A Verdade Ă© um Modo de Estarmos a Bem Connosco
Cada Ă©poca, como cada idade da vida, tem o seu secreto e indizĂvel e injustificável sentido de equilĂbrio. Por ele sabemos o que está certo e errado, sensato e ridĂculo. E isto nĂŁo Ă© sĂł visĂvel no que Ă© produto da emotividade. É visĂvel mesmo na manifestação mais neutral como uma notĂcia ou um anĂşncio de jornal. Donde nasce esse equilĂbrio? Que Ă© que o constitui? O destrĂłi? Porque Ă© que se nĂŁo rebentava a rir com os anĂşncios de há cento e tal anos?   (Rebentámos nĂłs, aqui há uns meses, em casa dos Paixões, ao ler um jornal de 186…). Mas a razĂŁo deve ser a mesma por que se nĂŁo rebentou a rir com a moda que há anos usámos, os livros ridĂculos que nos entusiasmaram, as anedotas com que rimos e de que devĂamos apenas rir. O homem Ă©, no corpo como no espĂrito, um equilĂbrio de tensões. SĂł que as do espĂrito, mais do que as do corpo, se reorganizam com mais frequĂŞncia. Equilibrado o espĂrito, mete-se-lhe uma ideia nova. Se nĂŁo Ă© expulsa, há nela a verdade. Porque a verdade Ă© isso: a inclusĂŁo de seja o que for no nosso mecanismo sem que lhe rebente as estruturas.
Textos sobre Emotividade de VergĂlio Ferreira
3 resultadosA Dificuldade de Estabelecer e Firmar Relações
A dificuldade de estabelecer e firmar relações. Há uma tĂ©cnica para isso, conheço-a. Nunca pude meter-me nela. Ser «simpático». É realmente fácil: prestabilidade, autodomĂnio. Mas. Ser sociável exige um esforço enorme — fĂsico. Quem se habituou, já se nĂŁo cansa. Tudo se passa Ă superfĂcie do esforço. Ter «personalidade»: nĂŁo descer um milĂmetro no trato, mesmo quando por delicadeza se finge. Assumirmos a importância de nĂłs sem o mostrar. Darmo-nos valor sem o exibir. Irresistivelmente, agacho-me. E logo: a pata dos outros em cima. Bem feito. Pois se me pus a jeito. E entĂŁo reponto. O fim. Ser prestável, colaborar nas tarefas que os outros nos inventam. ColĂłquios, conferĂŞncias, organizações de. Ah, ser-se um «inĂştil» (um «parasita»…). Razões profundas — um complexo duplo que vem da juventude: incompreensĂŁo do irmĂŁo corpo e da bolsa paterna. O segundo remediou-se. Tenho desprezo pelo dinheiro. Ligo tĂŁo pouco ao dinheiro que nem o gasto… Mas «gastar» faz parte da «personalidade». SaĂşde — mais difĂcil. Este ar apeurĂ© que vem logo ao de cima. A Ăşnica defesa, obviamente, Ă© o resguardo, o isolamento, a medida.
É fácil ser «simpático», difĂcil Ă© perseverar, assumir o artifĂcio da facilidade. Conservar os amigos. «NĂŁo Ă©s capaz de dar nada»,
A Intensidade de um Sentimento
Creio que a intensidade de um sentimento tem que ver com o nĂşmero de elementos a que se aplica. Penso assim que ele varia na razĂŁo inversa do nĂşmero desses elementos. Quanto maior for o nĂşmero de filhos, menor Ă© a alegria ou o desgosto que cada um provoca ao pai. O máximo de sentir diz respeito a todos e divide-se portanto por cada um. Se um indivĂduo Ă© o chefe de um povo, transfere para a colectividade a sua capacidade de sentir. Assim ele Ă© praticamente insensĂvel perante a sorte de cada um. A famosa insensibilidade de um chefe tem que ver com isso. O mesmo para o autodomĂnio que se refere a um indivĂduo particular. Julgo que na realidade se trata de uma distribuição do seu sentir por vários elementos dos quais por exemplo os filhos (ou ele prĂłprio) sĂŁo apenas uma fracção. O resto dessa fracção pode ir para os seus negĂłcios, o seu partido polĂtico, os seus amigos ou amantes, o seu clube. E entĂŁo o admitável autodomĂnio tem apenas que ver com uma parcela do sentir. E com essa parcela já se pode ser forte e aguentar. Isto, se se nĂŁo trata apenas, como julgo já ter dito,