Uma Grande parte da Arte Ă© para Morrer
A pasmaceira dum domingo portuguĂŞs, que atĂ© mesmo em Lisboa Ă© de desiludir um pĂcnico (quanto mais um astĂ©nico!), levou-me ao abismo onde todo o provinciano que aqui chega tem de cair, se nĂŁo quer esperar no cafĂ© pelo comboio do regresso. Refiro-me, claro, Ă inevitável revista. E fez-me bem, porque assentei ideias sobre alguns problemas de literatura e arte.
Os risos desarticulados que pelo mundo a cabo desaguam nos muitos parques Meyer, o que são em verdade senão o prolongamento protoplásmico de certas farsas medievais? Revistas também daqueles atribulados tempos, as peças primitivas que até nós chegaram não têm outro mérito senão mostrar-nos que já então se dizia mal dos tiranos em trocadilhescas palavras e significativos gestos, ficando-nos ao cabo da sua penosa leitura a humana consolação de sabermos que o povo ria a bandeiras despregadas da própria miséria, e aliviava assim as suas penas.
Uma grande parte da arte é para morrer, e a pedra de toque da sua caducidade está em ela falar apaixonadamente de pessoas e acontecimentos inteiramente esquecidos da lembrança da História. Poder-se-á dizer que não se trata de beleza pura, a qual tem uma perenidade que transcende o circunstancial. Não é verdade.
Textos sobre Beleza de Miguel Torga
4 resultadosAs Atracções Inferiores
Faz pena. A gente elege entre trinta mil almas meia dĂşzia de indivĂduos para conviver, e, afinal, chega perto deles a defender uma pureza polĂtica, uma pureza profissional, uma pureza sexual, e caem sobre nĂłs mil argumentos dum pragmatismo dĂşbio, suspeito, que confrange. Longe de se receber estĂmulo para combater as tentações, encontra-se um escorregadoiro conivente para o abismo delas. — É o meio — repito de cada vez, a tentar iludir-me. Mas Ă© inĂştil vendar o olhos. AtĂ© o meio geográfico se pode vencer, quanto mais o meio social. Na luta contra as atracções inferiores do ambiente humano Ă© que está precisamente a beleza duma vida. O meio! Eles Ă© que sĂŁo o meio, assim perdidos, duplos, comprometidos com a podridĂŁo atĂ© Ă raiz.
Artista, Homem e Revolucionário
Creio que nĂŁo Ă© preciso. Em todo o caso, fica aqui a declaração. O que eu fui sempre, o que eu sou, e o que serei, Ă© um artista, um homem e um revolucionário. Na medida em que sou artista, quero um mundo onde a beleza seja o vĂ©rtice da pirâmide. Na medida em que sou homem, quero que nesse mundo os indivĂduos sejam livres e conscientes. E na medida em que sou revolucionário, quero que a revolução traga Ă tona as grandes massas, e que nunca acabe de percorrer o seu caminho perpĂ©tuo, sem estratificações e sem dogmas.
O Caminho de um Criador
Creio que tem havido sempre na nossa terra uma descabida preocupação canónica à ilharga de cada artista. Interessa mais ao zelo nacional averiguar se um poeta morreu sacramentado, do que ler os seus versos. Ninguém quer saber se o caminho de um criador o leva à morada das musas e da beleza; espreita-se da janela, mas é para ver se ele vai à missa. Ora isto é de analfabetos, de pessoas que verdadeiramente não sabem nem querem saber do valor de um poema, do mundo de liberdade e de independência que ele encerra. E uma gente assim não me convém, nem tão-pouco o Deus intolerante que servem. Por isso me vou divertindo com as minhas divindades naturais, luciferinamente, certo de que o diabo é ainda uma grande companhia. Foi a ele que Jesus disse que o seu reino não era deste mundo. E o meu, precisamente, é.