Aprende a Ser como os Outros
NĂŁo precisamos de ler, estudar ou conhecer ninguĂ©m, quando produzimos nĂłs prĂłprios. Pois nĂŁo basta que produzamos nĂłs prĂłprios? E gostemos de nĂłs prĂłprios? Que nos pode dar o espĂrito alheio, quando sobre o prĂłprio nosso desceu em lĂnguas de fogo a sabedoria de tudo? Melhor: A verdade Ă© que nem precisamos nĂłs prĂłprios de produzir (toda a produção Ă© uma limitação), ou mal precisamos de produzir, para usufruirmos as vantagens do criador e produtor. (…) Aprende a contar uma anedota; duas anedotas; trĂŞs anedotas; quatro anedotas… uma anedota diverte muita gente; quatro anedotas divertem muito mais… aprende a polvilhar de blague todas essas ideias sĂ©rias, pesadas, profundas, obscuras, – ao cabo simplesmente maçadoras – com que pretendes sufocar (…); aprende a cultivar aquele subtil espĂrito de futilidade que ligeiramente embriaga como um champanhe, e a toda a gente agrada, lisonjeia todos, por a todos nos dar a reconfortante impressĂŁo de pertencermos ao mesmo meio… estarmos ao mesmo nĂvel; nĂŁo queiras ser nem sobretudo sejas mais inteligente ou mais sensĂvel, mais honesto ou mais sincero, mais trabalhador ou mais culto, mais profundo ou mais agudo… numa palavra: superior. Sim, homem! aprende a ser como os outros, dizendo bem ou mal de tudo e todos –
Textos sobre Próprio de José Régio
3 resultadosOriginalidade Verdadeira e Originalidade Falseada
Em Arte, Ă© vivo tudo o que Ă© original. É original tudo o que provĂ©m da parte mais virgem, mais verdadeira e mais Ăntima duma personalidade artĂstica. A primeira condição duma obra viva Ă© pois ter uma personalidade e obedecer-lhe. Ora como o que personaliza um artista Ă©, ao menos superficialmente, o que o diferencia dos demais, (artistas ou nĂŁo) certa sinonĂmia nasceu entre o adjectivo original e muitos outros, ao menos superficialmente aparentados; por exemplo: o adjectivo excĂŞntrico, estranho, extravagante, bizarro… Eis como Ă© falsa toda a originalidade calculada e astuciosa.
Eis como tambĂ©m pertence Ă literatura morta aquela em que um autor pretende ser original sem personalidade prĂłpria. A excentricidade, a extravagância e a bizarria podem ser poderosas – mas sĂł quando naturais a um dado temperamento artĂstico. Sobre outras qualidades, o produto desses temperamentos terá o encanto do raro e do imprevisto. Afectadas, semelhantes qualidades nĂŁo passarĂŁo dum truque literário.
Literatura Eterna ou Temporal
Penso eu que a literatura pode responder a interrogações, pode tentar responder-lhes, pode simplesmente pĂ´-las e pode nem sequer pĂ´-las. Há a contar com a variedade dos temperamentos literários. Coisa difĂcil, sei-o por experiĂŞncia prĂłpria, embora deva estar na base de qualquer atitude crĂtica. Aceitemos, porĂ©m, que toda a grande literatura põe interrogações, e lhes procura resposta. Pergunto: NĂŁo poderá admitir-se que seja antes Ă s interrogações eternas do homem eterno que a literatura procura responder? NĂŁo envelhecerá uma obra de arte precisamente na medida em que sĂł responde Ă s inquietações de uma Ă©poca? E nĂŁo perdurará na medida em que, atravĂ©s, ou nĂŁo, de respostas provisĂłrias a interrogações provisĂłrias, sugere uma resposta eterna a interrogações eternas, exprime inquietações eternas embora de forma pessoal?
Entendamo-nos: Há quem, no homem, antes considere o homem eterno, e quem antes considere o homem temporal. O leitor compreende que chamo homem eterno ao que, no homem, permanece através da diversidade das épocas, dos meios, das circunstâncias históricas, das modalidades individuais; e que chamo homem temporal ao que nele depende destas coisas. Evidentemente, o homem que através da literatura se nos revela é, ao mesmo tempo, um e outro: o temporal e o eterno. Mas a questão é esta: Será antes pelo que nos revela do homem temporal que uma obra dura por humana –