Alma Solitária
Ă“ alma doce e triste e palpitante!
Que cĂtaras soluçam solitárias
Pelas Regiões longĂnquas, visionárias
Do teu Sonho secreto e fascinante!Quantas zonas de luz purificante,
Quantos silêncios, quantas sombras várias
De esferas imortais imaginárias
Falam contigo, Ăł Alma cativante!Que chama acende os teus farĂłis noturnos
E veste os teus mistériosa taciturnos
Dos esplendores do arco de aliança?Por que és assim, melancolicamente,
Como um arcanjo infante, adolescente,
Esquecido nos vales da Esperança?!
Sonetos sobre Zonas
9 resultadosSer Dos Seres
No teu ser de silĂŞncio e d’esperança
A doce luz das Amplidões flameja.
Ele sente, ele aspira, ele deseja
A grande zona da imortal Bonança.Pelos largos espaços se balança
Como a estrela infinita que dardeja,
Sempre isento da Treva que troveja
O clamor inflamado da Vingança.Por entre enlevos e deslumbramentos
Entra na Força astral dos Sentimentos
E do Poder nos mágicos poderes.E traz, embora os Ăntimos cansaços,
Ânsias secretas para abrir os braços
Na generosa comunhĂŁo dos Seres!
Soneto 510 Malocatário
Soneto Ă© um apertado apartamento
num vasto condomĂnio de inquilinos.
A mesma planta e vários seus destinos:
um drama urbano em cada pavimento.Dois quartos, pouca luz e muito vento,
que podem ser alcovas ou cassinos,
parĂłquias parcas, clubes clandestinos,
abrigo do autor brega ou do briguento.Agora virou zona, mas um dia
foi casa de famĂlia e regra tinha:
conversa só começa se o pai pia.Além da comezinha escrivaninha,
sĂł tem privada, cama, mesa e pia.
Sem sala, o papo acaba na cozinha.
Absurdo
Ninguém te disse nada, ninguém soube
do anel que se perdia em tuas mĂŁos
e crescia nas coisas reduzindo-as
Ă ausĂŞncia mais completa do existir.Mesmo quando o limite era essa zona
fugidia de gestos e silĂŞncios
e a noite desdobrava em tua pele
o mapa das cidades compassivas,ninguĂ©m pĂ´de saber do imprevisĂvel,
do lado mais secreto e numeroso
que havia em ti, na vida que buscavase que perdias sempre, por mais fundo,
por mais limpo que fosse o privilégio
da mágoa sempre nova de perdê-la.
Ilha
Deitada Ă©s uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tĂŁo alongadas
com tĂŁo prometedoras enseadas
um sĂł bosque no meio florescentepromontĂłrios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planĂcie adolescenteDeitada Ă©s uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorroou se te mostro sĂł que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias
A Gonçalves Dias
Celebraste o domĂnio soberano
Das grandes tribos, o tropel fremente
Da guerra bruta, o entrechocar insano
Dos tacapes vibrados rijamente,O maracá e as flechas, o estridente
Troar da inĂşbia, e o canitar indiano…
E, eternizando o povo americano,
Vives eterno em teu poema ingente.Estes revoltos, largos rios, estas
Zonas fecundas, estas seculares
Verdejantes e amplĂssimas florestasGuardam teu nome: e a lira que pulsaste
Inda se escuta, a derramar nos ares
O estridor das batalhas que contaste.
A Grande Sede
Se tens sede de Paz e d’Esperança,
Se estás cego de Dor e de Pecado,
Valha-te o Amor, Ăł grande abandonado,
Sacia a sede com amor, descansa.Ah! volta-te a esta zona fresca e mansa
Do Amor e ficarás desafogado,
Hás de ver tudo claro, iluminado
Da luz que uma alma que tem fé alcança.O coração que é puro e que é contrito,
Se sabe ter doçura e ter dolência
Revive nas estrelas do Infinito.Revive, sim, fica imortal, na essĂŞncia
Dos Anjos paira, nĂŁo desprende um grito
E fica, como os Anjos, na ExistĂŞncia.
Auréola Equatorial
A Teodoreto Souto
Fundi em bronze a estrofe augusta dos prodĂgios,
Poetas do Equador, artĂsticos Barnaves;
Que o facho — Abolição — rasgando as nuvens graves
De raios e bulcões — triunfa nos litĂgios!— O rei Mamoud, o Sol, vibrou p’raquelas bandas
do Norte — a grande luz — elĂ©trico, explodindo,
Assim como quem vai, intrépido, subindo
Ă€ luz da idade nova — em claras propagandas.— Os pássaros titĂŁs nos seus conciliábulos,
— Chilreiam, vĂŁo cantando em mĂsticos vocábulos,
Alargam-se os pulmões nevrálgicos das zonas;Abri alas, abri! — Que em tĂşnica de assombros,
Irá passar por vós, com a Liberdade aos ombros,
Como um colosso enorme o impávido Amazonas!
Dupla Via-Láctea
Sonhei! Sempre sonhar! No ar ondulavam
Os vultos vagos, vaporosos, lentos,
As formas alvas, os perfis nevoentos
Dos Anjos que no Espaço desfilavam.E alas voavam de Anjos brancos, voavam
Por entre hosanas e chamejamentos…
Claros sussurros de celestes ventos
Dos Anjos longas vestes agitavam.E tu, já livre dos terrestres lodos,
Vestida do esplendor dos astros todos,
Nas auréolas dos céus engrinaldadaDentre as zonas de luz flamo-radiante,
Na cruz da Via-Láctea palpitante
Apareceste entĂŁo crucificada!