Sonetos sobre Poder de Florbela Espanca

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Sonetos de poder de Florbela Espanca. Leia este e outros sonetos de Florbela Espanca em Poetris.

A Um Livro

No silĂȘncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mĂĄgoas que me deste.

Estranho livro que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o, e folheio, assim, toda a minh’alma!
O livro que me deste Ă© meu, e salma
As oraçÔes que choro e rio e canto!…

Poeta igual a mim, ai quem me dera
Dizer o que tu dizes!… Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto!…

NĂŁo Ser

Quem me dera voltar Ă  inocĂȘncia
Das coisas brutas, sĂŁs, inanimadas,
Despir o vĂŁo orgulho, a incoerĂȘncia:
– Mantos rotos de estĂĄtuas mutiladas!

Ah! arrancar Ă s carnes laceradas
Seu mĂ­sero segredo de consciĂȘncia!
Ah! poder ser apenas florescĂȘncia
De astros em puras noites deslumbradas!

Ser nostĂĄlgico choupo ao entardecer,
De ramos graves, plĂĄcidos, absortos
Na mĂĄgica tarefa de viver!

Ser haste, seiva, ramaria inquieta,
Erguer ao sol o coração dos mortos
Na urna de oiro duma flor aberta!…