Crueldade e Sofrimento
A crueldade Ă© constitutiva do universo, Ă© o preço a pagar pela grande solidariedade da biosfera, Ă© ineliminável da vida humana. Nascemos na crueldade do mundo e da vida, a que acrescentámos a crueldade do ser humano e a crueldade da sociedade humana. Os recĂ©m-nascidos nascem com gritos de dor. Os animais dotados de sistemas nervosos sofrem, talvez os vegetais tambĂ©m, mas foram os humanos que adquiriram as maiores aptidões para o sofrimento ao adquirirem as maiores aptidões para a fruição. A crueldade do mundo Ă© sentida mais vivamente e mais violentamente pelas criaturas de carne, alma e espĂrito, que podem sofrer ao mesmo tempo com o sofrimento carnal, com o sofrimento da alma e com o sofrimento do espĂrito, e que, pelo espĂrito, podem conceber a crueldade do mundo e horrorizar-se com ela.
A crueldade entre homens, indivĂduos, grupos, etnias, religiões, raças Ă© aterradora. O ser humano contĂ©m em si um ruĂdo de monstros que liberta em todas as ocasiões favoráveis. O Ăłdio desencadeia-se por um pequeno nada, por um esquecimento, pela sorte de outrem, por um favor que se julga perdido. O Ăłdio abstracto por uma ideia ou uma religiĂŁo transforma-se em Ăłdio concreto por um indivĂduo ou um grupo;
Textos Longos de Edgar Morin
3 resultadosSingularidade(s)
Quem sou eu? A minha singularidade dissolve-se quando a examino e, por fim, fico convencido de que a minha singularidade vem de uma ausência de singularidade. Tenho mesmo em mim algo de mimético que me impele a ser como os outros. Em Itália sinto-me italiano e gostaria que os italianos me sentissem como participante na sua italianidade. Outro dia, ao falar a um auditório da Champanha senti-me champanhizado. Ah sim, gostaria de ser como eles. Adoro ser integrado e, contudo, não sou inteiramente de uns e dos outros. Poderia ser de todo o lado, mas nem por isso me sinto de alguma parte, estou enraizado assim.
NĂŁo Ă© o exercĂcio de um talento singular nem a posse de uma admirável verdade que me distinguem. Se me distingo Ă© pelo uso nĂŁo inibido ou cristalizado de uma máquina cerebral comum e pela minha preocupação permanente em obedecer Ă s regras primeiras desta máquina cognitiva: ligar todo o conhecimento separado, contextualizá-lo, situar todas as verdades parciais no conjunto de que fazem parte.
Personalidades Potenciais
Trazemos connosco personalidades potenciais que acontecimentos ou acidentes podem potencializar. Assim, a Revolução fez surgir o gĂ©nio polĂtico ou militar nos jovens destinados a uma carreira medĂocre numa Ă©poca normal; a guerra provoca o advento de herĂłis e de carrascos; a ditadura totalitária transformou seres pálidos em monstros. O exercĂcio incontrolado do poder pode «tornar o sábio louco» (Alain) mas pode tornar sábio o louco, e dar gĂ©nio ao medĂocre, como no caso de Hitler e Estaline. E tambĂ©m as possibilidades de gĂ©nio ou de demĂŞncia, de crueldade ou de bondade, de santidade ou de monstruosidade, virtuais em todos os seres, podem desenvolver-se em circunstâncias excepcionais.
Inversamente, estas possibilidades nunca chegarão à luz do dia na chamada vida normal: nos nossos dias, César seria funcionário da CEE, Alexandre teria escrito uma vida de Aristóteles para uma colecção de divulgação, Robespierre seria adjunto de Pierre Mauroy na Câmara de Arras, e Bonaparte seria do séquito de Pascua.