A Aeronave
Cindindo a vastidĂŁo do Azul profundo,
Sulcando o espaço, devassando a terra,
A aeronave que um mistério encerra
Vai pelo espaço acompanhando o mundo.E na esteira sem fim da azúlea esfera
Ei-la embalada n’amplidĂŁo dos ares,
Fitando o abismo sepulcral dos mares,
Vencendo o azul que ante si s’erguera.Voa, se eleva em busca do infinito,
É como um despertar de estranho mito,
Auroreando a humana consciĂŞncia.Cheia da luz do cintilar de um astro,
Deixa ver na fulgĂŞncia do seu rastro
A trajetĂłria augusta da CiĂŞncia.
Sonetos sobre Profundos
94 resultadosPara QuĂŞ?
Ao velho amigo JoĂŁo
Para quĂŞ ser o musgo do rochedo
Ou urze atormentada da montanha?
Se a arranca a ansiedade e o medo
E este enleio e esta angústia estranhaE todo este feitiço e este enredo
Do nosso prĂłprio peito? E Ă© tamanha
E tĂŁo profunda a gente que o segredo
Da vida como um grande mar nos banha?Pra que ser asa quando a gente voa,
De que serve ser cântico se entoa
Toda a canção de amor do Universo?Para quê ser altura e ansiedade,
Se se pode gritar uma Verdade
Ao mundo vĂŁo nas sĂlabas dum verso?
Soneto
A Moreira de Vasconcelos
Na luta dos impossĂveis,
do espirito e da matéria,
tu és a águia sidérea
dos pensamentos terrĂveis!
(Do Autor)É um pensar flamejador, dardânico
Uma explosão de rápidas idéias,
Que como um mar de estranhas odisséias
Saem-lhe do crânio escultural, titânico!…Parece haver um cataclismo enorme
Lá dentro, em ânsia, a rebentar, fremente!…
Parece haver a convulsĂŁo potente,
Dos rubros astros num fragor disforme!…HĂŁo de ruir na transfusĂŁo dos mundos
Os monumentos colossais profundos,
As cousas vãs da brasileira história!Mas o seu vulto, sobre a luz alçado,
Oh! há de erguer-se de arrebĂłis c’roado,
Como Atalaia nos umbrais da glĂłria!!…
VisĂŁo
Noiva de Satanás, Arte maldita,
Mago Fruto letal e proibido,
Sonâmbula do Além, do Indefinido
Das profundas paixões, Dor infinita.Astro sombrio, luz amarga e aflita,
Das Ilusões tantálico gemido,
Virgem da Noite, do luar dorido,
Com toda a tua Dor oh! sĂŞ bendita!Seja bendito esse clarĂŁo eterno
De sol, de sangue, de veneno e inferno,
De guerra e amor e ocasos de saudade…Sejam benditas, imortalizadas
As almas castamente amortalhadas
Na tua estranha e branca Majestade!
Cavador Do Infinito
Com a lâmpada do Sonho desce aflito
E sobe aos mundos mais imponderáveis,
Vai abafando as queixas implacáveis,
Da alma o profundo e soluçado grito.Ânsias, Desejos, tudo a fogo, escrito
Sente, em redor, nos astros inefáveis.
Cava nas fundas eras insondáveis
O cavador do trágico Infinito.E quanto mais pelo Infinito cava
mais o Infinito se transforma em lava
E o cavador se perde nas distâncias…Alto levanta a lâmpada do Sonho.
E como seu vulto pálido e tristonho
Cava os abismos das eternas ânsias!
Fruto Envelhecido
Do coração no envelhecido fruto
É só desolação e é só tortura.
O frio soluçante da amargura
Envolve o coração num fundo luto.O fantasma da Dor pérfido e astuto
Caminha junto a toda a criatura.
A alma por mais feliz e por mais pura
Tem de sofrer o esmagamento bruto.É preciso humildade, é necessário
Fazer do coração branco sacrário
E a hĂłstia elevar do Sentimento eterno.Em tudo derramar o amor profundo,
Derramar o perdĂŁo no caos do mundo,
Sorrir ao céu e bendizer o Inferno!
O Lamento Das Coisas
Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos,
O choro da Energia abandonada!É a dor da Força desaproveitada
– O cantochĂŁo dos dĂnamos profundos,
Que, podendo mover milhões de mundos,
jazem ainda na estática do Nada!É o soluço da forma ainda imprecisa…
Da transcendĂŞncia que se nĂŁo realiza…
Da luz que nĂŁo chegou a ser lampejo…E Ă© em suma, o subconsciente ai formidando
Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!
