Elogio da Desconhecida
Ela. Seus braços vencidos,
Naus em procura do mar,
Caminhos brancos, compridos,
Que conduzem ao luar.Se ao meu pescoço os enrola
Eu julgo, com alegria,
Que trago ao pescoço o dia
Como se fosse uma gola.O Luar, lĂąmpada acesa
Pra alumiar Ă princesa
Que em meus olhos causa alarde.E o dia, longe, esquecido,
à um lençol estendido
Numa janela da Tarde.
Sonetos sobre Princesas
12 resultadosVersos de Orgulho
O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém!Porque o meu Reino fica para Além!
Porque trago no olhar os vastos céus,
E os oiros e os clarÔes são todos meus!
Porque Eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!O mundo! O que é o mundo, ó meu amor?!
O jardim dos meus versos todo em flor,
A seara dos teus beijos, pĂŁo bendito,Meus ĂȘxtases, meus sonhos, meus cansaços…
São os teus braços dentro dos meus braços:
Via LĂĄctea fechando o Infinito!…
O Que Tu Ăs…
Ăs Aquela que tudo te entristece
Irrita e amargura, tudo humilha;
Aquela a quem a MĂĄgoa chamou filha;
A que aos homens e a Deus nada merece.Aquela que o sol claro entenebrece
A que nem sabe a estrada que ora trilha,
Que nem um lindo amor de maravilha
Sequer deslumbra, e ilumina e aquece!Mar-Morto sem marés nem ondas largas,
A rastejar no chĂŁo como as mendigas,
Todo feito de lĂĄgrimas amargas!Ăs ano que nĂŁo teve Primavera…
Ah! NĂŁo seres como as outras raparigas
Ă Princesa Encantada da Quimera!…
Conto de Fadas
Eu trago-te nas mĂŁos o esquecimento
Das horas mĂĄs que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha prĂłpria dor.Os meus gestos sĂŁo ondas de Sorrento…
Trago no nome as letras de uma flor…
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento…Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepĂșsculos da tarde,
O sol que Ă© d’oiro, a onda que palpita.Dou-te comigo o mundo que Deus fez!
– Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A Princesa do conto: âEra uma vez…â
Ela no meu Olhar
Os meus olhos sĂŁo Ăndias de segredos.
Ă Portugal seu Corpo esguio e brando.
E as cinco quinas, seus compridos dedos
Em suas mĂŁos, bandeiras tremulando.Seus gestos lembram lanças. E ela passa…
Seu perfil de princesa faz lembrar
Batalhas que travaram ao luar,
Epopeia-marfim da minha Raça.O seu olhar é tão doente e triste
Que me parece bem que nĂŁo existe
Maior mistĂ©rio do que o de prendĂȘ-lo.Nos meus sentidos vive o seu sentir
E, às vezes, quando chora, pÔe-se a ouvir
Seu coração, velhinho do Restelo.
O que Ă© Viver?
Viver Ă© sĂł sentir como a Morte caminha
E como a Vida a quer e como a vida a chama…
Viver, minha princesa pobrezinha,
Ă esta morte triste de quem amaâŠViver Ă© ter ainda uma quimera erguida
Ou um sonho febril a soluçar de rastos;
Ă beijar toda a dor humana, toda a Vida,
Como eu beijo a chorar os teus cabelos castos…Viver Ă© esperar a Morte docemente,
Beijando a luz, beijando os cardos, e beijando
AlguĂ©m, corpo ou fantasma, que nos venha amandoâŠĂ sentir a nossa alma presa tristemente
Ao mistério da Vida que nos leva
Perdidos pelo sol, perdidos pela treva…
As Tuas MĂŁos Terminam Em Segredo
As tuas mĂŁos terminam em segredo.
Os teus olhos sĂŁo negros e macios
Cristo na cruz os teus seios (?) esguios
E o teu perfil princesas no degredo…Entre buxos e ao pĂ© de bancos frios
Nas entrevistas alamedas, quedo
O vendo pÔe o seu arrastado medo
Saudoso o longes velas de navios.Mas quando o mar subir na praia e for
Arrasar os castelos que na areia
As crianças deixaram, meu amor,SerĂĄ o haver cais num mar distante…
Pobre do rei pai das princesas feias
No seu castelo Ă rosa do Levante !
A Minha Estrela
A meu irmĂŁo AprĂgio A.
E eu disse – Vai-te, estrela do Passado!
Esconde-te no Azul da Imensidade,
LĂĄ onde nunca chegue esta saudade,
– A sombra deste afeto estiolado.Disse, e a estrela foi p’ra o CĂ©u subindo,
Minh’alma que de longe a acompanhava,
Viu o adeus que do CĂ©u ela enviava,
E quando ela no Azul foi-se sumindoSurgia a Aurora – a mĂĄgica princesa!
E eu vi o Sol do CĂ©u iluminando
A Catedral da Grande Natureza.Mas a noute chegou, triste, com ela
Negras sombras também foram chegando,
E nunca mais eu vi a minha estrela!
Princesa Desalento
Minh’alma Ă© a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
Ă revoltada, trĂĄgica, sombria,
Como galopes infernais de vento!Ă frĂĄgil como o sonho dum momento,
Soturna como preces de agonia,
Vive do riso duma boca fria!
Minh’alma Ă© a Princesa Desalento…Altas horas da noite ela vagueia…
E ao luar suavĂssimo, que anseia,
PĂ”e-se a falar de tanta coisa morta!O luar ouve a minh’alma, ajoelhado,
E vai traçar, fantåstico e gelado,
A sombra duma cruz Ă tua porta…
Falo de Ti Ă s Pedras das Estradas
Falo de ti Ă s pedras das estradas,
E ao sol que e louro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de princesas e de fadas;Falo Ă s gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidĂŁo das noites consteladas;Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitĂłria,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fĂșlgidos da glĂłria,
São astros que me tombam do regaço!
RĂșstica
Ser a moça mais linda do povoado.
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A bĂȘnção do Senhor em cada filho.Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho…
– Com o luar matar a sede ao gado,
Dar Ă s pombas o sol num grĂŁo de milho…Ser pura como a ĂĄgua da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer Ă “terra da verdade”…Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!
Dou por elas meu trono de Princesa,
E todos os meus Reinos de Ansiedade.
Teoria do Amor
Amor Ă© mais do que dizer.
Por amor no teu corpo fui além
e vi florir a rosa em todo o ser
fui anjo e bicho e todos e ninguém.Como Bernard de Ventadour amei
uma princesa ausente em Tripoli
amada minha onde fui escravo e rei
e vi que o longe estava todo em ti.Beatriz e Laura e todas e sĂł tu
rainha e puta no teu corpo nu
o mar de ItĂĄlia a LĂbia o belvedere.E quanto mais te perco mais te encontro
morrendo e renascendo e sempre pronto
para em ti me encontrar e me perder.