Soneto XXXVIII
Ao Reitor António de Mendonça.
Seguro estado da cidade e gente,
Quando aos que nele tem governo e mando,
Lho vai de tempo a tempo variando
E durar-lhe co’ a vida não consente.Seguro, que se dana este presente
Melhor ao longe o está prognosticando,
Com este se foi Roma dilatando
E perdendo-o, perder-se inda hoje sente.Tal foi o destas ínclitas Atenas,
Antes que por senhor vos alcançassem.
Mas hoje o sentem pelo bem que adoram,Que como deste modo melhorassem
Suas cousas, a grandes de pequenas,
Chegando agora ao cabo, o fim lhe choram.
Sonetos sobre Seguros de Vasco Mouzinho de Quebedo
5 resultadosSoneto XXXIIII
Buscando ando ventura e não dou nela,
A tudo só por ela me aventuro,
Mas por mais que acho tudo, em vão procuro
Que só de tudo, em tudo me falta ela.Se para vê-la velo, também vela
E vai de mim fugindo pelo escuro,
Eu pelo escuro a sigo assaz seguro
Como quem a não tem para perdê-la.Mas ai, que digo, como não conheço
A ventura que sem ventura alcanço,
Que mor ventura que não ter ventura.Fora ventura então de pouco preço
E tempo, mas faltando a meu descanso,
Achei ventura em vós, que sempre dura.
Soneto XXV
Do bravo mar onde às voltas ando
Ora temendo as ondas, ora o vento,
Na esperança maior de salvamento,
A minha barca vai à costa dando.Pus os olhos na costa, imaginando
Achar remanso de pirigo isento,
Vendo, porém, frustrado o pensamento,
Louvo o mar já demais seguro e brando.Ai fementido amor, amor tirano,
Que onde minha esperança tinha posta
Me trouxeste a fazer naufrágio amargo.Porém ainda comigo foste humano,
Que mais quero perder-me dando à costa,
Que andar com mil temores em mar largo.
Soneto XXXXI
Quando as cerúleas ondas no mar alto,
Co’ a branda viração quieto e manso,
Que empolando-se vão de lanço em lanço,
Prognosticam dos ventos bravo assalto,Os Delfins, com ligeiro e leve salto,
Buscam do melhor porto o mor descanso,
Passando a tempestade em seu remanso
Já livres de temor e sobressalto.O bravo mar, é este bravo mundo,
Os Delfins, todos nós que nele andamos,
As religiões, seguros mansos portos.Para eles deste mar nos acolhamos,
Antes que em seu abismo alto e profundo
Soçobrados fiquemos, despois mortos.
Soneto XXXII
Ao Reitor António de Mendonça
Famoso Alcides, que nos ombros altos
Esta soberba máquina sustentas,
E de Atlante a pessoa representas,
Que nunca de virtude os achou faltos.Seguros sem temor, sem sobre saltos
Andem quantos por teus experimentas,
Que apesar de mil hórridas tormentas,
Resistiram contigo a seus assaltos.Com tais ombros soster o mundo podes,
E se hoje te deténs neste trabalho
É um ensaio para mores coisas,Que como a todo peso sempre acodes,
E vas subindo acima por atalho,
Para cansares mais, aqui repousas.