A Necessidade da MetafĂ­sica

A razão humana tem este destino singular, numa parte dos seus conhecimentos, de sucumbir ao peso de certas questÔes que não pode evitar. Com efeito, tais questÔes impÔem-se à razão devido à sua mesma natureza, mas ela não pode responder-lhes porque de todo ultrapassam a sua capacidade.
NĂŁo devemos contar que o espĂ­rito humano renuncie um dia por completo Ă s indagaçÔes metafĂ­sicas: seria o mesmo que aguardar que, em vez de respirar sempre um ar viciado, suspendĂȘssemos um belo dia a respiração. Por conseguinte, haverĂĄ sempre no mundo, ou, melhor, em todo homem, sobretudo se ele reflecte, uma metafĂ­sica, que, na ausĂȘncia de uma norma comum, cada qual talharĂĄ a seu grado; ora o que atĂ© aqui se tem denominado metafĂ­sica nĂŁo pode satisfazer nenhum espĂ­rito reflectido, mas renunciar a ela por completo Ă© tambĂ©m impossĂ­vel; Ă© necessĂĄrio, pois, empreender enfim uma crĂ­tica da razĂŁo pura em si, ou, se alguma existe, perscrutĂĄ-la e examinĂĄ-la em conjunto; na verdade, nĂŁo hĂĄ outro meio de satisfazer esta exigĂȘncia imperiosa, que Ă© coisa muito diferente de um simples desejo de saber.