A Decadência do Coração nos Tempos Modernos
Nestes ruins tempos de material e nauseante industrialismo, a fase do coração Ă© curta, o amor vem temporĂŁo, e como que apodrece antes de sazonado. De toda a parte, aos ouvidos do mancebo vem a soada do martelar da indĂşstria. A sociedade, aparelhada em oficina, nĂŁo dá por ele, se o nĂŁo vĂŞ a labutar e mourejar no veio da riqueza. TĂtulos, glĂłria, homenagens, regalos, as feições todas da festejada máscara, com que por aqui nos andamos entrudando uns aos outros, sĂł pode ser afivelada com broches de ouro. Dislates do amor empecem o ir direito ao fim. O coração Ă© vĂscera que derranca o sangue, se com as muitas vertigens o vascoleja demais. Faz-se mister abafar-lhe as válvulas e exercitar o cĂ©rebro, onde demora a bossa do cálculo, da empresa, da sordĂcia gananciosa, e outras muitas bossas filiadas ao estĂ´mago, o qual Ă©, sem debate, a vĂscera por excelĂŞncia, o luzeiro perene entre as trevas que ofuscam as almas.
Textos sobre Ouvidos de Camilo Castelo Branco
2 resultadosO Homem Pensador e a Mulher Faladora
O homem pensador Ă© necessariamente taciturno. A mulher faladora nĂŁo consegue atordoar-lhe o espĂrito, mas faz-lhe nos ouvidos a traquinada intolerável de uma matraca. A matraca afuguenta do coração todas as quimeras do amor. NĂŁo vos caseis com homem pensador, mulheres que falais um momento antes de pensar o que direis. O amor —se vo-lo pode inspirar tal homem—fará que nĂŁo fecheis olhos velando-lhe a doença; fará que lhe sacrifiqueis os haveres, a reputação e a vida; fará tudo que humanamente pode fazer um anjo de sacrifĂcio, mas nĂŁo vos fará calar. O feudo mais pesado que uma tal mulher pĂ´de impĂ´r a um homem Ă© — a obrigação de ouvi-la.
A ofensa que tal mulher nunca perdoa Ă© — a insolĂŞncia de ouvi-la, sem escutá-la. Vejam num dicionário a diferença das duas palavras. Escutar Ă© querer ouvir. Uma bela mulher, capaz de extremos, tentou a franqueza do amante que, em vĂ©speras de matrimonio, lhe disse: «nĂŁo faltes tanto.» A noiva pesou estas palavras, reflectiu, calculou as suas forças, chorou, atormentou-se, e disse: «nĂŁo me casarei: Ă© impossĂvel calar-me.» Para que me nĂŁo tomem isto como anedota, Ă© preciso dizer-lhes que esta mulher foi acerbamente ferida no seu orgulho.