A Vida Ă© Triste
A vida é triste por uma só razão. Não é a primeira (o ser curta). É comprida. Só parece curta a quem não sofre; a quem não quer que acabe.
A vida Ă© triste por ser muito mais fácil iludirmo-nos do que somos capazes de nos desiludir. A ilusĂŁo, sem qualquer esforço da nossa parte, põe-nos nos pĂncaros. Estamos programados para isso. NĂŁo nos custa. Sabe-nos bem. Gostamos de ser enganados, desde que nos sintamos mais bem por causa disso.
Já a desilusĂŁo nĂŁo sĂł Ă© difĂcil como custa muito mais. Nunca Ă© bem-vinda. É uma força destruidora, a realidade. A morte, sendo inesperada — seja a morte intelectual, emotiva, sensĂvel, amorosa ou fĂsica —, Ă© sempre mais violenta do que a esperada, que raramente se adianta.
Cada vez que acordamos e lamentamos ter acordado; cada vez que adormecemos e agradecemos ter adormecido; estamos a rejeitar alegremente a vida. Não há outra maneira de a rejeitar. Viver, apesar de tudo, ainda é uma espécie de glória, sendo a glória o oposto do prazer.
Esperar muito — tanto no sentido louco da esperança como no sentido (cuja raiz latina vem de sofrer) masoquista de paciência – é pormo-nos a jeito para o sofrimento.
Textos sobre Biologia de Miguel Esteves Cardoso
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