Spleen De Deuses
Oh! Dá-me o teu sinistro Inferno
Dos desesperos tétricos, violentos,
Onde rugem e bramem como os ventos
Anátemas da Dor, no fogo eterno…Dá-me o teu fascinante, o teu falerno
Dos falernos das lágrimas sangrentos
Vinhos profundos, venenosos, lentos
Matando o gozo nesse horror do Averno.Assim o Deus dos Páramos clamava
Ao DemĂ´nio soturno, e o rebelado,
Capricórnio Satã, ao Deus bradava.Se és Deus-e já de mim tens triunfado,
Para lavar o Mal do Inferno e a bava
Dá-me o tĂ©dio senil do cĂ©u fechado…
DantĂŁo
Parece-me que o vejo iluminado.
Erguendo delirante a grande fronte
– De um povo inteiro o fĂşlgido horizonte
Cheio de luz, de idĂ©ias constelado!De seu crânio vulcĂŁo – a rubra lava
Foi que gerou essa sublime aurora
– Noventa e trĂŞs – e a levantou sonora
Na fronte audaz da populaça brava!Olhando para a histĂłria – um sĂ©culo e a lente
Que mostra-me o seu crânio resplandente
Do passado atravĂ©s o vĂ©u profundo…Há muito que tombou, mas inquebrável
De sua voz o eco formidável
Estruge ainda na razĂŁo do mundo!
A Vida
“A Vida”
IV
“…A vida Ă© assim, uma ânsia… feito a vaga
que se ergue e rola a espumejar na areia,
– apor esse bem que a tua mĂŁo semeia
espera o mal que ainda terás por paga!A essa hora boa que te agrada e enleia
sucede uma outra torturante e aziaga,
– a vida Ă© assim… um canto de sereia
que Ă morte nos convida, e nos afaga…O teu sonho melhor bem pouco dura,
e há sempre”um amanhĂŁ”cheio de dor
para”um hoje”nem sempre de ventura…Toma entre as mĂŁos o bĂşzio da alegria
e surpreso verás que no interior
canta profunda e imensa nostalgia!…”
Flores Da Lua
Brancuras imortais da Lua Nova
Frios de nostalgia e sonolĂŞncia…
Sonhos brancos da Lua e viva essĂŞncia
Dos fantasmas noctĂvagos da Cova.Da noite a tarda e taciturna trova
Soluça, numa tremula dormĂŞncia…
Na mais branda, mais leve florescĂŞncia
Tudo em Visões e Imagens se renova.Mistérios virginais dormem no Espaço,
Dormem o sono das profundas seivas,
MonĂłtono, infinito, estranho e lasso…E das Origens na luxĂşria forte
Abrem nos astros, nas sidéreas leivas
Flores amargas do palor da Morte.
Já Sobre o Coche de Ébano Estrelado
Já sobre o coche de ébano estrelado,
Deu meio giro a Noite escura e feia,
Que profundo silĂŞncio me rodeia
Neste deserto bosque, Ă luz vedado!Jaz entre as folhas ZĂ©firo abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, Ă s trevas acostumado.SĂł eu velo, sĂł eu, pedindo Ă Sorte
Que o fio com que está mih’alma presa
À vil matéria lânguida, me corte.Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silĂŞncio total da Natureza.
Clamando
Bárbaros vĂŁos, dementes e terrĂveis
Bonzos tremendos de ferrenho aspeto,
Ah! deste ser todo o clarĂŁo secreto
Jamais pĂ´de inflamar-vos, ImpassĂveis!Tantas guerras bizarras e incoercĂveis
No tempo e tanto, tanto imenso afeto,
SĂŁo para vĂłs menos que um verme e inseto
Na corrente vital pouco sensĂveis.No entanto nessas guerras mais bizarras
De sol, clarins e rĂştilas fanfarras,
Nessas radiantes e profundas guerras…As minhas carnes se dilaceraram
E vão, das Ilusões que flamejaram,
Com o prĂłprio sangue fecundando as terras…
Elogio da Morte
I
Altas horas da noite, o Inconsciente
Sacode-me com força, e acordo em susto.
