Amor nĂŁo Tem NĂșmero
Se vocĂȘ nĂŁo tomar cuidado vira nĂșmero atĂ© para si mesmo. Porque a partir do instante em que vocĂȘ nasce classificam-no com um nĂșmero. Sua identidade no FĂ©lix Pacheco Ă© um nĂșmero. O registro civil Ă© um nĂșmero. Seu tĂtulo de eleitor Ă© um nĂșmero. Profissionalmente falando vocĂȘ tambĂ©m Ă©. Para ser motorista, tem carteira com nĂșmero, e chapa de carro. No Imposto de Renda, o contribuinte Ă© identificado com um nĂșmero. Seu prĂ©dio, seu telefone, seu nĂșmero de apartamento â tudo Ă© nĂșmero.
Se Ă© dos que abrem crediĂĄrio, para eles vocĂȘ Ă© um nĂșmero. Se tem propriedade, tambĂ©m. Se Ă© sĂłcio de um clube tem um nĂșmero. Se Ă© imortal da Academia Brasileira de Letras tem o nĂșmero da cadeira.
Ă por isso que vou tomar aulas particulares de MatemĂĄtica. Preciso saber das coisas. Ou aulas de FĂsica. NĂŁo estou brincando: vou mesmo tomar aulas de MatemĂĄtica, preciso saber alguma coisa sobre cĂĄlculo integral.
Se vocĂȘ Ă© comerciante, seu alvarĂĄ de localização o classifica tambĂ©m.
Se Ă© contribuinte de qualquer obra de beneficĂȘncia tambĂ©m Ă© solicitado por um nĂșmero. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de negĂłcio recebe um nĂșmero. Para tomar um aviĂŁo,
Textos sobre Sol de Clarice Lispector
3 resultadosMais do que Amor
O amor veio afirmar todas as coisas velhas de cuja existĂȘncia apenas sabia sem nunca ter aceito e sentido. O mundo rodava sob seus pĂ©s, havia dois sexos entre os humanos, um traço ligava a fome Ă saciedade, o amor dos animais, as ĂĄguas das chuvas encaminhavam-se para o mar, crianças eram seres a crescer, na terra o broto se tornaria planta. NĂŁo poderia mais negar… o quĂȘ? â perguntava-se suspensa. O centro luminoso das coisas, a afirmação dormindo em baixo de tudo, a harmonia existente sob o que nĂŁo entendia.
Erguia-se para uma nova manhĂŁ, docemente viva. E sua felicidade era pura como o reflexo do sol na ĂĄgua. Cada acontecimento vibrava em seu corpo como pequenas agulhas de cristal que se espedaçassem. Depois dos momentos curtos e profundos vivia com serenidade durante largo tempo, compreendendo, recebendo, resignando-se a tudo. Parecia-lhe fazer parte do verdadeiro mundo e estranhamente ter-se distanciado dos homens. Apesar de que nesse perĂodo conseguia estender-lhes a mĂŁo com uma fraternidade de que eles sentiam a fonte viva. Falavam-lhe das prĂłprias dores e ela, embora nĂŁo ouvisse, nĂŁo pensasse, nĂŁo falasse, tinha um olhar bom â brilhante e misterioso como o de uma mulher grĂĄvida.
Quantas Vezes a InsĂłnia Ă© um Dom
Mas quantas vezes a insĂłnia Ă© um dom. De repente acordar no meio da noite e ter essa coisa rara: solidĂŁo. Quase nenhum ruĂdo. SĂł o das ondas do mar batendo na praia. E tomo cafĂ© com gosto, toda sozinha no mundo. NinguĂ©m me interrompe o nada. Ă um nada a um tempo vazio e rico. E o telefone mudo, sem aquele toque sĂșbito que sobressalta. Depois vai amanhecendo. As nuvens se clareando sob um sol Ă s vezes pĂĄlido como uma lua, Ă s vezes de fogo puro. Vou ao terraço e sou talvez a primeira do dia a ver a espuma branca do mar. O mar Ă© meu, o sol Ă© meu, a terra Ă© minha. E sinto-me feliz por nada, por tudo. AtĂ© que, como o sol subindo, a casa vai acordando e hĂĄ o reencontro com meus filhos sonolentos.