A Incapacidade de Amar Alguém
Para falar com franqueza, não considero grave a incapacidade de amar alguém. O que significa amar? Na sua maioria, as pessoas coabitam sem necessidade de um sentimento que desconhecem até ao momento em que o leem num romance ou o veem num filme. O facto de, à partida, não sabermos o que é, indica talvez que se trata de algo que não existe dentro de nós, que nos é inculcado, ou que importamos. Se não estou em erro, era um velho filósofo francês que dizia que, quando um homem exprime o muito que ama a senhora marquesa, o muito que aprecia a sua inteligência — como é harmoniosa nos seus movimentos, que ideias tão extraordinárias tem, que sensibilidade tão requintada exibe —, aquilo que realmente quer dizer é que está doido por foder com ela. Julgo que há aí alguma verdade. Confundimos empatia ou compaixão com desejo, julgamos querer acarinhar, proteger, quando na verdade queremos penetrar, violar.
Textos sobre Pessoas de Rafael Chirbes
6 resultadosO Medo de Acabar Só
Há muitos que não fazem mais do que discutir e bulhar o dia inteiro, e depois surpreendem-se com qualquer mudança numa situação que consideram segura porque estável. O rancor é uma boa forma de garantir companhia, o poder de lançar à cara de alguém, todos os dias, o mal que nos fez: isso cria estabilidade. As pessoas pensam: que hei de fazer? Ficar sozinho? Ouve-los falar e parece ser isso o que mais temem: ficarem sós. A solidão. O abandono. Palavras tristes ou ameaçadoras. Terríveis: logo verás o que é a velhice, se cometeres o erro de ficar solteiro. Assustam-te com isso. Dizem-te: se continuas assim, vais ficar sozinho. É horrível morrer sozinho, como um cão, dizem. E parece ser essa a pior desgraça; há que morrer, sim, toda a gente tem de morrer, mas acompanhado, e não como um cão. Morrer sozinho é desolador, é indecente, revela uma falha humana (do ser humano, como diria Francisco: a expressão comove) que deve ser dissimulada, mantida na sombra.
Depois do Casamento
Tenho a certeza. Uma pessoa casa sem saber bem o que faz, a juventude, as ilusões, porque durante o namoro as pessoas só mostram o que têm de melhor, só a parte boa, e às vezes até fingem essa parte, com muita manha. Só depois do casamento ficamos a conhecer realmente o outro. Mas isso até o sabem as velhas, que nos dizem que as coisas foram sempre assim e que nós, raparigas novas, não fazemos caso delas, ficamos cegas de amor e não queremos ouvir a voz da experiência, pois somos tolas ao ponto de pensar que nunca ninguém se apaixonou como nós, como se tivéssemos sido nós a inventar o amor.
Os Momentos Decisivos
Tendemos a pensar que a verdade das pessoas emerge nos momentos decisivos, no fio da navalha, quando se testam os limites. A hora dos santos e dos heróis. Ora bem, nesses momentos o comportamento humano não costuma ser nem exemplar nem animador. A chusma que se acotovela para chegar primeiro à bilheteira da sala de concertos; os espectadores que se atropelam ao fugir de um teatro em chamas, espezinhando os mais fracos sem se aperceberem deles, a criança, as cansadas carnes do ancião, calcadas pelos tacões das jovens mulheres que se aperaltaram para a saída noturna; os honrados cidadãos, incluindo as senhoras — de boas famílias, ou de famílias humildes, nisso não há distinções —, que golpeiam furiosamente com os remos as cabeças dos náufragos que tentam subir para o bote salva-vidas superlotado. Salve-se quem puder.
Um Homem de Sucesso
Uma pessoa não é exatamente o que come, como diz o ditado e como eu próprio dei por garantido; uma pessoa é sobretudo o lugar onde come, e com quem come, e a correção com que nomeia o que come e a segurança com que escolhe, da ementa, os pratos certos, perante testemunhas. Um homem de sucesso é, muito especialmente, aquele que depois diz onde comeu e com quem. São essas coisas que definem o seu estatuto e a altitude a que voa, e que determinam se vaie a pena perder um quarto de hora com ele, pagar-lhe um copo e até tentar marcar um jantar para outro dia, estabelecer uma relação. Ou se, pelo contrário, deves responder-lhe que estás atrasado para uma reunião e consultar duas ou três vezes o relógio antes de te afastares rapidamente, mesmo que ele esteja disposto a pagar–te o jantar.
A Solidão é Pior do que a Pobreza
Ris-te do que te digo, mas quando chegar a tua hora, verás a falta que te vai fazer um apoio e o muito que precisamos de carinho para ir vivendo, à medida que os anos passam. Alguém que esteja ao teu lado, que te pegue na mão nos teus últimos instantes (que mais podemos fazer a um moribundo?). E quando os ouves falar assim, angustias-te, imaginas-te sem conseguires levantar-te da cama, agarrado às costas das cadeiras para te moveres dentro de casa, apoiando-te às paredes para alcançares a casa de banho, ensopado num rançoso suor senil; ou morrendo asfixiado, engasgado com qualquer coisa, com um pedaço de cartilagem de vaca mal mastigado, um simples gole de água, uma migalha de pão, um desses comprimidos que tomas para a hipertensão, para facilitar o fluxo sanguíneo, para o colesterol, para a hiperglicemia; vês-te afogado na tua própria saliva: tosses, sufocas, sem ninguém por perto que te dê uma palmada nas costas, ou te meta os dedos na boca para te ajudar a expelir o que tens atravessado na garganta, alguém que chame o 112 ou te meta num carro e te leve a toda a velocidade para o hospital ou o centro de saúde mais próximo.