Como se o esmagassem de repente,
Assim me pára o coração robusto.Não que de larvas me povôe a mente
Esse vácuo nocturno, mudo e augusto,
Ou forceje a razĂŁo por que afugente
Algum remorso, com que encara a custo…Nem fantasmas nocturnos visionários,
Nem desfilar de espectros mortuários,
Nem dentro de mim terror de Deus ou Sorte…Nada! o fundo dum poço, hĂşmido e morno,
Um muro de silĂŞncio e treva em torno,
E ao longe os passos sepulcrais da Morte.II
Na floresta dos sonhos, dia a dia,
Se interna meu dorido pensamento.
Nas regiões do vago esquecimento
Me conduz, passo a passo, a fantasia.Atravesso, no escuro, a névoa fria
D’um mundo estranho, que povĂ´a o vento,
E meu queixoso e incerto sentimento
SĂł das visões da noite se confia.Que mĂsticos desejos me enlouquecem?
Do Nirvana os abismos aparecem,
A meus olhos, na muda imensidade!N’esta viagem pelo ermo espaço,
Vaidade
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reĂşne num verso a imensidade!Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!Sonho que sou AlguĂ©m cá neste mundo …
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho … E nĂŁo sou nada! …
Revelação
I
Escafandrista de insondado oceano
Sou eu que, aliando Buda ao sibarita,
Penetro a essência plásmica infinita,
-MĂŁe promĂscua do amor e do Ăłdio insano!Sou eu que, hirto, auscultando o absconso arcano,
Por um poder de acĂşstica esquisita,
Ouço o universo ansioso que se agita
Dentro de cada pensamento humano!No abstrato abismo equĂłreo, em que me Inundo,
Sou eu que, revolvendo o ego profundo
E a ódio dos cérebros medonhos,Restituo triunfalmente à esfera calma
Todos os cosmos que circulam na alma
Sob a forma embriolĂłgica de sonhos!
ĂŠxtase BĂşdico
Abre-me os braços, Solidão profunda,
Reverência do céu, solenidade
Dos astros, tenebrosa majestade,
Ó planetária comunhão fecunda!Óleo da noite, sacrossanto, inunda
Todo o meu ser, dá-me essa castidade,
As azuis florescĂŞncias da saudade,
Graça das graças imortais oriunda!As estrelas cativas no teu seio
DĂŁo-me um tocante e fugitivo enleio,
Embalam-me na luz consoladora!Abre-me os braços, Solidão radiante,
Funda, fenomenal e soluçante,
Larga e bĂşdica Noite Redentora!
Enlevo
Porque esse olhar de sombra de temor
Se perde em mim, Ă s horas do sol posto,
Quando é de âmbar translúcido o teu rosto,
E a tua alma desmaia como flor;Porque essas mĂŁos, ardidas de fervor,
Ampararam minha vida de desgosto,
Pobre que sou, Mulher, eu hei composto
Harmonias de prece em teu louvor!Dei-te a minha alma para ti nascida,
Meus versos que sĂŁo mais que a minha vida;
Por Deus, perdoa ao mĂsero mendigo!Perdoa a quem, ansioso de outro mundo,
Implora Ă Morte o sono mais profundo,
Só pela graça de sonhar contigo!
Alma Mater
Alma da Dor, do Amor e da Bondade,
Alma purificada no Infinito,
PerdĂŁo santo de tudo o que Ă© maldito,
Harpa consoladora da Saudade!Das estrelas serena virgindade,
Alma sem um soluço e sem um grito,
Da alta Resignação, da alta Piedade!
Tu, que as profundas lágrimas estancasE sabes levantar Imagens brancas
No silencio e na sombra mais velada…Derrama os lĂrios, os teus lĂrios castos,
Em Jordões imortais, vastos e vastos,
No fundo da minh’alma lacerada!
O SarcĂłfago
Senhor da alta hermenĂŞutica do Fado
Perlustro o atrium da Morte… É frio o ambiente
E a chuva corta inexoravelmente
O dorso de um sarcófago molhado!Ah! Ninguém ouve o soluçante brado
De dor profunda, acérrima e latente.
Que o sarcĂłfago, ereto e imĂłvel sente
Em sua prĂłpria sombra sepultado!DĂłi-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrĂvel
Que em toda a sua máscara se expande,
Ă€ humana comoção impondo-a, inteira…DĂłi-lhe, em suma, perante o IncognoscĂvel
Essa fatalidade de ser grande
Para guardar unicamente poeira!