Somos o Mistério

No fim desta Ă©poca, como se toda a longa viagem tivesse sido inĂștil, volto a ficar sozinho nos territĂłrios recĂ©m-descobertos. Como na crise do nascimento, como no começo alarmante e alarmado do terror metafĂ­sico donde brota o manancial dos meus primeiros versos, como num novo crepĂșsculo que a minha prĂłpria criação provocou, entro numa nova agonia e na segunda solidĂŁo. Para onde ir? Para onde regressar, conduzir, calar ou palpitar? Olho para todos os pontos da claridade e da obscuridade e nĂŁo encontro senĂŁo o vazio que as minhas prĂłprias mĂŁos elaboraram com persistĂȘncia fatal.

Mas o mais próximo, o mais fundamental, o mais extenso, o mais incalculåvel, não apareceria, afinal, senão neste momento no meu caminho. Tinha pensado em todos os mundos, mas não no homem. Tinha explorado com crueldade e agonia o coração do homem. Sem pensar nos homens, tinha visto cidades, mas cidades vazias. Tinha visto fåbricas de trågico aspecto, mas não vira o sofrimento debaixo dos tectos, sobre as ruas, em todas as estaçÔes, nas cidades e no campo.

Às primeiras balas que trespassaram as violas de Espanha, quando, em vez de sons, saĂ­ram delas borbotĂ”es de sangue, a minha poesia deteve-se como um fantasma no meio das ruas da angĂșstia humana e começou a subir por ela uma torrente de raĂ­zes e de sangue.

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