Perguntas e Respostas
— Qual é a coisa mais antiga do mundo?
— Poderia dizer que é Deus que sempre existiu.
— Qual é a coisa mais bela?
— O instante de inspiração.
— E Deus quando criou o Universo não o fez no momento de Sua maior inspiração?
— O Universo sempre existiu. O cosmos é Deus.
— Qual das coisas é a maior?
— O amor, que é o maior dos mistérios.
— Das coisas qual é a mais constante?
— O medo. Que pena que eu não possa responder: é a esperança.
— Qual o melhor dos sentimentos?
— O de amar e ao mesmo tempo ser amada, o que parece apenas um lugar-comum mas é uma de minhas verdades.
— Qual é o sentimento mais rápido?
— O sentimento mais rápido, que chega a ser apenas um fulgor, é o instante em que um homem e uma mulher sentem um no outro a promessa de um grande amor.
— Qual é a mais forte das coisas?
— O instinto de ser.
— O que é mais fácil de se fazer?
— Existir,
Textos sobre DifĂcil de Clarice Lispector
7 resultadosA Vontade de Escrever
Quando conscientemente, aos treze anos de idade, tomei posse da vontade de escrever – eu escrevia quando era criança, mas nĂŁo tomara posse de um destino – quando tomei posse da vontade de escrever, vi-me de repente num vácuo. E nesse vácuo nĂŁo havia quem pudesse me ajudar. Eu tinha que eu mesma me erguer de um nada, tinha eu mesma que me entender, eu mesma inventar por assim dizer a minha verdade. Comecei, e nem sequer era pelo começo. Os papĂ©is se juntavam um ao outro – o sentido se contradizia, o desespero de nĂŁo poder era um obstáculo a mais para realmente nĂŁo poder: a histĂłria interminável que entĂŁo comecei a escrever (com muita influĂŞncia de O Lobo das Estepes de Hermann Hesse), que pena eu nĂŁo ter conservado: rasguei, desprezando todo um esforço quase sobre-humano de aprendizagem, de autoconhecimento. E tudo era feito em tal segredo. Eu nĂŁo contava a ninguĂ©m, vivia aquela dor sozinha. Uma coisa eu já adivinhava: era preciso tentar escrever sempre, nĂŁo esperar um momento melhor porque este simplesmente nĂŁo vinha. Escrever sempre me foi difĂcil, embora tivesse partido do que se chama vocação. Vocação Ă© diferente de talento. Pode-se ter vocação e nĂŁo ter talento,
A Imaginação é a Base do Homem
De tal modo a imaginação Ă© a base do homem — Joana de novo — que todo o mundo que ele tem construĂdo encontra sua justificativa na beleza da criação e nĂŁo na sua utilidade, nĂŁo em ser o resultado de um plano de fins adequados Ă s necessidades. Por isso Ă© que vemos multiplicarem-se os remĂ©dios destinados a unir o homem Ă s ideias e instituições existentes — a educação, por exemplo, tĂŁo difĂcil — e vemo-lo continuar sempre fora do mundo que ele construiu. O homem levanta casas para olhar e nĂŁo para nelas morar. Porque tudo segue o caminho da inspiração. O determinismo nĂŁo Ă© um determinismo de fins, mas um estreito determinismo de causas. Brincar, inventar, seguir a formiga atĂ© seu formigueiro, misturar água com cal para ver o resultado, eis o que se faz quando se Ă© pequeno e quando se Ă© grande. É erro considerar que chegamos a um alto grau de pragmatismo e materialismo. Na verdade o pragmatismo — o plano orientado para um dado fim real — seria a compreensĂŁo, a estabilidade, a felicidade, a maior vitĂłria de adaptação que o homem conseguisse. No entanto fazer as coisas «para quê» parece-me, perante a realidade,
Uma Vida Maior
Estou querendo viver daquilo inicial e primordial que exactamente fez com que certas coisas chegassem ao ponto de aspirar a serem humanas. Estou querendo que eu viva da parte humana mais difĂcil: que eu viva do germe do amor neutro, pois foi dessa fonte que começou a nascer aquilo que depois foi se distorcendo em sentimentações a tal ponto que o nĂşcleo ficou esmagado em nĂłs mesmos pela pata humana. É um amor muito maior que estou exigindo de mim – Ă© uma vida tĂŁo maior que nĂŁo tem sequer beleza. Estou tendo essa coragem dura que me dĂłi como a carne que se transforma em parto.
.H.’
Respeito Muito o Homem que Chora
Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim Ă© aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, nĂŁo dĂŁo alĂvio. SĂł esgotam e exaurem. Uma amiga perguntou-me, entĂŁo, se nĂŁo seria esse choro como o de uma criança com a angĂşstia da fome. Era. Quando se está perto desse tipo de choro, Ă© melhor procurar conter–se: nĂŁo vai adiantar. É melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. É difĂcil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.
Mas nem sempre Ă© necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. EntĂŁo, sĂŁo lágrimas suaves, de uma tristeza legĂtima Ă qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, lĂmpido, produto de nossa dor mais profunda.
Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar.
Aprendendo a Viver
Thoreau era um filĂłsofo americano que, entre coisas mais difĂceis de se assimilar assim de repente, numa leitura de jornal, escreveu muitas coisas que talvez possam nos ajudar a viver de um modo mais inteligente, mais eficaz, mais bonito, menos angustiado.
Thoreau, por exemplo, desolava-se vendo seus vizinhos sĂł pouparem e economizarem para um futuro longĂnquo. Que se pensasse um pouco no futuro, estava certo. Mas «melhore o momento presente», exclamava. E acrescentava: «Estamos vivos agora.» E comentava com desgosto: «Eles ficam juntando tesouros que as traças e a ferrugem irĂŁo roer e os ladrões roubar.»
A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência dos agoras é que você existe.Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.
Ele queria que fizéssemos agora o que queremos fazer.
Estado Agudo de Felicidade
Com duas pessoas eu já entrei em comunicação tĂŁo forte que deixei de existir, sendo. Como explicar? Olhávamo-nos nos olhos e nĂŁo dizĂamos nada, e eu era a outra pessoa e a outra pessoa era eu. É tĂŁo difĂcil falar, Ă© tĂŁo difĂcil dizer coisas que nĂŁo podem ser ditas, Ă© tĂŁo silencioso. Como traduzir o profundo silĂŞncio do encontro entre duas almas? E dificĂlimo contar: nĂłs estávamos nos olhando fixamente, e assim ficamos por uns instantes. Éramos um sĂł ser. Esses momentos sĂŁo o meu segredo. Houve o que se chama de comunhĂŁo perfeita. Eu chamo isso de: estado agudo de felicidade. Estou terrivelmente lĂşcida e parece que estou atingindo um plano mais alto de humanidade. Foram os momentos mais altos que jamais tive.