O Homem Certo
Hoje, numa Ă©poca em que se misturam todos os discursos, em que profetas e charlatĂŁes usam as mesmas fĂłrmulas com mĂnimas diferenças, cujo percurso nenhum homem ocupado tem tempo de seguir, num tempo em que as redacções dos jornais sĂŁo constantemente incomodadas por gente que acha que Ă© um gĂ©nio, Ă© muito difĂcil ajuizar do valor de um homem ou de uma ideia. Temos de nos deixar guiar pelo ouvido para podermos perceber se os rumores, os sussurros e o raspar de pĂ©s diante da porta da redacção sĂŁo suficientemente fortes para poderem ser admitidos como voz da polis. A partir desse momento, porĂ©m, o gĂ©nio passa a outra condição. Deixa de ser matĂ©ria fĂştil da crĂtica literária ou teatral, cujas contradições os leitores que qualquer jornal deseja ter levam tĂŁo pouco a sĂ©rio como a tagarelice de uma criança, para aceder ao estatuto de factos concretos, com todas as consequĂŞncias que isso tem.
Certos fanáticos insensatos ignoram a necessidade desesperada de idealismo que se esconde por detrás de tal situação. O mundo dos que escrevem porque têm de escrever está cheio de grandes palavras e conceitos que perderam a substância. Os atributos dos grandes homens e das grandes causas sobrevivem ao que quer que seja que lhes deu origem,
Textos sobre Discursos de Robert Musil
2 resultadosA Superficialidade dos Grandes EspĂritos
NĂŁo há nada de mais perigoso para o espĂrito do que a sua relação com as grandes coisas. AlguĂ©m deambula por uma floresta, sobe a um monte e vĂŞ o mundo estendido a seus pĂ©s, olha para um filho que lhe colocam pela primeira vez nos braços, ou desfruta da felicidade de assumir uma posição invejada por todos. Perguntamos: o que se passa nele em tais momentos? Ele prĂłprio certamente pensa que sĂŁo muitas coisas, profundas e importantes; mas nĂŁo tem presença de espĂrito suficiente para, por assim dizer, as tomar Ă letra. O que há de admirável, diante dele e fora dele, que o encerra numa espĂ©cie de gaiola magnĂ©tica, arranca os pensamentos do seu interior. O seu olhar perde-se em mil pormenores, mas ele tem a secreta sensação de ter esgotado todas as munições. Lá fora, esse momento inspirado, solar, profundo, essa grande hora, recobre o mundo com uma camada de prata galvanizada que penetra todas as folhinhas e veias; mas na outra extremidade em breve se começa a notar uma certa falta de substância interior, e nasce aĂ uma espĂ©cie de grande «O», redondo e vazio. Este estado Ă© o sintoma clássico do contacto com tudo o que Ă© eterno e grande,