Textos sobre Qualidade de François de La Rochefoucauld

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Textos de qualidade de François de La Rochefoucauld. Leia este e outros textos de François de La Rochefoucauld em Poetris.

Os Gostos

A palavra «gosto» tem vårios significados e é fåcil o engano. Hå uma diferença entre aquele gosto que nos leva a escolher coisas e aquele que nos leva a conhecer e discernir as qualidades quando se segue as regras. Podemos gostar de comédias sem ter um gosto tão apurado e delicado que nos permita ajuizar do seu valor, como podemos ter o bom gosto para emitir juízos sobre as comédias, sem gostar desse género dramåtico. Existe um tipo de gosto que nos aproxima imperceptivelmente do que temos à nossa frente, hå outros que nos prendem pela sua força e duração.
TambĂ©m hĂĄ pessoas que tĂȘm mau gosto em tudo, outras sĂł nalgumas coisas, mas ambos os casos tĂȘm esse direito, no que toca ao alcance que cada um tem. Outros ainda tĂȘm gostos particulares, que sabem que sĂŁo maus, sem deixarem de segui-los. HĂĄ aqueles que tĂȘm gostos imprecisos e estes deixam que o acaso decida por eles. Mudam com ligeireza e ficam contentes ou maçam-se com o que os seus amigos dizem. Outros sĂŁo sempre previstos, sendo escravos de todos os seus gostos, respeitando-os em todas as matĂ©rias. HĂĄ quem seja sensĂ­vel ao bem e que se choque com o que Ă© mau.

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A Confiança é o Elo entre a Sociedade e a Amizade

Ainda que a sinceridade e a confiança estejam relacionadas, sĂŁo, no entanto, diferentes: a sinceridade consiste em abrir o coração e em mostrarmo-nos tal como somos por amor da verdade. Odeia o disfarce e quer reparar as suas faltas, mesmo que para isso seja preciso diminui-las pelo valor da confissĂŁo. Quanto Ă  confiança, esta nĂŁo nos concede o mesmo grau de liberdade, as suas regras sĂŁo mais rigorosas, requer mais prudĂȘncia e moderação. Ora, nem sempre estamos livres para obedecer a estes requisitos. NĂŁo somos sĂł nĂłs, no que a ela diz respeito, que estamos envolvidos, porque os nossos interesses misturam-se quase sempre com os dos outros. Requer uma enorme justeza para nĂŁo levar os nossos amigos a entregarem-se, pelo facto de nĂłs nos termos entregado, como para lhes oferecer um presente, com a Ășnica intenção de aumentar o preço do que nĂłs damos.
Fica-se sempre satisfeito com o facto de os outros depositarem confiança em nĂłs porque Ă© um tributo que oferecemos ao nosso mĂ©rito, Ă© um depĂłsito que fazemos Ă  nossa confiança, sĂŁo, enfim, fianças que lhes dĂŁo algum direito sobre nĂłs, isto Ă©, aceitamos uma certa dependĂȘncia Ă  qual nos sujeitamos voluntariamente. NĂŁo, nĂŁo Ă© minha intenção destruir com as minhas palavras a confiança,

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Sobre a Diferença dos Espíritos

Apesar de todas as qualidades do espĂ­rito se poderem encontrar num grande espĂ­rito, algumas hĂĄ, no entanto, que lhe sĂŁo prĂłprias e especĂ­ficas: as suas luzes nĂŁo tĂȘm limites, actua sempre de igual modo e com a mesma actividade, distingue os objectos afastados como se estivessem presentes, compreende e imagina as coisas mais grandiosas, vĂȘ e conhece as mais pequenas; os seus pensamentos sĂŁo elevados, extensos, justos e intelegĂ­veis; nada escapa Ă  sua perspicĂĄcia, que o leva sempre a descobrir a verdade, atravĂ©s das obscuridades que a escondem dos outros. Mas, todas estas grandes qualidades nĂŁo impedem por vezes que o espĂ­rito pareça pequeno e fraco, quando o humor o domina.
Um belo espĂ­rito pensa sempre nobremente; produz com facilidade coisas claras, agradĂĄveis e naturais; torna visĂ­veis os seus aspectos mais favorĂĄveis, e enfeita-os com os ornamentos que melhor lhes convĂȘm; compreende o gosto dos outros e suprime dos seus pensamentos tudo o que Ă© inĂștil ou lhe possa desagradar. Um espĂ­rito recto, fĂĄcil e insinuante sabe evitar e ultrapassar as dificuldades; adapta-se facilmente a tudo o que quer; sabe conhecer e acompanhar o espirito e o humor daqueles com quem priva e ao preocupar-se com os interesses dos amigos,

