A Inutilidade do Viajar
Que utilidade pode ter, para quem quer que seja, o simples facto de viajar? NĂŁo Ă© isso que modera os prazeres, que refreia os desejos, que reprime a ira, que quebra os excessos das paixĂ”es erĂłticas, que, em suma, arranca os males que povoam a alma. NĂŁo faculta o discernimento nem dissipa o erro, apenas detĂ©m a atenção momentaneamente pelo atractivo da novidade, como a uma criança que pasma perante algo que nunca viu! AlĂ©m disso, o contĂnuo movimento de um lado para o outro acentua a instabilidade (jĂĄ de si considerĂĄvel!) do espĂrito, tornando-o ainda mais inconstante e incapaz de se fixar. Os viajantes abandonam ainda com mais vontade os lugares que tanto desejavam visitar; atravessam-nos voando como aves, vĂŁo-se ainda mais depressa do que vieram. Viajar dĂĄ-nos a conhecer novas gentes, mostra-nos formaçÔes montanhosas desconhecidas, planĂcies habitualmente nĂŁo visitadas, ou vales irrigados por nascentes inesgotĂĄveis; proporciona-nos a observação de algum rio de caracterĂsticas invulgares, como o Nilo extravasando com as cheias de VerĂŁo, o Tigre, que desaparece Ă nossa vista e faz debaixo de terra parte do seu curso, retomando mais longe o seu abundante caudal, ou ainda o Meandro, tema favorito das lucubraçÔes dos poetas, contorcendo-se em incontĂĄveis sinuosidades,
Textos sobre Rios de SĂ©neca
2 resultadosA Felicidade na Perseverança
Meu bem-amado LucĂlio, conjuro-te a tomar o Ășnico partido que pode garantir a felicidade. Dispersa e pisoteia os esplendores de fora, as suas promessas, os seus lucros; volta o olhar para o vero bem; sĂȘ feliz mercĂȘ do teu prĂłprio cabedal. Qual Ă© esse cabedal? Tu mesmo, e a melhor parte de ti. Este pobre corpo esforça-se por ser nosso colaborador indispensĂĄvel; considera-o antes um objecto necessĂĄrio do que importante. Ele procura os prazeres vĂŁos, breves, seguidos de descontentamento e destinados, se uma grande moderação nĂŁo os tempera, a passarem para o estado oposto. Sim, sim, o prazer estĂĄ Ă beira de um declive: inclina-se para o sofrimento quando deixa de observar o justo limite. Ora, observar tal limite Ă© difĂcil em relação Ă quilo que se acreditou fosse um bem. O ĂĄvido desejo do verdadeiro bem nĂŁo oferece risco algum.
Em que consiste o verdadeiro bem – quereis saber – e qual Ă© a fonte de onde emana?Eu to direi: Ă© a boa consciĂȘncia, as intençÔes virtuosas, as rectas acçÔes, o desprezo pelos eventos fortuitos, o desenvolvimento tranquilo e regular de uma existĂȘncia que anda por um sĂł caminho. Quanto a esses homens que vĂŁo de desejo em desejo,