Deveres Virtuosos
Os nossos hĂĄbitos tornam-se virtudes graças a uma transposição livre no domĂnio do dever, pelo facto de trazermos a inviolabilidade nos conceitos; os nossos hĂĄbitos tornam-se virtudes pelo facto de acharmos menos importante o bem particular que a sua inviolabilidade â por consequĂȘncia pelo sacrifĂcio do indivĂduo ou pelo menos pela possibilidade entrevista de um tal sacrifĂcio. â Quando o indivĂduo se considera pouco importante começa o domĂnio das virtudes e das artes â o nosso mundo metafĂsico. O dever seria particularmente puro se na essĂȘncia das coisas nada correspondesse ao facto moral.
Textos sobre EssĂȘncia de Friedrich Nietzsche
5 resultadosĂ Actuando que Devemos Abandonar
Eu odeio, no fundo, toda a moral que diz: «NĂŁo faças isto, nĂŁo faças aquilo. Renuncia. Domina-teâŠÂ». Gosto, pelo contrĂĄrio, da moral que me leva a fazer uma coisa, a refazĂȘ-la, a pensar nela de manhĂŁ Ă noite, a sonhar com ela durante a noite, e a nĂŁo ter jamais outra preocupação que nĂŁo seja fazĂȘ-la bem, tĂŁo bem quanto for capaz entre todos os homens. A viver assim despojamo-nos, uma a uma, de todas as preocupaçÔes que nĂŁo tĂȘm nada a ver com esta vida: vĂȘ-se sem Ăłdio nem repugnĂąncia desaparecer hoje isto, amanhĂŁ aquilo, folhas amarelas que o menor sopro um pouco vivo solta da ĂĄrvore; ou mesmo nem sequer se dĂĄ por isso, de tal modo o objectivo absorve o olhar, de tal modo o olhar se obstina em ver para diante, nĂŁo se desviando nunca, nem para a direita nem para a esquerda, nem para cima nem para baixo. «à a nossa actividade que deve determinar o que temos de abandonar; Ă© actuando que deixaremos», eis o que amo, eis o meu prĂłprio placitum! Mas eu nĂŁo quero trabalhar para me empobrecer mantendo os olhos abertos, nĂŁo quero essas virtudes negativas que tĂȘm por essĂȘncia a negação e a renĂșncia.
A Sabedoria do Sofrimento
O sofrimento nĂŁo tem menos sabedoria do que o prazer: tal como este, faz parte em elevado grau das forças que conservam a espĂ©cie. Porque se fosse de outra maneira hĂĄ muito que esta teria desaparecido; o facto de ela fazer mal nĂŁo Ă© um argumento contra ela, Ă© muito simplesmente a sua essĂȘncia. Ouço nela a ordem do capitĂŁo: «Amainem as velas». O intrĂ©pido navegador homem deve treinar-se a dispor as suas de mil maneiras; de outro modo, nĂŁo tardaria a desaparecer, o oceano havia de o engolir depressa. Ă preciso que saibamos viver tambĂ©m reduzindo a nossa energia; logo que o sofrimento dĂĄ o seu sinal, Ă© chegado o momento; prepara-se um grande perigo, uma tempestade, e faremos bem em oferecer a menor «superfĂcie» possĂvel.
HĂĄ homens, contudo, que, quando se aproxima o grande sofrimento, ouvem a ordem contrĂĄria e nunca tĂȘm ar mais altivo, mais belicoso, mais feliz do que quando a borrasca chega, que digo eu! E a prĂłpria tempestade que lhes dĂĄ os seus mais altos momentos! SĂŁo os homens herĂłicos, os grandes «pescadores da dor», esses raros, esses excepcionais de que Ă© necessĂĄrio fazer a mesma apologia que se faz para a prĂłpria dor!
A Doutrina do Objectivo da Vida
Quer considere os homens com bondade ou malevolĂȘncia, encontro-os sempre, a todos e a cada um em particular, empenhados na mesma tarefa: tornar-se Ășteis Ă conservação da espĂ©cie. E isto nĂŁo por amor a essa espĂ©cie, mas simplesmente porque nĂŁo hĂĄ neles nada mais antigo, mais poderoso, mais impiedoso e mais invencĂvel do que esse instinto⊠porque esse instinto Ă© propriamente a essĂȘncia da nossa espĂ©cie, do nosso rebanho.
Se bem que se chegue assaz rapidamente, com a miopia ordinĂĄria, a separar a cinco passos os nossos semelhantes em Ășteis e em prejudiciais, em seres bons e maus, quando fazemos o nosso balanço final e reflectimos sobre o conjunto acabamos por desconfiar destas depuraçÔes, destas distinçÔes, e acabamos por renunciar a elas.
Talvez o homem mais prejudicial seja ainda, no fim de contas, o mais Ăștil Ă conservação da espĂ©cie; porque sustenta em si mesmo, ou nos outros, com a sua acção, instintos sem os quais a humanidade estaria hĂĄ muito tempo mole e corrompida. O Ăłdio, o prazer de prejudicar, a sede de tomar e de dominar, e, de uma maneira geral, tudo aquilo a que se dĂĄ o nome de mal, nĂŁo passam no fundo de um dos elementos da espantosa economia da conservação da espĂ©cie;
A Sabedoria do Corpo
Tu dizes «eu» e orgulhas-te desta palavra. Mas hå qualquer coisa de maior, em que te recusas a aceditar, é o teu corpo e a sua grande razão; ele não diz Eu, mas procede como Eu.
Aquilo que a inteligĂȘncia pressente, aquilo que o espĂrito reconhece nunca em si tem o seu fim. Mas a inteligĂȘncia e o espĂrito quereriam convencer-te que sĂŁo o fim de todas as coisas; tal Ă© a sua soberba.
InteligĂȘncia e espĂrito nĂŁo passam de instrumentos e de brinquedos; o Em si estĂĄ situado para alĂ©m deles. O Em si informa-se tambĂ©m pelos olhos dos sentidos, ouve tambĂ©m pelos ouvidos do espĂrito.
O Em si estå sempre à escuta, alerta; compara, submete; conquista, destrói. Reina, e é também soberano do Eu.
Por detrĂĄs dos teus pensamentos e dos teus sentimentos, meu irmĂŁo, hĂĄ um senhor poderoso, um sĂĄbio desconhecido: chama-se o Em si. Habita no teu corpo, Ă© o teu corpo.
HĂĄ mais razĂŁo no teu corpo do que na prĂłpria essĂȘncia da tua sabedoria.