Da Liberdade
A: Eis uma bateria de canhÔes que atira junto aos nossos ouvidos; tendes a liberdade de ouvi-la e de a não ouvir?
B: Ă claro que nĂŁo posso evitar ouvi-la.
A: DesejarĂeis que esse canhĂŁo decepasse a vossa cabeça e as da vossa mulher e da vossa filha que estivessem convosco?
B: Que espĂ©cie de proposição me fazeis? Eu jamais poderia, no meu sĂŁo juĂzo, desejar semelhante coisa. Isso Ă©-me impossĂvel.
A: Muito bem; ouvis necessariamente esse canhĂŁo e, tambĂ©m necessariamente, nĂŁo quereis morrer, vĂłs e a vossa famĂlia, de um tiro de canhĂŁo; nĂŁo tendes nem o poder de nĂŁo o ouvir nem o poder de querer permanecer aqui.
B: Isso Ă© evidente.
A: Em consequĂȘncia, destes uma trintena de passos a fim de vos colocardes ao abrigo do canhĂŁo: tivestes o poder de caminhar comigo estes poucos passos?
B: Nada mais verdadeiro.
A: E se fĂŽsseis paralĂtico? NĂŁo terĂeis podido evitar ficar exposto a essa bateria; nĂŁo terĂeis o poder de estar onde agora estais: terĂeis entĂŁo necessariamente ouvido e recebido um tiro de canhĂŁo e necessariamente estarĂeis morto?
B: Nada mais claro.
A: Em que consiste, pois,
Textos Exclamativos de Voltaire
3 resultadosA Subjectividade do Amor-PrĂłprio
Um mendigo dos arredores de Madrid esmolava nobremente. Disse-lhe um transeunte:
– O senhor nĂŁo tem vergonha de se dedicar a mister tĂŁo infame, quando podia trabalhar?
– Senhor, – respondeu o pedinte – estou-lhe a pedir dinheiro e nĂŁo conselhos. – E com toda a dignidade castelhana virou-lhe as costas.
Era um mendigo soberbo. Um nada lhe feria a vaidade. Pedia esmola por amor de si mesmo, e por amor de si mesmo nĂŁo suportava reprimendas.
Viajando pela Ăndia, topou um missionĂĄrio com um faquir carregado de cadeias, nu como um macaco, deitado sobre o ventre e deixando-se chicotear em resgate dos pecados de seus patrĂcios hindus, que lhe davam algumas moedas do paĂs.
– Que renĂșncia de si prĂłprio! – dizia um dos espectadores.
– RenĂșncia de mim prĂłprio? – retorquiu o faquir. – Ficai sabendo que nĂŁo me deixo açoitar neste mundo senĂŁo para vos retribuir no outro. Quando fordes cavalo e eu cavaleiro.
Tiveram pois plena razĂŁo os que disseram ser o amor de nĂłs mesmos a base de todos as nossas acçÔes – na Ăndia, na Espanha como em toda a terra habitĂĄvel. SupĂ©rfluo Ă© provar aos homens que tĂȘm rosto.
Amor Comparado
Queres ter uma ideia do amor, vĂȘ os pardais do teu jardim; vĂȘ os teus pombos; contempla o touro que se leva Ă tua vitela; olha esse orgulhoso cavalo que dois valetes teus conduzem Ă Ă©gua em paz que o espera, e que desvia a cauda para recebĂȘ-lo; vĂȘ como os seus olhos cintilam; ouve os seus relinchos; contempla os seus saltos, camabalhotas, orelhas eriçadas, boca que se abre com pequenas convulsĂ”es, narinas que se inflam, sopro inflamado que delas sai, crinas que se revolvem e flutuam, movimento imperioso com o qual o cavalo se lança para o objecto que a natureza lhe destinou; mas nĂŁo tenhas inveja, e pensa nas vantagens da espĂ©cie humana: elas compensam com amor todas as que a natureza deu aos animais, força, beleza, ligeireza, rapidez. HĂĄ atĂ© mesmo animais que nĂŁo sabem o que Ă© o gozo. Os peixes escamados sĂŁo privados dessa doçura: a fĂȘmea lança no lodo milhĂ”es de ovos; o macho que os encontra passa sobre eles e fecunda-os com a sua semente, sem saber a que fĂȘmea eles pertencem. A maior parte dos animais que copulam sĂł tĂȘm prazer por um sentido; e, assim que esse apetite Ă© satisfeito, tudo se extingue.