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O Homem Congrega Todas as Espécies de Animais

HĂĄ tĂŁo diversas espĂ©cies de homens como hĂĄ diversas espĂ©cies de animais, e os homens sĂŁo, em relação aos outros homens, o que as diferentes espĂ©cies de animais sĂŁo entre si e em relação umas Ă s outras. Quantos homens nĂŁo vivem do sangue e da vida dos inocentes, uns como tigres, sempre ferozes e sempre cruĂ©is, outros como leĂ”es, mantendo alguma aparĂȘncia de generosidade, outros como ursos grosseiros e ĂĄvidos, outros como lobos arrebatadores e impiedosos, outros ainda como raposas, que vivem de habilidades e cujo ofĂ­cio Ă© enganar!
Quantos homens nĂŁo se parecem com os cĂŁes! Destroem a sua espĂ©cie; caçam para o prazer de quem os alimenta; uns andam sempre atrĂĄs do dono; outros guardam-lhes a casa. HĂĄ lebrĂ©us de trela que vivem do seu mĂ©rito, que se destinam Ă  guerra e possuem uma coragem cheia de nobreza, mas hĂĄ tambĂ©m dogues irascĂ­veis, cuja Ășnica qualidade Ă© a fĂșria; hĂĄ cĂŁes mais ou menos inĂșteis, que ladram frequentemente e por vezes mordem, e hĂĄ atĂ© cĂŁes de jardineiro. HĂĄ macacos e macacas que agradam pelas suas maneiras, que tĂȘm espĂ­rito e que fazem sempre mal. HĂĄ pavĂ”es que sĂł tĂȘm beleza, que desagradam pelo seu canto e que destroem os lugares que habitam.

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Sobre o Falso

Somos falsos de maneiras diferentes. HĂĄ homens falsos que querem parecer sempre o que nĂŁo sĂŁo. Outros hĂĄ de melhor fĂ©, que nasceram falsos, se enganam a si prĂłprios o nunca vĂȘem as coisas tal como sĂŁo. HĂĄ alguns cujo espĂ­rito Ă© estreito e o gosto falso. Outros tĂȘm o espĂ­rito falso, mas alguma correcção no gosto. E ainda hĂĄ outros que nĂŁo tĂȘm nada de falso, nem no gosto nem no espĂ­rito. Estes sĂŁo muito raros, jĂĄ que, em geral, nĂŁo hĂĄ quase ninguĂ©m que nĂŁo tenha alguma falsidade algures, no espĂ­rito ou no gosto.
O que torna essa falsidade tĂŁo universal, Ă© que as nossas qualidades sĂŁo incertas e confusas e a nossa visĂŁo tambĂ©m: nĂŁo vemos as coisas tal como sĂŁo, avaliamo-las aquĂ©m ou alĂ©m do que elas valem e nĂŁo as relacionamos connosco da forma que lhes convĂ©m e que convĂ©m ao nosso estado e Ă s nossas qualidades. Esse erro de cĂĄlculo traz consigo um nĂșmero infinito de falsidades no gosto e no espĂ­rito: o nosso amor-prĂłprio lisonjeia-se como tudo que se nos apresenta sob a aparĂȘncia de bem; mas como hĂĄ vĂĄrias formas de bem que sensibilizam a nossa vaidade ou o nosso temperamento,

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