O Primeiro Beijo
Durante todas as noites desse verĂŁo, as estrelas foram lĂquidas no cĂ©u. Quando eu as olhava, eram pontos lĂquidos de brilho no cĂ©u. Na primeira vez, encontrĂĄmo-nos durante o dia: eu sorri-lhe, ela sorriu-me. Dissemos duas ou trĂȘs palavras e contivemo-nos dentro dos nossos corpos. Os olhos dela, por um instante, foram um abismo onde fiquei envolto por leveza luminosa, onde caĂa como se flutuasse: cair atravĂ©s do cĂ©u dentro de um sonho.
Naquela noite, fiquei a esperĂĄ-la, encostado ao muro, alguns metros depois da entrada da pensĂŁo. As pessoas que passavam eram alegres. Eu pensava em qualquer coisa que me fazia sentir maior por dentro, como a noite. As folhas de hera que cobriam o cimo do muro, e que se suspendiam sobre o passeio, eram uma Ășnica forma nocturna, feita apenas de sombras. Primeiro, senti as folhas de hera a serem remexidas; depois, vi os braços dela a agarrarem-se ao muro; depois, o rosto dela parado de encontro ao cĂ©u claro da noite. E faltou uma batida ao coração.
O mundo parou. Sombras pousavam-lhe, transparentes, na pele do rosto. O ar fresco, arrefecido, moldava-lhe a pele do rosto. E o mundo continuou. Ajudei-a a descer.
Textos sobre Brilhos de JosĂ© LuĂs Peixoto
2 resultadosPai
Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O cĂ©u desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. TranslĂșcida, adormece um sono cĂĄlido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as ĂĄrvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cĂĄ ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mĂĄgoa indiferente deste mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto Ă© agora pouco para te conter. Agora, Ă©s o rio e as margens e a nascente; Ă©s o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; Ă©s o mundo todo por seres a sua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as ĂĄrvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer, em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim.