A Verdade Ă© um Modo de Estarmos a Bem Connosco
Cada Ă©poca, como cada idade da vida, tem o seu secreto e indizĂvel e injustificável sentido de equilĂbrio. Por ele sabemos o que está certo e errado, sensato e ridĂculo. E isto nĂŁo Ă© sĂł visĂvel no que Ă© produto da emotividade. É visĂvel mesmo na manifestação mais neutral como uma notĂcia ou um anĂşncio de jornal. Donde nasce esse equilĂbrio? Que Ă© que o constitui? O destrĂłi? Porque Ă© que se nĂŁo rebentava a rir com os anĂşncios de há cento e tal anos?   (Rebentámos nĂłs, aqui há uns meses, em casa dos Paixões, ao ler um jornal de 186…). Mas a razĂŁo deve ser a mesma por que se nĂŁo rebentou a rir com a moda que há anos usámos, os livros ridĂculos que nos entusiasmaram, as anedotas com que rimos e de que devĂamos apenas rir. O homem Ă©, no corpo como no espĂrito, um equilĂbrio de tensões. SĂł que as do espĂrito, mais do que as do corpo, se reorganizam com mais frequĂŞncia. Equilibrado o espĂrito, mete-se-lhe uma ideia nova. Se nĂŁo Ă© expulsa, há nela a verdade. Porque a verdade Ă© isso: a inclusĂŁo de seja o que for no nosso mecanismo sem que lhe rebente as estruturas.
Textos sobre EquilĂbrio de VergĂlio Ferreira
4 resultadosA Verdade Ă© Amor
A verdade Ă© amor — escrevi um dia. Porque toda a relação com o mundo se funda na sensibilidade, como se aprendeu na infância e nĂŁo mais se pĂ´de esquecer. É esse equilĂbrio interno que diz ao pintor que tal azul ou vermelho estĂŁo certos na composição de um quadro. É o mesmo equilĂbrio indizĂvel que ao filĂłsofo impõe a verdade para a sua filosofia. Porque a filosofia Ă© um excesso da arte. Ela acrescenta em razões ou explicações o que lhe impĂ´s esse equilĂbrio, resolvido noutros num poema, num quadro ou noutra forma de se ser artista. Assim o que exprime o nosso equilĂbrio interior, gerado no impensável ou impensado de nĂłs, Ă© um sentimento estĂ©tico, um modo de sermos em sensibilidade, antes de o sermos em. razĂŁo ou mesmo em inteligĂŞncia. Porque sĂł se entende o que se entende connosco, ou seja, como no amor, quando se está «feito um para o outro». SĂł entra em harmonia connosco o que o nosso equilĂbrio consente. E sĂł o consente, se o amar. Porque mesmo a verdade dos outros — a polĂtica, por exemplo — se temos improvavelmente de a reconhecer, reconhecemo-la talvez no Ăłdio, que Ă© a outra face do amor e se organiza ainda na sensibilidade.
A Dificuldade de Estabelecer e Firmar Relações
A dificuldade de estabelecer e firmar relações. Há uma tĂ©cnica para isso, conheço-a. Nunca pude meter-me nela. Ser «simpático». É realmente fácil: prestabilidade, autodomĂnio. Mas. Ser sociável exige um esforço enorme — fĂsico. Quem se habituou, já se nĂŁo cansa. Tudo se passa Ă superfĂcie do esforço. Ter «personalidade»: nĂŁo descer um milĂmetro no trato, mesmo quando por delicadeza se finge. Assumirmos a importância de nĂłs sem o mostrar. Darmo-nos valor sem o exibir. Irresistivelmente, agacho-me. E logo: a pata dos outros em cima. Bem feito. Pois se me pus a jeito. E entĂŁo reponto. O fim. Ser prestável, colaborar nas tarefas que os outros nos inventam. ColĂłquios, conferĂŞncias, organizações de. Ah, ser-se um «inĂştil» (um «parasita»…). Razões profundas — um complexo duplo que vem da juventude: incompreensĂŁo do irmĂŁo corpo e da bolsa paterna. O segundo remediou-se. Tenho desprezo pelo dinheiro. Ligo tĂŁo pouco ao dinheiro que nem o gasto… Mas «gastar» faz parte da «personalidade». SaĂşde — mais difĂcil. Este ar apeurĂ© que vem logo ao de cima. A Ăşnica defesa, obviamente, Ă© o resguardo, o isolamento, a medida.
É fácil ser «simpático», difĂcil Ă© perseverar, assumir o artifĂcio da facilidade. Conservar os amigos. «NĂŁo Ă©s capaz de dar nada»,
Pensar o Meu PaĂs
Pensar o meu paĂs. De repente toda a gente se pĂ´s a um canto a meditar o paĂs. Nunca o tĂnhamos pensado, pensáramos apenas os que o governavam sem pensar. E de sĂşbito foi isto. Mas para se chegar ao paĂs tem de se atravessar o espesso nevoeiro da mediocralhada que o infestou. Será que a democracia exige a mediocridade? Mas os povos civilizados dizem que nĂŁo. NĂłs Ă© que temos um estilo de ser medĂocres. NĂŁo Ă© questĂŁo de se ser ignorante, incompetente e tudo o mais que se pode acrescentar ao estado em bruto. NĂŁo Ă© questĂŁo de se ser estĂşpido. Temos saber, temos inteligĂŞncia. A questĂŁo Ă© sĂł a do equilĂbrio e harmonia, a questĂŁo Ă© a do bom senso. Há um modo profundo de se ser que fica vivo por baixo de todas as cataplasmas de verniz que se lhe aplicarem. Há um modo de se ser grosseiro, sem ao menos se ter o rasgo de assumir a grosseria. E o resultado Ă© o ridĂculo, a fĂfia, a «fuga do pĂ© para o chinelo». O Espanhol Ă© um «bárbaro», mas assume a barbaridade. NĂłs somos uns campĂłnios com a obsessĂŁo de parecermos civilizados. O FrancĂŞs Ă© um ser artificioso,