Textos sobre Soluços

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Textos de soluços escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Homem Amesquinhado

Apesar do quadro negro de uma cĂșpula polĂ­tica e intelectual desvairada e grossa e de um povo abandonado a seu prĂłprio destino, ainda havia ali, no paĂ­s, naquele espantoso verĂŁo de 1955, uma considerĂĄvel energia vital, uma exaltada alegria de viver, acentuada, em alguns lugares e num ou noutro indivĂ­duo, ainda mais possuĂ­do do gozo pleno de um extraodinĂĄrio senso lĂșdico tropical. EstĂĄvamos, poderĂ­amos nos considerar como estando, num dos Ășltimos redutos do ser humano. Depois disso viria o fim, nĂŁo, como todos pensavam, com um estrondo, mas com um soluço. A densa nuvem desceria, nĂŁo, como todos pensavam, feita de molĂ©culas radioativas, mas da grosseria de todos os dias, acumulada, aumentada, transmitida, potenciada. O homem se amesquinharia, vĂ­tima da mesquinharia do seu semelhante, cada dia menos atento a um gesto de gentileza, a um ato de beleza, a um olhar de amor desinteressado, a uma palavra dita com uma precisa propriedade. E tudo começou a ficar densamente escuro, porque tudo era terrivelmente patrocinado por enlatadores de banha, fabricantes de chouriço e vendedores de desodorante, de modo que toda a pretensa graça da vida se dirigia apenas Ă  barriga dos gordos, Ă  tripa dos porcos, ou, no mĂĄximo de finura e elegĂąncia,

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Somos uma Turba e Ninguém

Somos uma turba e ninguĂ©m: um ninguĂ©m que vive, porque Ă© sangue e carne, e existe porque Ă© esqueleto ou pedra; e uma turba da espectros que nos acompanha desde a Origem, e Ă© a nossa mesma pessoa multiplicada em mil tendĂȘncias incoerentes, forças contraditĂłrias, em vĂĄrios sentidos ignotos… E lĂĄ vamos, a tactear as trevas, ladeando, avançando, recuando, como pobres jumentos aflitos e Ă s escuras, sob as esporas que o espicaçam para a frente e as rĂ©deas que o puxam para trĂĄs.
Pobres jumentos aflitos e às escuras! Escouceiam, orneiam, levantam a garupa. De que serve? As patas ferem o ar e aquela voz de soluços, que faz rir, não chega ao céu.
(…) Deus, criando as almas, condenou-as Ă  suprema solidĂŁo. Algumas iludem a pena. Imaginam conviver com as ĂĄrvores e os penedos. Falam Ă s ĂĄrvores e aos penedos, queixando-se dos seus desgostos. (…) Somos uma turba e ninguĂ©m. Somos Deus e o DemĂłnio, o CĂ©u e a Terra e outras letras grandes e NinguĂ©m.

Chorar e Rir

E enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo, cansativo; mas uma boa distribuição de lågrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessåria, e faz-se o equilíbrio da vida.