A Primeira Palavra que em Toda a Minha Vida me Esgotou o Ser
Uma palavra. Disse-a. Amo-te – uma palavra breve. Quantos milhões de palavras eu disse durante a vida. E ouvi. E pensei. Tudo se desfez. Palavras sem inteira significação em si, o professor devia ter razĂŁo. Palavras que remetiam umas para as outras e se encostavam umas Ă s outras para se aguentarem na sua rede aĂ©rea de sons. Mas houve uma palavra – meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das vĂsceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Todas as outras palavras estavam a mais e dispensavam-se e eram uma articulação ridĂcula de sons e mobilizavam apenas a parte mecânica de mim, a parte frágil e vĂŁ. Palavra absoluta no entendimento profundo do meu olhar no teu, palavra infinita como o verbo divino. Recordo-a agora – onde está? Como se desfez? Ou nĂŁo desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a fracção de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaixĂŁo. NĂŁo haverá entĂŁo uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira? E nĂŁo deixe de mim um recanto oculto que nĂŁo venha Ă sua chamada e vibre nela desde os mais finos filamentos de si?
Textos sobre Professores de VergĂlio Ferreira
2 resultadosAquilo em que se Tem Mais Vaidade Ă© o Corpo
Aquilo em que se tem mais vaidade Ă© o corpo. Mesmo que aleijado, há sempre um pormenor que nos envaidece. CompĂ´-lo. Arranjá-lo. O careca puxa o cabelo desde o cachaço ou do olho do cĂş para tapar a degradação. O marreco faz peito. O espelho Ă© para todos o grande dialogante. Passa-se a uma vitrina e olha-se de soslaio a ver como se vai. Uma mulher perfeita (e um homem) nĂŁo inveja o intelectual, o artista. O inverso Ă© que Ă©. Muitas mulheres (e homens) cultivam a excepcionalidade do seu espĂrito ou engenho por complexo ou vingança. Quando se nĂŁo tem já vaidade no corpo, está-se no fim. Mas mesmo num leito de morte nos queremos «compostos». «NĂŁo me descomponhas» — disse a marquesa de Távora ao carrasco, uns momentos antes de ser decapitada. Tomam-se providĂŞncias para como se há-de ir no caixĂŁo. A degradação do corpo Ă© a Ăşltima coisa que se aceita. Hoje lavei o carro e vesti um calção para me nĂŁo molhar. Dei uma vista de olhos ao espelho. Grumos, tumefacções pelas pernas. NĂŁo gostei. NĂŁo muito tempo. Lembrou-me um certo professor. Tinha a bossa da oratĂłria. E entĂŁo contava: escrevia um discurso e lia. Parecia-lhe pĂ©ssimo.