Saudade
Hoje que a mágoa me apunhala o seio,
E o coração me rasga atroz, imensa,
Eu a bendigo da descrença, em meio,
Porque eu hoje só vivo da descrença.À noute qaundo em funda soledade
Minh’alma se recolhe tristemente,
P’ra iluminar-me a alma descontente,
Se acende o cĂrio triste da Saudade.E assim afeito Ă s mágoas e ao tormento,
E Ă dor e ao sofrimento eterno afeito,
Para dar vida Ă dor e ao sofrimento,Da saudade na campa enegrecida
Guardo a lembrança que me sangra o peito,
Mas que no entanto me alimenta a vida.
Sonetos sobre Vida de Augusto dos Anjos
24 resultadosInfeliz
Alma viúva das paixões da vida,
Tu que, na estrada da existĂŞncia em fora,
Cantaste e riste, e na existĂŞncia agora
Triste soluças a ilusão peerdida;Oh! Tu, que na grinalda emurchecida
De teu passado de felicidade
Foste juntar os goivos da Saudade
Às flores da Esperança enlanguescida;Se nada te aniquila o desalento
Que te invade, e o pesar negro e profundo,
Esconde Ă Natureza o sofrimento,E fica no teu ermo entristecida,
Alma arrancada do prazer do mundo,
Alma viúva das paixões da vida.
Vozes Da Morte
Agora, sim! Vamos morrer, reunidos,
Tamarindo de minha desventura,
Tu, com o envelhecimento da nervura,
Eu, com o envelhecimento dos tecidos!Ah! Esta noite Ă© a noite dos Vencidos!
E a podridĂŁo, meu velho! E essa futura
Ultrafatalidade de ossatura,
A que nos acharemos reduzidos!Não morrerão, porém, tuas sementes!
E assim, para o Futuro, em diferentes
Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,Na multiplicidade dos teus ramos,
Pelo muito que em vida nos amamos,
Depois da morte inda teremos filhos!
Lirial
Por que choras assim, tristonho lĂrio,
Se eu sou o orvalho eterno que te chora,
P’ra que pendes o cálice que enflora
Teu seio branco do palor do cĂrio?!Baixa a mim, irmĂŁ pálida da Aurora,
Estrela esmaecida do MartĂrio;
Envolto da tristeza no delĂrio,
Deixa beijar-te a face que descora!Fosses antes a rosa purpurina
E eu beijaria a pétala divina
Da rosa, onde nĂŁo pousa a desventura.Ai! que ao menos talvez na vida escassa
Não chorasses à sombra da desgraça,
Para eu sorrir Ă sombra da ventura!
Ouvi, Senhora, O Cântico Sentido
Ouvi, senhora, o cântico sentido
Do coração que geme e s’estertora
N’ânsia letal que o mata e que o devora,
E que tornou-o assim, triste e descrido.Ouvi, senhora, amei; de amor ferido,
As minhas crenças que alentei outrora
Rolam dispersas, pálidas agora,
Desfeitas todas num guaiar dorido.E como a luz do sol vai-se apagando!
E eu triste, triste pela vida afora,
Eterno pegureiro caminhando,Revolvo as cinzas de passadas eras,
Sombrio e mudo e glacial, senhora,
Como um coveiro a sepultar quimeras!
Mater Originalis
Forma vermicular desconhecida
Que estacionaste, mĂsera e mofina,
Como quase impalpável gelatina,
Nos estados prodrĂ´micos da vida;O hierofante que leu a minha sina
Ignorante Ă© de que Ă©s, talvez, nascida
Dessa homogeneidade indefinida
Que o insigne Herbert Spencer nos ensina.Nenhuma ignota uniĂŁo ou nenhum nexo
A contingência orgânica do sexo
A tua estacionária alma prendeu…Ah! de ti foi que, autĂ´noma e sem normas,
Oh! MĂŁe original das outras formas,
A minha forma lĂşgubre nasceu!
Anseio
Que sou eu, neste ergástulo das vidas
Danadamente, a soluçar de dor?!
