Sorrindo, em fogo as faces, aparece:
E talvez entendendo a muda prece
De meus olhos, adianta-se apressada.Corre, delira, multiplica os passos;
E o chĂŁo, sob os seus passos murmurando,
Segue-a de um hino, de um rumor de festaE ah! que desejo de a tomar nos braços,
O movimento rápido sustando
Das duas asas que a paixĂŁo lhe empresta.
XII
Sonhei que me esperavas. E, sonhando,
SaĂ, ansioso por te ver: corria…
E tudo, ao ver-me tĂŁo depressa andando,
Soube logo o lugar para onde eu ia.E tudo me falou, tudo! Escutando
Meus passos, através da ramaria,
Dos despertados pássaros o bando:
“Vai mais depressa! ParabĂ©ns!” dizia.Disse o luar: “Espera! que eu te sigo:
Quero tambĂ©m beijar as faces dela!”
E disse o aroma: “Vai, que eu vou contigo!”E cheguei. E, ao chegar, disse uma estrela:
“Como Ă©s feliz! como Ă©s feliz, amigo,
Que de tĂŁo perto vais ouvi-la e vĂŞ-la!”
A Ronda Noturna
Noite cerrada, tormentosa, escura,
Lá fora. Dormem em trevas o convento.
Queda imoto o arvoredo. NĂŁo fulgura
Uma estrela no torvo firmamento.Dentro é tudo mudez. Flébil murmura,
De espaço a espaço, entanto, a voz do vento:
E há um rasgar de sudários pela altura,
Passo de espectros pelo pavimento…Mas, de sĂşbito, os gonzos das pesadas
Portas rangem… Ecoa surdamente
Leve rumor de vozes abafadas.E, ao clarão de uma lâmpada tremente,
Do claustro sob as tácitas arcadas
Passa a ronda noturna, lentamente…