Luta de Classes
Não contem comigo para defender o elitismo cultural. Pelo contrário, contem comigo para rebentar cada detalhe do seu preconceito.
A cultura Ă© usada como sĂmbolo de status por alguns, alfinete de lapela, botĂŁo de punho. A raridade Ă© condição indispensável desse exibicionismo. SĂł pertencendo a poucos se pode ostentar como diferenciadora. Essa colecção de sĂmbolos Ă© descrita com pronĂşncia mais ou menos afectada e tem o objectivo de definir socialmente quem a enumera.
Para esses indivĂduos raros, a cultura Ă© caracterizada por aqueles que a consomem. Assim, convĂ©m nĂŁo haver misturas. Conheço melhor o mundo da leitura, por isso, tomo-o como exemplo: se, no inĂcio da madrugada, uma dessas mulheres que acorda cedo e faz limpeza em escritĂłrios for vista a ler um determinado livro nos transportes pĂşblicos, os snobs que assistam a essa imagem sĂŁo capazes de enjeitá-lo na hora. ComeçarĂŁo a definir essa obra como “leitura de empregadas de limpeza” (com muita probabilidade utilizarĂŁo um sinĂłnimo mais depreciativo para descrevĂŞ-las).
Este exemplo aplica-se em qualquer outra área cultural que possa chegar a muita gente: mĂşsica, cinema, televisĂŁo, etc. Aquilo que mais surpreende Ă© que estes “argumentos”, esta forma de falar e de pensar seja utilizada em meios supostamente culturais por indivĂduos supostamente cultos,
Textos sobre Convicção de JosĂ© LuĂs Peixoto
3 resultadosOs Olhos nĂŁo Permitem a Mentira
Será através dos olhos que passarás aos teus filhos tudo o que souberes.
Pouco valimento será dado às lições que, em vã convicção, te atrevas a dedicar-lhes.
Não poderás ensinar mais do que sabes;
aquilo que souberes será aquilo em que acreditares;
aquilo em que acreditares existirá dentro de ti,
terá a forma de um mistério que nunca entenderás completamente
e, no entanto, os teus filhos irão recebê-lo, de modo puro e inalterado, através dos teus olhos.
Queiras ou não, assim será.
Os olhos nĂŁo permitem a mentira.
Tentar Saber algo Sobre a Morte
Tentar saber algo sobre a morte Ă© tentar saber algo sobre a vida. A literatura dá-nos a ver verdades que sĂł podem ser usadas por nĂłs prĂłprios, que sĂŁo as nossas convicções e as respostas essenciais a perguntas para as quais todos temos de ter uma resposta. (…) A morte Ă© natural, a maior certeza que temos sobre qualquer coisa Ă© que vai ter o seu fim. Os dias começam e acabam, tudo acaba… Fechar os olhos ao que quer que seja, ignorar, fingir que nĂŁo existe, nunca Ă© bom, sobretudo em relação a coisas que existem de facto e a morte existe de facto. Lamento, mas nĂŁo fui eu que inventei o mundo nem a morte.