– Trinta triliões de cĂ©lulas vencidas,
Nutrindo uma efeméride inferior.Branda, entanto, a afagar tantas feridas,
A áurea mão taumitúrgica do Amor
Traça, nas minhas formas carcomidas,
A estrutura de um mundo superior!Alta noite, esse mundo incoerente
Essa elementarĂssima semente
Do que hei de ser, tenta transpor o Ideal…Grita em meu grito, alarga-se em meu hausto,
E, ai! como eu sinto no esqueleto exausto
NĂŁo poder dar-lhe vida material!
Caput Immortale
Na dinâmica aziaga das descidas,
Aglomeradamente e em turbilhĂŁo
Solucem dentro do Universo anciĂŁo,
Todas as urbes siderais vencidas!Morra o Ă©ter. Cesse a luz. Parem as vidas,
Sobre a pancosmolĂłgica exaustĂŁo
Reste apenas o acervo árido e vão
Das muscularidades consumidas!Ainda assim, a animar o cosmos ermo,
Morto o comĂ©rcio fĂsico nefando,
Oh! Nauta aflito do Subliminal,Como a Ăşltima expressĂŁo da Dor sem termo,
Tua cabeça há de ficar vibrando
Na negatividade universal!
Ave Dolorosa
Ave perdida para sempre – crença
Perdida – segue a trilha que te traça
O Destino, ave negra da Desgraça,
Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença!Dos sonhos meus na Catedral imensa
Que nunca pouses. Lá, na névoa baça
Onde o teu vulto lúrido esvoaça,
Seja-te a vida uma agonia intensa!Vives de crenças mortas e te nutres,
Empenhada na sanha dos abutres,
Num desespero rábido, assassino…E hás de tombar um dia em mágoas lentas,
Negrejadas das asas lutulentas
Que te emprestar o corvo do Destino!
A Esmola De Dulce
Ao Alfredo A.
E todo o dia eu vou como um perdido
De dor, por entre a dolorosa estrada,
Pedir a Dulce, a minha bem amada,
A esmola dum carinho apetecido.E ela fita-me, o olhar enlanguescido,
E eu balbucio trĂŞmula balada:
– Senhora, dai-me u’a esmola – e estertorada
A minha voz soluça num gemido.Morre-me a voz, e eu gemo o último harpejo,
Estendo à Dulce a mão, a fé perdida,
E dos lábios de Dulce cai um beijo.Depois, como este beijo me consola!
Bendita seja a Dulce! A minha vida
Estava unicamente nessa esmola.
Debaixo Do Tamarindo
No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fĂşnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilĂssimos trabalhos!Hoje, esta árvore de amplos agasalhos
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da flora brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!Quando pararem todos os relĂłgios
De minha vida, e a voz dos necrolĂłgios
Gritar nos noticiários que eu morri,Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade,
A minha sombra há de ficar aqui!
Psicologia De Um Vencido
Eu, filho do carbono e do amonĂaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influĂŞncia má dos signos do zodĂaco.ProfundĂssimamente hipocondrĂaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardĂaco.já o verme – este operário das ruĂnas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e Ă vida em geral declara guerra,Anda a espreitar meus olhos para roĂŞ-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
Aurora Morta, Foge! Eu Busco A Virgem Loura
Aurora morta, foge! Eu busco a virgem loura
Que fugiu-me do peito ao teu clarĂŁo de morte
E Ela era a minha estrela, o meu Ăşnico Norte,
O grande Sol de afeto – o Sol que as almas doura!Fugiu… e em si a Luz consoladora
Do amor – esse clarĂŁo eterno d’alma forte –
Astro da minha Paz, SĂrius da minha Sorte
E da Noute da vida a Vênus Redentora.Agora, oh! Minha Mágoa, agita as tuas asas,
Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas
E, num Pálio auroral de Luz deslumbradora,Ascende à Claridade. Adeus oh! Dia escuro,
Dia do meu Passado! Irrompe, meu Futuro;
Aurora morta, foge – eu busco a virgem loura!
Budismo Moderno
Tome, Dr., esta tesoura, e… corte
Minha singularĂssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma cĂ©lula caĂda
Na aberração de um óvulo infecundo;Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do Ăşltimo verso que eu fizer no mundo!
O Condenado
Folga a justiça e geme a natureza – Bocage
Alma feita somente de granito,
Condenada a sofrer cruel tortura
Pela rua sombria d’amargura
– Ei-lo que passa – rĂ©probo maldito.Olhar ao chĂŁo cravado e sempre fito,
Parece contemplar a sepultura
Das suas ilusões que a desventura
Desfez em pó no hórrido delito.E, à cruz da expiação subindo mudo,
A vida a lhe fugir já sente prestes
Quando ao golpe do algoz, calou-se tudo.O mundo Ă© um sepulcro de tristeza,
Ali, por entre matas de ciprestes,
Folga a justiça e geme a natureza.
Nimbos
Nimbos de bronze que empanais escuros
O santuário azul da Natureza,
Quando vos vejo, negros palinuros
Da tempestade negra e da tristeza,Abismados na bruma enegrecida,
Julgo ver nos reflexos de minh’alma
As mesmas nuvens deslizando em calma,
Os nimbos das procelas desta vida;Mas quando o cĂ©u Ă© lĂmpido, sem bruma
Que a transparĂŞncia tolde, sem nenhuma
Nuvem sequer, entĂŁo, num mar de esp’rança,Que o cĂ©u reflete, a vida Ă© qual risonho
Batel, e a alma é a Flâmula do sonho,
Que o guia e o leva ao porto da bonança.
O Meu Nirvana
No alheamento da obscura forma humana,
De que, pensando, me desencarcero,
Foi que eu, num grito de emoção, sincero
Encontrei, afinal, o meu Nirvana!Nessa manumissĂŁo schopenhauereana,
Onde a Vida do humano aspecto fero
Se desarraiga, eu, feito força, impero
Na imanĂŞncia da IdĂ©a Soberana!DestruĂda a sensação que oriunda fora
Do tacto – Ănfima antena aferidora
Destas tegumentárias mĂŁos plebĂ©as –Gozo o prazer, que os anos nĂŁo carcomem,
De haver trocado a minha forma de homem
Pela imortalidade das Idéas!
No Meu Peito Arde Em Chamas Abrasada
No meu peito arde em chamas abrasada
A pira da vingança reprimida,
E em centelhas de raiva ensurdecida
A vingança suprema e concentrada.E espuma e ruge a cólera entranhada,
Como no mar a vaga embravecida
Vai bater-se na rocha empedernida,
Espumando e rugindo em marulhada.Mas se das minhas dores ao calvário,
Eu subo na atitude dolorida
De um Cristo a redimir um mundo vário,Em luta co’a natura sempiterna,
Já que do mundo não vinguei-me em vida,
A morte me será vingança eterna.
A Máscara
Eu sei que há muito pranto na existência,
Dores que ferem corações de pedra,
E onde a vida borbulha e o sangue medra,
AĂ existe a mágoa em sua essĂŞncia.No delĂrio, porĂ©m, da febre ardente
Da ventura fugaz e transitĂłria
O peito rompe a capa tormentĂłria
Para sorrindo palpitar contente.Assim a turba inconsciente passa,
Muitos que esgotam do prazer a taça
Sentem no peito a dor indefinida.E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca
A humanidade ri-se e ri-se louca
No carnaval intérmino da vida.
Soneto
N’augusta solidĂŁo dos cemitĂ©rios,
Resvalando nas sombras dos ciprestes,
Passam meus sonhos sepultados nestes
Brancos sepulcros, pálidos, funéreos.São minhas crenças divinais, ardentes
– Alvos fantasmas pelos merencĂłrios
TĂşmulos tristes, soturnais, silentes,
Hoje rolando nos umbrais marmóreos.Quando da vida, no eternal soluço,
Eu choro e gemo e triste me debruço
Na lájea fria dos meus sonhos pulcros.Desliza então a lúgubre coorte,
E rompe a orquestra sepulcral da morte,
Quebrando a paz suprema dos sepulcros.