Escrever com Intuição e Instinto
Outra coisa que nĂŁo parece ser entendida pelos outros Ă© quando me chamam de intelectual e eu digo que nĂŁo sou. De novo, nĂŁo se trata de modĂ©stia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual Ă© usar sobretudo a inteligĂŞncia, o que eu nĂŁo faço: uso Ă© a intuição, o instinto. Ser intelectual Ă© tambĂ©m ter cultura, e eu sou tĂŁo má leitora que, agora já sem pudor, digo que nĂŁo tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade. AlĂ©m do que leio pouco: sĂł li muito, e li avidamente o que me caĂsse nas mĂŁos, entre os treze e os quinze anos de idade. Depois passei a ler esporadicamente, sem ter a orientação de ninguĂ©m. Isto sem confessar que – dessa vez digo-o com alguma vergonha – durante anos eu sĂł lia romance policial. Hoje em dia, apesar de ter muitas vezes preguiça de escrever, chego de vez em quando a ter mais preguiça de ler do que de escrever.
Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros uma profissão, nem uma carreira. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis.
Textos sobre Instinto de Clarice Lispector
4 resultadosSer Feliz Ă© uma Responsabilidade Muito Grande
Ser feliz Ă© uma responsabilidade muito grande. Pouca gente tem coragem. Tenho coragem mas com um pouco de medo. Pessoa feliz Ă© quem aceitou a morte. Quando estou feliz demais, sinto uma angĂşstia amordaçante: assusto-me. Sou tĂŁo medrosa. Tenho medo de estar viva porque quem tem vida um dia morre. E o mundo me violenta. Os instintos exigentes, a alma cruel, a crueza dos que nĂŁo tĂŞm pudor, as leis a obedecer, o assassinato — tudo isso me dá vertigem como há pessoas que desmaiam ao ver sangue: o estudante de medicina com o rosto pálido e os lábios brancos diante do primeiro cadáver a dissecar. Assusta-me quando num relance vejo as entranhas do espĂrito dos outros. Ou quando caio sem querer bem fundo dentro de mim e vejo o abismo interminável da eternidade, abismo atravĂ©s do qual me comunico fantasmagĂłrica com Deus.
Perguntas e Respostas
— Qual é a coisa mais antiga do mundo?
— Poderia dizer que é Deus que sempre existiu.
— Qual é a coisa mais bela?
— O instante de inspiração.
— E Deus quando criou o Universo não o fez no momento de Sua maior inspiração?
— O Universo sempre existiu. O cosmos é Deus.
— Qual das coisas é a maior?
— O amor, que é o maior dos mistérios.
— Das coisas qual é a mais constante?
— O medo. Que pena que eu não possa responder: é a esperança.
— Qual o melhor dos sentimentos?
— O de amar e ao mesmo tempo ser amada, o que parece apenas um lugar-comum mas é uma de minhas verdades.
— Qual é o sentimento mais rápido?
— O sentimento mais rápido, que chega a ser apenas um fulgor, é o instante em que um homem e uma mulher sentem um no outro a promessa de um grande amor.
— Qual é a mais forte das coisas?
— O instinto de ser.
— O que é mais fácil de se fazer?
— Existir,
Luto por uma Novidade de EspĂrito
Procuro me manter isolada contra a agonia de viver dos outros, e essa agonia que lhes parece um jogo de vida e morte mascara uma outra realidade, tĂŁo extraordinária essa verdade que os outros cairiam de espanto diante dela, como num escândalo. Enquanto isso, ora estudam, ora trabalham, ora amam, ora crescem, ora se afanam, ora se alegram, ora se entristecem. A vida com letra maiĂşscula nada pode me dar porque vou confessar que tambĂ©m eu devo ter entrado por um beco sem saĂda como os outros. Porque noto em mim, nĂŁo um bocado de fatos, e sim procuro quase tragicamente ser. É uma questĂŁo de sobrevivĂŞncia assim como a de comer carne humana quando nĂŁo há alimento. Luto nĂŁo contra os que compram e vendem apartamentos e carros e procuram se casar e ter filhos mas luto com extrema ansiedade por uma novidade de espĂrito. Cada vez que me sinto quase um pouco iluminada vejo que estou tendo uma novidade de espĂrito.
Minha vida é um reflexo deformado assim como se deforma num lago ondulante e instável o reflexo de um rosto. Imprecisão trémula. Como o que acontece com a água quando se mergulha a mão na água.